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Marcello Póvoa
Convergência

TV 2.0

11 de novembro de 2007, 16:49

A televisão como a conhecemos inicia a maior transformação desde sua criação.

Por Marcello Póvoa

Nas últimas décadas a televisão cresceu quantitativamente em audiência, alcançando literalmente bilhões de espectadores. O conteúdo de TV nunca parou de evoluir em qualidade - tanto tecnicamente quanto editorialmente.

No entanto, o conceito de televisão como mídia permanece consistente há dezenas de anos. Tanto pela visão corporativa do modelo de negócio, como pelo ângulo do consumidor na outra ponta, a televisão pouco mudou conceitualmente. Tal observação não é de forma alguma uma crítica negativa. Pelo contrário, a consistência é resultado de uma mídia que tem obtido absoluto sucesso histórico, desde sua infância lá pela metade do século 20.

Apesar de todo o sucesso, este cenário inicia talvez o processo mais profundo de transformação desde sua criação. Estamos falando de uma mudança muito mais poderosa do que foi, por exemplo, o surgimento da TV a cores nos lares, ou mesmo a transmissão global via satélite inaugurada com uma performance dos Beatles no final década de 60.

Os fatores que disparam a mudança do modelo de TV são complexos. No cerne da questão, foi possivelmente o fenômeno da digitalização da informação que serviu de pavio para toda a explosão de inovações que abalam conceitos que têm se mostrado sólidos fazem décadas. Informação digital, que demanda redes de transmissão digital, que demandam aparelhos que “entregam” esta informação e ao mesmo tempo coletam mais informação.

Um exemplo trivial: informação em forma de vídeo digital, trafegando por uma rede IP e sendo visualizado por uma televisão ou celular. Logo em seguida, este mesmo usuário gera um comentário sobre este vídeo e o envia para outros usuários na rede. Por trás desta aparentemente simples sequência de ações temos uma magnitude de transformações.

As premissas do jogo

Ao visualizar este macro cenário, temos dois fatores que serão críticos no futuro da TV:

1) Informação em formato digital engloba conteúdos “tradicionais” (vídeo, música, texto etc. ) e serviços transacionais de potencialmente qualquer natureza (e-commerce em todas as suas variantes, jogos, GPS, comunicação via texto, imagem e voz, e o que a imaginação permitir). A relação de simbiose entre conteúdos e serviços digitais será chave para uma diferenciação competitiva, substituindo modelos tradicionais de negócio por novas fontes de receita.

2) Temos agora múltiplos canais de distribuição de conteúdos e serviços digitais. Seja através de uma rede fechada ou aberta, o aparelho de televisão não é mais único perante o consumidor. Celular, PC e a evolução do próprio aparelho de TV vão dividir os interesses do consumidor.

Tendo estes dois fatores como premissas, já temos substância suficiente para delinear o quão complexo será o mercado da informação nos próximos anos. A evolução destas premissas começa a apagar as linhas territoriais de pelo menos quatro indústrias de porte: grupos de mídia, telecomunicação, software e as novas porém já influentes empresas exclusivamente “.com”, como o Google, por exemplo.

Todas estas empresas possuem em seu “core business” propriedades intelectuais, operacionais e financeiras para atuar no futuro da televisão. A questão mais delicada talvez seja justamente o quanto uma empresa nestas indústrias quer se afastar de seu “core business’ e iniciar uma diversificação por áreas que agora são potencialmente promissoras. Ou seja, seria uma diversificação ou uma perda de foco? Uma diversificação pode definitivamente abrir novas frentes, mas também pode desproteger a evolução do que tem sido o foco principal da empresa por décadas. Encontrar este equilíbrio é um desafio que está diariamente no pensamento estratégico das principais cabeças destas quatro indústrias.

A consequência natural da nebulosidade nas fronteiras territoriais nestas industrias é bastante cartesiana: ou vão competir, ou vão se unir.

O começo da mudança

Como resultado de toda esta reviravolta estratégica e tecnológica, temos uma série de fatos relevantes acontecendo - e que vão aos poucos moldando a face da televisão digital nos próximos anos:

  • conteúdo em alta definição (HDTV);
  • conteúdo e serviços via rede IP (IPTV);
  • evolução dos conteúdos e serviços via cabo e satélite;
  • televisão no celular, PC, na nova geração de aparelhos de TV ou qualquer dispositivo que “entenda” informação digital.;

Estamos evoluindo para uma experiência de TV que tem a capacidade de entregar conteúdos de alta qualidade e serviços transacionais integrados - e é parte inerente de uma rede de tráfego de dados. O consumidor continua faminto por entretenimento e jornalismo, mas também quer serviços funcionais na ponta dos dedos, e muito importante: quer se comunicar com outros consumidores. Emoção e razão de mãos dadas.

Apesar das muitas variáveis nesta nova experiência de TV, um ponto é historicamente certeiro: vai ganhar competitividade quem conquistar coração e mente do consumidor. É tão simples e tão complexo quanto isso. As empresas vencedoras serão as que dominarem o desejo de consumo.

O que será preponderante na decisão de compra? O conteúdo, o serviço, ou a união dos dois? Que fatores farão consumidores migrar para um canal de distribuição de conteúdo e serviços digitais? Obviamente esta novela ainda tem muitos episódios pela frente, e qualquer conclusão seria precipitada.

O desejo do consumidor

Apenas para ilustrar a questão, voltemos à uma sacada sobre o consumidor em um outro momento e contexto do tempo, em que nem se falava em televisão atrelada ao mundo digital. Esta sacada literalmente mudou o rumo do mercado consumidor. Talvez o cenário digital atual não estivesse acontecendo - ao menos nesta velocidade de cruzeiro - não fosse esta percepção à frente de seu tempo.

No final da década de 70, um jovem visionário chamado Bill Gates percebeu que o desejo de consumo por computadores pessoais seria comandado pela escolha do software, e não mais pela escolha do hardware. Mr. Gates previu o desejo do consumidor antes do próprio consumidor. Mr. Gates é hoje o homem mais rico do mundo. [Webinsider]

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Sobre o autor

Marcello PóvoaMarcello Póvoa (mpovoa@mppsolutions.com) é sócio-diretor da MPP Solutions.

Apoio:

  • LayerDev Serviços de Webhosting Profissional

Palavras-chave relacionadas a este texto: [ Banda Larga ] [ TV, vídeo ] [ google ] [ Vendas ] [ microsoft ] [ celular ] [ publicidade ]

Comentários

5 pessoas comentaram o artigo "TV 2.0"

Thiago Valenti Data: 11/11/2007 às 7:16 pm

Atividade: Designer gráfico

Cidade: Balneário Camboriú - SC

Ahm, “evolução dos conteúdos”, será que vai evoluir? Ou vai continuar a mesma mesmisse, mas agora em HDVT e com “interatividade”?

Fernando Cordeiro Data: 12/11/2007 às 7:55 am

Atividade:

Cidade:

Pois é.
Assim como o amigo Thiago acima, digo o mesmo.

Acredito que a TV digital é a maior pinóia evolutiva dos últimos tempos.

Vamos ter os anúncios das Casas Bahia clicáveis, vc vai poder votar no BBB edição 187 pela tv, e ver as rugas e pelancas do Fagundes e da Fisher em alta qualidade.

O melhor? TUDO ISSO EM CANAIS DIFERENTES!

Céus. [risos]

Cabe apenas a mim, como um comunicador também, aprender ao longos dos próximos 10/15 anos [média prevista para a tv se fixar] como desenvolver conteúdo para esta plataforma e como gerar crossmedia.

Abraço! =)

Leandro Corso Data: 13/11/2007 às 11:50 am

Atividade: Webdesigner

Cidade: Curitiba

Mídia de massa sempre existirá porque sempre existirá a massa. Outro dia (sóbrio) profetizei que no final da 3ª guerra mundial, quando os únicos sobreviventes da grande explosão atômica forem as baratas, elas (as baratas) poderão assistir e interagir com a TV digital, um programa de auditório apresentando por um ciborgue usando apenas o cérebro e a peruca do Silvio Santos.
Não é porque a massa prefere programação sensacionalista e de baixa qualidade que devemos perder a fé no que vem por aí.
Particularmente estou otimista, ainda não entendo em profundidade como será a TV digital, mas acredito que abrirão novas demandas e possibilidades.

Felipe Valério Data: 21/11/2007 às 1:01 pm

Atividade:

Cidade:

Boa, Marcello!

Divido com você a opinião de que prever a mente do consumidor reflete diretamente na forma como novas alternativas serão estimuladas. No entanto, temo pela confusão teórica entre “entender” e “construir” a mente do consumidor.

Explico: muitas vezes o surgimento de novos meios de divulgação publicitária - incluo, obviamente, as alternativas digitais - funcionam como construtores de oportunidades para as empresas. “Você tem um celular? Ótimo, enviarei uma mensagem com uma proposta imperdível de uma geladeira.”

Nosso grito de apoio deve ser mais em relação ao desenvolvimento de conteúdo relevante do que as novas oportunidades de divulgação desenfreada.

Abs!

roberto lima Data: 29/01/2008 às 5:40 pm

Atividade: diretor de conteúdo

Cidade: são paulo

Antes de mais nada será preciso definir pontos importantes:

1)o ginga ,o midlleware brasileiro , vai permitir que nivel de interatividade?
2)até agora não foi definido qual a forma de canal de retorno que será utilizada, e sem canal de retorno não há interatividade.

Sem estes dois fatores esclarecidos, a TV diggital brasileira será uma TV de poucos, uma mera zappeadora.

Acredito que neste ponto, apesar de lutar ainda por uma regulamentação a IPTV esteja melhor preparada, algumas operadoras já começam a trabalhar o VOD ( só temos que tomar cuidado para que a programação não seja toda de conteúdo internacional, deixando de lado o produto nacional).

Não se esqueçam, que a maior vantagem da TV 2.0 vai ser a possibilidade do ensino a distânica, além de proporcionar os chamados canais de nicho, a possibilidade da criação de vários canais voltados para comunidades especificas ( TV PESCA, TV Bolinha de Gude , e etc).

Além é claro de proporcionar o conhecimento pleno de quem está consumindo determinado conteúdo, publicitariamente isto fará uma enorme diferença.

Também dará a possibilidade de novas profissões, e de uma abrtura de mercado muito grande para os desenvolvedores de conteúdo.

Potencialidade existe, só nos resta acreditar e lutar para torna-la real.

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