O papel do administrador e o conteúdo na Wikipédia
11 de julho de 2007, 11:20Opinião: editor da enciclopédia livre discorda em relato ácido de decisões dos administradores, que seriam conservadores demais ao não abrir espaço para temas novos. Comunidades, trabalho a distância e relacionamento.
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Todos conhecem a Wikipédia. Ela deixou de ser uma novidade e ultimamente tem sido até esquecida nos bate-papos-cabeça sobre os rumos da internet, as maravilhas da Web 2.0 ou qualquer outra conversa moderninha onde ela é (era) sempre citada. Por esta razão este não é mais um daqueles artigos sobre as promessas de futuro e glória da Wikipédia, que impulsionarão outras comunidades geradoras de conhecimento e colaboração comunitária.
Este também não é um artigo sobre os defeitos da Wikipédia e sua fiabilidade como enciclopédia (entretanto, se você se interessa por este assunto, sugiro ler Referência fast-food, de Antonio Luiz Monteiro, da revista Carta Capital).
Este é um artigo sobre pessoas que vivem na Wikipédia e que tentam transformá-la em sua propriedade. Este artigo é sobre controle autoritário, sobre democracia “para inglês ver”, sobre como regras e políticas oficiais do projeto são desrespeitadas em nome de uma agenda pessoal, sem que seus praticantes e perpetuadores sofram sansões e sejam desestimulados.
Este é um artigo sobre as claras disputas de poder e politicagem, que tornam a Wikipédia um local cada vez mais difícil de se contribuir (e acreditar), sobre como a colaboração coletiva, igualitária e horizontal (motes e bandeiras originais do projeto) tem sido queimada em uma fogueira de vaidades. Fogueira abastecida por aqueles que deveriam ser os primeiros a combater o fogo.
Não se engane
O leitor não deve se enganar. O conceito de conhecimento comunitário e a idéia do projeto da Wikipédia são louváveis e funcionam, são capazes de produzir bons resultados. A idéia de que todo humano possa livremente compartilhar a soma de todo o conhecimento do mundo, apesar de um tanto quanto romântica e utópica, é interessante e válida do ponto de vista teórico. Mas a prática, como sabemos, teima em se mostrar diferente. E é sobre a prática que as críticas têm se erguido.
A Wikipédia inglesa (ou anglófona) possui um número significativamente maior de contribuintes. É também a maior (em número de artigos) das enciclopédias no formato Wiki. Em suma, é uma enciclopédia mais madura, onde as críticas aos problemas políticos já encontram maior embasamento e clareza para serem estabelecidas. São também aceitas e encaradas com menor estranheza e reação por parte de simpatizantes apaixonados pelo projeto, que costumam atacá-las como sendo obras de pessoas que não conhecem o projeto, que não compreendem o espírito wiki e por tabela o trabalho dos administradores.
As críticas contam inclusive com sites dedicados à questão, uma vez que estas normalmente não são bem vindas dentro do projeto. Alguns são um pouco escrachados, outros mais sérios (porém não menos ácidos). Todos têm sua razão de existir, e todos compartilham uma crítica em comum: os mandos e desmandos dos administradores da Wikipédia.
Administradores e sua influência sobre o conteúdo
O que são administradores da Wikipédia? Segundo a própria Wikipédia, administradores são editores que têm direitos de operador (sysop) no sistema MediaWiki - o software por trás da Wikipédia - e são escolhidos pela comunidade na forma de votações. Nestas votações, são levados em conta basicamente o tempo de contribuição no projeto (número de edições) e a popularidade e confiança depositada pela comunidade no candidato. Este é um processo aparentemente meritocrático, mas a realidade é outra.
Explico: neste processo o que se valoriza é a quantidade e não a qualidade. Devemos lembrar que a Wikipédia é uma enciclopédia. Bem vistos e respeitados são aqueles com o maior número de contribuições no sistema. Respeitados e eleitos são aqueles que vigiam o conteúdo existente com afinco, de forma a reverter vandalismos e outros ataques (que acontecem com freqüência, diga-se), mas que freqüentemente produzem pouco ou nenhum conteúdo real para a base de conhecimento. Especialistas e suas contribuições esporádicas não são valorizadas, pelo contrário.
Na Wikipédia individualidades devem ser eliminadas por completo, em nome de um coletivismo quase maoísta, imposto pelos operários de Mao Jim Wales, ou Jimbo, para os íntimos. Contribuições individuais são vistas muitas vezes como meros atos de vaidade e, por esta razão, são controladas à exaustão, utilizando como argumento uma suposta falta de relevo enciclopédico.
A discussão sobre o que é enciclopédico, e o que merece um artigo ou não na Wikipédia, é quase sempre resolvida utilizando-se o número de resultados retornados pelo Google, como se isso fosse um fator determinante para a relevância de um determinado assunto.
Por este raciocínio, poderíamos entender que George Bush é realmente o resultado de uma miserable failure, ou que o presidente Lula é apenas um déspota cachaceiro. Diante deste fato vemos algumas aberrações, como artigos sobre personalidades ou fatos históricos ou relevantes sendo eliminados por falta de referências no Google, e claro, por falta de conhecimento daqueles propõe a eliminação destes. Aliás, você se surpreenderia com a idade real de muitos destes editores e administradores com um número alto de edições, respeitados pela “comunidade”. Alguns têm apenas 16 anos de idade. Novamente é a quantidade ao invés da qualidade.
E qual é a “comunidade” que participa destas eleições? A resposta pode parecer óbvia e democrática: “oras, todos aqueles que editam na Wikipédia”. Será mesmo? Você já edita na Wikipédia? Se sim, participa de muitas decisões da comunidade? Ok… Vamos usar um exemplo mais mundano: você freqüenta as reuniões do seu condomínio? Acho que deu para entender onde eu quero chegar. Esse é o tipo de democracia que vemos na Wikipédia, a democracia de condomínio. Uma democracia pouco representativa, e que por ser uma democracia, é apoiada e aceita por muitos, sem muitas reclamações.
Você pode até “pertencer” a uma comunidade, mas “participar” de uma é algo que pouca gente faz, especialmente no Brasil (país com o maior número de editores e contribuintes da Wikipédia lusófona). Não me espanta este comportamento, vemos isso todos os dias em outros locais. Esse comportamento, somado ao fato de que as decisões da comunidade quase sempre estão escondidas atrás de muitos cliques (não é fácil encontrar coisas na Wikipédia), abre a possibilidade para que grupos específicos atuem de forma livre e organizada, em nome de interesses nem sempre representativos e significativos. Seria amizade, simpatia, alinhamento político e ideológico ou simplesmente tempo de sobra o que determina o respeito que um editor tem para com outro?
Pelo que vi em um ano como editor esporádico e muitas brigas, é quase sempre isso o que acontece: um pequeno grupo que se auto-elege e dita o rumo das coisas. Basta saber que a Wikipédia conta com aproximadamente 9 mil editores registrados (o número de editores anônimos é incerto), quando o número de votantes para eleição de um administrador, por exemplo, chega no máximo a 50 editores.
Qual é o problema com os administradores?
Eu poderia passar horas escrevendo sobre os problemas pontuais causados por administradores (na verdade eu até já fiz isso), mas a resposta mais curta e direta que tenho é: eles se dedicam demasiadamente a controlar o que não precisa ser controlado.
Por esta razão reduzem indiretamente a qualidade da Wikipédia e limitam-na ao tamanho de seus braços e dedos, àquilo que podem controlar com suas ferramentas - além de espantar colaboradores valiosos (especialmente novatos) com sua xenofobia mal resolvida. Dedicam-se a politizar a Wikipédia e imprimir uma agenda pessoal, o que vai contra toda a idéia do projeto. Estes usuários administradores simplesmente adotaram a Wikipédia como sua casa, como morada virtual e não podem viver sem ela, não podem ser removidos ou desestimulados, pois o que se valoriza na Wikipédia não é a qualidade de suas contribuições, é o seu número de edições.
Sim, alguns administradores estão conectados e editando quase que 18 horas por dia, todos os dias, sem trégua e descanso. Pode parecer uma atitude altruísta e digna, em nome de um projeto comunitário, mas a realidade e a prática é que muitos estão na Wikipédia apenas procurando poder, o pequeno poder. Afinal, são humanos e este é um comportamento absolutamente natural entre seres humanos. A síndrome do pequeno poder tem efeitos péssimos no médio e longo prazo para qualquer tipo de organização, não é diferente na Wikipédia.
Entre os poderes especiais de edição dos administradores, estão o bloqueio de usuários e o bloqueio de artigos, que ficam “protegidos” da edição de usuários comuns, registrados ou não. Freqüentemente administradores lançam mão destes e outros recursos para frear mudanças que eles julgam impertinentes ou que não estejam alinhadas com sua maneira de pensar ou ver determinado assunto ou artigo. Usam da força que lhes foi concedida para atacar e calar seus desafetos, promover uma disputa desigual, em que seus pontos de vista sempre prevalecem sobre o dos demais.
As políticas oficiais da Wikipédia desestimulam este tipo de comportamento, mas isso é teoria. Na prática estas regras são desrespeitadas todos os dias, a plena luz, justamente por administradores demasiadamente envolvidos (pessoalmente) no projeto ou com interesses fortes demais por determinados assuntos (religião, política e filosofia, por exemplo) para que o bom senso ou mesmo o senso comum prevaleçam. Muitos administradores são incapazes de assumir erros, e quando se aproximam de assumi-los, costumam buscar subterfúgios e interpretações próprias sobre as regras e políticas ali vigentes, para escapar de uma punição.
E o que é pior: para isso contam com a ajuda de seus pares, outros administradores ou usuários que anseiam o mesmo “cargo” dentro do sistema. Lembram-me os políticos do congresso brasileiro, que gastam 80% de seu tempo cuidando de assuntos internos, questões e opiniões pessoais, nomeações, disputas e o jogo político. Assim como alguns de nossos políticos, os administradores da Wikipédia passam boa parte do tempo advogando em causa própria, acima das leis que eles mesmos criaram (lembre-se das reuniões de condomínio…). Quase sempre saem impunes de seus erros e falta de decoro, uma vez que são julgados por seus pares, solidários e parceiros no jogo político, na fogueira de vaidades.
Conclusões
O que vemos é uma série de absurdos (lá fora eles usam o termo atrocidades, que acho um pouco pesado), que tiram do sério qualquer um que se digne a contribuir com a dita enciclopédia livre. A Wikipédia tem grande valor para assuntos novos e/ou específicos, não abrangidos pelas enciclopédias tradicionais.
Contudo, só se vê estabilidade e parcialidade em assuntos batidos, largamente conhecidos e notórios, justamente porque nestes não há margem para interpretações e disputas pessoais. Um tema novo e controverso fica à mercê da fogueira de vaidades de alguns poucos usuários com poderes especiais, até que atinja massa crítica suficiente para que o consenso seja estabelecido naturalmente (se é que um dia isso acontece). Justamente onde a Wikipédia é competitiva e interessante, vemos prevalecer a vontade de uma minoria militante e poderosa.
Se depender deste pequeno, mas poderoso grupo de editores, a Wikipédia poderá se transformar no maior exemplo de culto ao amadorismo. Eu acredito que isso não vá ocorrer, mas certamente correríamos menos riscos e percorreríamos um caminho menor caso estivéssemos mais abertos às críticas e aprendêssemos com os erros e acertos das Wikipédias mais antigas e maduras.
Atualmente grande parte dos administradores não está aberta às críticas. Para eles as críticas à sua atuação são meros flames gerados por trolls. É preocupante.
As críticas estão se tornando freqüentes e numerosas, inclusive com o apoio de ex-administradores e pessoas que um dia fizeram parte da dita “panelinha” (leia um esboço humorístico que por muito pouco não foi censurado na Wikipédia) e acompanham o ritmo de crescimento do número de editores. Este é um fenômeno novo na Wikipédia lusófona.
Lá fora (especialmente na Wikipédia inglesa e alemã) as críticas já estão bem estabelecidas e produzem efeitos positivos, especialmente sob a forma como a enciclopédia é administrada e os conflitos resolvidos. Em todos os casos ainda há muito que fazer. Ainda é necessário provar, de alguma maneira, que o conceito de conhecimento e controle comunitário não vai ser ditado por um pequeno grupo de xerifes, tal como acontece com o “movimento estudantil” dos dias de hoje. Só assim teremos uma enciclopédia realmente livre e de qualidade. [Webinsider]
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1° Henrique Data: 11/07/2007 às 12:12 pm
Atividade:
Cidade:
“Atualmente grande parte dos administradores não está aberta às críticas. Para eles as críticas à sua atuação são meros flames gerados por trolls. É preocupante.”
O termo ‘troll’ praticamente nasceu com a Internet. Os críticos da Internet só sabem ser críticos chatos, você os vê criticar, mas nunca construir nada - só avacalhar o que outros fazem.
Quando algo é novidade, todos voltam a atenção para ela. Quando deixa de ser novidade, banaliza, e todos começam a falar mal.
A Wikipédia já provou a sua utilidade.
Agora, mais importante de tudo: o fato da WIKIPÉDIA ser UMA ENCICLOPÉDIA EM QUE QUALQUER UM PODE EDITAR não a torna UMA FONTE DE INFORMAÇÃO IMPARCIAL.
Qualquer sistema que tenha um mecanismo regulador (administrador, revisor, etc), com o poder de vetar ou promover, o torna parcial, e portanto alvo ferrenho da crítica de alguns poucos. Isso é questão de comportamento humano, e não há o que mudar em relação à isso.