Senta que lá vem história
26 de abril de 2007, 15:58O valor dos que vieram antes.
Por
Não sei se vocês acompanham o Podcrer, podcast gravado por mim e pelo Michel Lent. Ele fez o convite e topei na hora, afinal já fazemos tantas coisas juntos há dez anos.
E até a escolha do nome foi engraçada: na hora de gravar o primeiro ainda não havia nenhum nome escolhido e o Michel já estava com o dedo no botão Play.
“Precisamos escolher um nome para o podcast para falar na gravação”, eu disse. “Como ainda não temos, vamos gravar assim mesmo e depois a gente edita o trechinho inicial e insere, que tal?”, sugeri.
“Pode crer”, respondeu ele, cariocamente.
“Michel, já temos o nome. Você acabou de falar”.
“Haha, é mesmo”.
Tem sido um prazer e desde então espero animado a chegada da segunda-feira à noite, hora em que conectamos nossos escaipes. E que bom saber que são quase 200 “ouvidas” por dia!
E olha o que chegou no e-mail hoje, vindo do Neto, da Bullet, muito mais dinossauro do que nós..
“Queridos Michel e Vicente,
Ninguém perguntou, mas considerando o trabalho de arqueologia desta edição do Podcrer, peço passagem para deixar meu registro paleontológico.
O ano é 1991 e a agência é a mesma Thompson, hoje JWT, que o Marcelo Sant’Iago se referiu.
Com o mesmo Jurandir de grata lembrança.
Mas, diferente do Marcelo, naquele tempo não era só domínio que a agência não tinha. No começo dos 90, não tinham nem computadores, perguntem ao Comodoro!
E quero ver quem acerta quem foi escolhido para coordenar a aquisição das máquinas da Burti? Euzinho aqui. Afinal, era eu o único que falava hexadecimal na criação. Ou era o que eles pensavam, já que eu sempre andava com meus disquetões pretos com a última versão do Excel e do Flight Simulator. Toca eu a assistir apresentações de Scitex.
Equipamento escolhido, diretores de arte análogos devidamente convertidos ao pânico, o diretor financeiro da agência - que resguardo o nome - me chama em sua ampla sala do primeiro andar:
“Netão…você sabe que esse negócio de computador não é barato, né?”
“Claro que sei senhor X”
“Então…e cada um tem que ter o seu? Ou dá pra dois ou três usarem o mesmo?”
“Não dá senhor X…é como se fosse escova de dente do sujeito…”
“Entendo.” - sem entender.
“Mas e essas impressoras…você viu quanto custa?”
E me mostra um pedaço de papel com tantos zeros que mais parecia um colar de pérolas.
“Caro, hem?” - não consegui contar os zeros
“Muito! Muito caro!”
Pausa reflexiva.
“Então Netão…comprando essas impressoras, eu entendo que vamos fazer tudo aqui dentro, não é?”
Por um segundo, achei que ele se referia aos layouts.
Mas o brilho nos olhos de um diretor financeiro de agência multinacional não esconde segredos.
Foi quando entendi o que passava por sua cabecinha gananciosa. Mas não me rendi facilmente:
“Depende do que o senhor chama de ‘tudo’” - não ia perder a chance de ouvi-lo dizer o que eu já havia entendido.
“Tudo, ora! Os outdoors…as provas…hmmm….revistas também?!”
Em sua ganância, o senhor X imaginava que os computadores seriam responsáveis pela derrocada das gráficas, aí meu deus!
O tempo passou, e lá por 1993 eu estava na Bullet.
Nas horas vagas, eu era co-op de uma BBS, a Comet, e passava as madrugadas conectado no meu modem 2.400.
Foi com esse know-how que a Bullet criou sua própria internet.
Numa promoção absolutamente pioneira, anotem aí no livro de história, conectamos 2 anos antes da internet comercial brasileira, 250 revendas Compaq.
Uma corrida de vendas onde cada vendedor ganhava pontos on-line - ou on-phone, na época.
Foi tão complicado, que no pátio da casa da Bullet, instalamos dois containers com uma equipe de técnicos em modem 24/7.
Operação de guerra.
Tempo passou, lá por 1994, compro uma revista inglesa com um disquete na capa e a promessa de “30 minutes of free internet!”
Me tranquei em casa com a Luli, na época minha namorada.
Eu morava num duplex. Ela ficou no andar de baixo e eu subi para o mezanino.
Botei o relógio do lado do computador e prometi para mim mesmo: sete minutos, no máximo!
Fiz meu computador acostumado com ligações locais, discar para Londres.
Barulho de fax. Textinho correndo na tela.
Conectou!
Lembro de pular pelo mezanino, de um lado pra outro, aos gritos, enquanto Luli olhava lá de baixo para mim.
“Ficou louco?”
Tinha ficado.
A tela do Netscape (não era Netscape…como é que chamava mesmo…Mosaic?) recém-instalado se encheu com site da Eletronic Frontier Foundation.
Anota no livro aí. Fui um dos primeiros associados tupiniquins!
Pedi um adesivo e eles mandaram aqui pro índio, ó que orgulho.
Foram os onze minutos mais caros da minha vida.
Finzinho de 1994, montei o primeiro site da Bullet, em html, é claro. Lá da Dialdata.
Foi o primeiro site de agência do Brasil. Mas se alguém disser que não fomos, eu digo: tá, tá, tá… Não quero polemizar. Afinal, who cares?
O resto dessa história vocês conhecem melhor que eu.
Vocês é que escreveram.
Do meu lado fiquei assistindo e encaixando web em promoção quando podia.
Em 1996, nasceu a e-Bullet.
Em 2001, fechamos a e-Bullet porque a McCann achava que conflitava com a Thunder House. Não conflitava. Uma pena.
Ano passado quando fomos a primeira agência brasileira no Second Life, um “pessoal da internet” veio dizer que somos oportunistas. Tá, tá, tá…
Hoje transmitimos nosso podcast pelo ustream.tv ao vivo. Esse negócio, graças a vocês, não pára nunca. Ouvindo o Podcrer de hoje, não me senti um dinossauro. Me senti pré-cambriano.
Um grande beijo, and keep up the great work.
Neto”
Não tive o prazer ainda de conhecer pessoalmente o Neto, de quem o Michel é fã declarado. Por outro lado, tive o prazer de conhecer tantos outros caras fantásticos (mulheres pioneiras também) e só posso agradecer por isso. [Webinsider]
E se você quiser dizer onde estava quando a internet era criança, deixe seu recado nos comentários… Por que não?
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1° Neto Data: 26/04/2007 às 4:24 pm
Atividade: Dinossauro
Cidade: São Paulo
Dizer o que Vicente? Tá tudo dito.
e mais o Eugênio, o Feof, o Cesar, a Gra, o Adriano, a Anna, o Jairo e tantos outros…
Agradeço a citação.
Só fico ressabiado de não ter citado toda a gente que fez a Bullet nestes 20 anos (sim! faremos 20 anos em dezembro!). Começando pela Luli, que hoje dirige a criação da Manu, Oli e Catarina lá em casa mas que por dez anos tocou a Criação da Bullet pra eu poder me conectar
Obrigado pra eles e pra você.