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Não brigue por audiência, assuma que é nicho

23 de abril de 2007, 10:43

Com a mídia cada vez mais fragmentada, segmentar e manter uma linha editorial consistente pode ser mais do que uma questão de princípio, pode ser a única alternativa viável.

Por Ricardo Cavallini

Jornais e revistas vivem do resultado da audiência. São sustentados por leitores leais que geram assinaturas e atraem publicidade. Mas por diversos motivos, como aumento de concorrência, fragmentação da audiência e a internet, começou a ficar difícil sustentar este modelo.

A estratégia sempre foi conseguir audiência e a tática de muitos veículos foi partir para o caminho da manchete vendedora. Não é um termo técnico, chamo assim por pura falta de criatividade. Me refiro aquela manchete cujo objetivo principal é vender papel. Ela não segue linha editoral, ela segue o que vai chamar atenção, não importa se é a fofoca do momento, a catástrofe ou o escândalo fabricado por quem precisa aparecer.

A manchete vendedora destruiu a linha editorial. Priorizar o dinheiro rápido no lugar do conteúdo consistente fez a mídia impressa perder seus leitores fiéis em troca de leitores que só queiram ver a atração principal do circo, como a modelo transando no mar ou a popstar que raspou careca ou apareceu sem calcinha.

Como a manchete atrai apenas curiosos, se cria um ciclo vicioso de matar um leão por dia, nascendo a dependência da manchete bomba. Alimentam um público que não compra o jornal ou a revista para ler determinado articulista; compra para ver as fotos e o texto que pode ser encontrado igualzinho em qualquer concorrente.

Esta política faz com que os leitores fiéis, que estão interessados no editorial verdadeiro, começem a migrar sua leitura para a web. Graças ao conteúdo abundante e ferramentas como RSS, é possível ter material de qualidade em qualquer tema desejado com imensa facilidade.

Um exemplo, quer ler sobre política? Assine um ou mais RSS dos colunistas que mais gosta, a lista não é pequena, fora alguns que não colocaria e outros que devo ter esquecido:

Aqui vale um parênteses, eu sei muito bem que esta galera escreve de graça na web mas é sustentada justamente pelos veículos de massa (TV, jornal, revista) que pagam seus salários. Por isso acho importante discutir esta questão.

Mas e os leitores alcançados pela política da manchete vendedora? Bom, estes também estão fugindo para a web. A tática da manchete vendedora não deu certo, o tiro saiu pela culatra. Escândalos e outros conteúdos fúteis são encontrados com muito mais facilidade, riqueza, velocidade e pontualidade na internet.

Na internet não tem apenas a foto da popstar careca, tem também uma entrevista em vídeo com alguém que presenciou a bizarrice. E ainda uma seqüência de imagens tirando sarro do novo look.

Aqui vale outro parênteses - a postura de manchete vendedora não é exclusividade dos impressos; alguns blogs utilizam da mesma tática para captar novos visitantes vindos de ferramentas de busca. E vivem o mesmo problema também, o índice de novos visitantes é gigante. São poucos visitantes fiéis, a maioria entra apenas pra ver um post e muitas vezes nem guarda o nome do blog, muito menos seu endereço.

Atentos a mudança, alguns jornais como o Independent, The Times e o The Guardian realizaram mudanças radicais, partindo para um novo formato.

The GuardianFicaram mais compactos (um jornal mais fácil de manusear), com programação visual mais leve, mais colorida e com papel que não suja a mão.

Mas a mudança mais necessária não é no formato, e sim no conteúdo. E até antes disso, parar de discutir a tática (de como conseguir audiência) e voltar a discutir estratégia. Será que deveriam lutar tanto pelo crescimento da audiência? Audiência é realmente algo viável de se buscar quando temos a mídia cada vez mais fragmentada? Ademais, audiência é o que realmente a publicidade (quem paga as contas) vai continuar buscando?

Será que o certo não seria aceitar sua vocação para nicho? Entender que isso não é de todo mal e que pode (e deve) ser uma boa fonte de receita.

De certa forma, alguns veículos impressos (principalmente revistas) já representam um nicho. Por isso é tão fácil diferenciar entre um leitor do Estadão e da Folha ou entre um leitor da IstoÉ e da Veja. Muitos odeiam o Reinaldo Azevedo e acham o Diogo Mainardi o belzebu, mas um outro tanto compra a Veja justamente por causa dos dois colunistas.

Os números de audiência perdem força mas o grau de atenção e fidelização aumentam. Segmentar e manter uma linha editorial consistente pode passar a ser mais do que apenas uma questão de princípio, pode ser a única alternativa viável. [Webinsider]

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Sobre o autor

Ricardo Cavallini é profissional de comunicação interativa, professor de marketing direto na ABEMD, autor do livro O marketing depois de amanhã e editor do Coxa Creme

Apoio:

  • LayerDev Serviços de Webhosting Profissional

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Comentários

7 pessoas comentaram o artigo "Não brigue por audiência, assuma que é nicho"

Pedro Mizcci Majeau Data: 23/04/2007 às 1:11 pm

Atividade: WEB Marketer

Cidade: São José dos Campos

Olá Ricardo,

Você acertou no centro do alvo!

Forte Abraço,

Pedro Majeau
WEB Marketer
www.negocios-de-valor.com

Gustavo Montes Data: 23/04/2007 às 4:09 pm

Atividade: Programador

Cidade: Belo Horizonte

Você tocou no ponto interessante. Não só nos meios impressos, mas também na internet se vê isto. Em alguns momentos você passa por um título ou bigode que indica uma coisa, mas ao ler a notícia se percebe outra…

sergio lima Data: 23/04/2007 às 4:22 pm

Atividade:

Cidade:

Olá Ricardo!

Embora o foco maior do texto seja jornais e revistas, seu ponto de vista é incrivelmente verdadeiros para outras mídias emergentes, tais como blogues e podcasts!

Como dito no comentário acima: Acertou no alvo!

[]’s

Mauricio Ricardo Data: 24/04/2007 às 3:24 pm

Atividade: Analista de Sistemas

Cidade:

Oi Ricardo,
bastante oportuno esse seu artigo.
Sem sombra de dúvida, é preciso cada vez mais dedicar-se a escrever/atender um nicho específico para se obter um público fiel e garantir assim um lugar ao sol , especialmente na Web.

Mauricio
http://lista10mais.blog.br

Andre Garça Data: 25/04/2007 às 12:32 am

Atividade: editor

Cidade: Rio de Janeiro

Ótimo artigo!
Concordo com tudo…
Desde o início tentei criar uma estratégia para o meu site, que conquistasse leitores fiéis, ao invés de números estratosféricos de audiência. Deu certo!

Bruno Gonçalves Data: 13/05/2007 às 8:13 pm

Atividade: Publicitário

Cidade: Bauru-SP

Olá Ricardo,

Li seu artigo e sigo a mesma linha de raciocínio. Trabalho e sempre trabalhei em jornais. Sei como funciona a lógica de vendas na banca, onde muitos jornais, principalmente os do interior, acreditam que é “mais negócio” para eles terem uma circulação maior do que os outros jornais. Acham que o impacto das notícias que publicam na sociedade serão maiores. Pois bem, não quero ser preconceituoso com nenhum leitor mas, normalmente as pessoas que são “pescadas” com essa tática tem uma leitura mais passiva e, evidentemente, não contam com um senso crítico apurado para ler, compreender, analisar e tirar conclusões - quando muito conseguem ler. Geralmente não buscam uma segunda fonte para analisar o mesmo fato.

Bom, é uma questão para se pensar sobre o futuro dos meios de comunicação, impressos ou eletrônicos. Para os veículos que pensam em ter como valor o crédito que o leitor dá ao seu conteúdo, segmentar e buscar oferecer informações de alto valor agregado é o mais importante. Para os veículos que querem ver números de circulação, independente de serem considerados bons ou ruins, a tática da “manchete vendedora” sobreviverá e continuará sendo adotada.

É por isso que gosto da experiência bem sucedida dos blogs. Na internet é um canal democrático onde as opiniões e a interatividade com os leitores é grande, onde não há burocracia para a divulgação de notícias e pontos de vista. Vale a palavra do “blogueiro” e os comentários dos seus leitores. E é ai que entendemos que o conteúdo tem um grande valor.

ILO Navarro Data: 29/05/2007 às 3:49 pm

Atividade: Consultor de TI

Cidade: Rio Claro

Atualmente há cada dia mais segmentação, praticamente a publicidade e a mídia estão se tornando não uma mass-midia e sim uma personal media, tentando cada vez mais satisfazer a todos, e cada um por vez, é algo que a web proporcionou e pelo que está ocorrendo, não tem mais volta.

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