O futuro do livro depois que sai do papel
04 de abril de 2007, 13:27Novas mídias como Google Books estão mudando o livro. Depois de digitalizadas, as obras aumentam seu alcance e ganham funcionalidades.
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Li na The Economist: o projeto Google Books já digitalizou cerca de 65 milhões de livros. Mas como tudo está sendo feito dentro da lei, o e-book não deve acompanhar a efervescência provocada pelo MP3 e os mecanismos de troca de arquivos. Ainda assim, o livro está mudando mais do que se percebe na superfície, em função das novas mídias.
Faz tempo que essa idéia ronda: por que o livro ainda não é compartilhado como a música e o vídeo? Resposta óbvia: porque ele não vem digitalizado e não pode ser facilmente digitalizado. E as editoras não oferecem o produto nesse formato supostamente por desconfiar de uma solução que facilita a cópia e a disseminação.
Também já faz algum tempo que eu escutei sobre projetos - O principal deles é o Google Books - de digitalizar livros para disponibilizá-los online. Mas não tinha me dado conta da dimensão dessa iniciativa. Segundo a The Economist, doze universidades fecharam acordos para liberar o acesso a seus acervos para a equipe do Google. Só da Universidade da Califórnia em Berkeley, a cada dia, três mil livros ganham versões digitais. E no total já estão prontos cerca de 65 milhões de títulos.
Como funciona
Aproveitei a oportunidade para conferir o que é e como funciona o Google Books. Está tudo dentro da lei. A página de abertura é igual à da ferramenta de busca para a web. Você colocar as palavras-chave e ela te devolve links para livros. Você pode procurar entre todo o acervo ou apenas aqueles integralmente disponibilizados.
Apenas as obras com direitos autorais vencidos estão disponíveis para a leitura. O restante do material serve como uma espécie de catálogo de biblioteca, para saber que um determinado título existe; e se quiser, poderá ou comprá-lo ou procurá-lo nas bibliotecas físicas.
Veja aqui um livro recente e em português lançado pela Editora SBS (Bem-vindo, a língua portuguesa no mundo da comunicação) e integralmente disponibilizado.
É difícil copiar
Primeira questão: você pode ler o livro mas não pode copiá-lo facilmente. Não dá para fazer control-C e control-V para colar a informação em um documento Word e disponibilizá-lo para outras pessoas usando soluções P2P. Quem quiser possuir o livro, ainda terá que comprá-lo impresso em papel.
É um conflito de interesses dilacerante. Se os leitores do mundo decidissem não piratear livros protegidos por direitos autorais, o leitor de e-books se proliferaria como os tocadores de MP3. Mas enquanto os MP3 players mudaram pouco a experiência de ouvir música - ouvimos playlists ao invés de albuns - o Reader expande as possibilidades da leitura.
Para quem não sabe, o Reader imita o formato de um livro. Você abre e fecha e no lugar das páginas existem monitores. Nele você pode mudar o contraste das páginas para, por exemplo, ler no escuro sem precisar de uma fonte de luz. Deficientes visuais podem ‘escutar’ o livro. Dentro do mesmo aparelho você leva uma biblioteca inteira, milhares de títulos. E você pode usar esse conteúdo conjuntamente. Se esbarrar em palavra desconhecida, um toque e o sistema busca a informação no dicionário. Edição bilingue vai ser a regra e não a excessão. E para quem faz anotações e precisa copiar trechos para citar em artigos, o esforço é mínimo. Você interfere na obra usando as vantagens de um processador de texto.
Mas por causa da questão dos direitos autorais, essas vantagens estão disponíveis apenas para quem quiser livros publicados há pelo menos 70 anos.
Ainda assim, segundo o artigo da The Economist, algumas coisas estão mudando no produto livro.
Livros que as pessoas tradicionalmente não lêem integralmente ou que requerem atualizações constantes, tenderão a migrar para o ambiente online e talvez deixarão de ser livros. Catálogos telefônicos e dicionários, e provavelmente livros de cozinha e livros escolares devem entrar nessa categoria.
Outro impacto da internet no mercado editorial: o tamanho das obras. O artigo menciona que um livro de não-ficção precisa ter pelo menos 300 páginas para dar lucro. Essa restrição deixa de existir na medida em que o autor poderá distribuir sua obra fora do mercado tradicional independente de seu tamanho. Existem sites hoje, como o Lulu.com, para autores publicarem seus livros on demand. Você envia o conteúdo e o site se encarrega de disponibilizá-lo pela Amazon.com. Se uma pessoa comprar, o Lulu.com imprime uma cópia e envia pelo Correio.
Ainda pensando nos livros de não-ficção, o The Economist registra a vantagem, para pesquisadores, de se inter-relacionar o conteúdo de obras. Soluções como o Google Books servirão aos acadêmicos da mesma maneira como as ferramentas de busca pela web servem ao usuário da internet. Ficará muito mais fácil encontrar livros e passagens de texto dentro de cada obra e ainda copiar e reprocessar essa informação.
Livros de ficção também devem seguir um caminho inesperado. Hoje o escritor constrói solitariamente sua obra: ele e equipamento de escrita. Mas e se ao invés de pensar no livro-texto, pensarmos na história de ficção enquanto labirito onde o leitor entra e interage com a fantasia do autor. Isso já existe na prática no mundo físico entre os fãs do RPG; o leitor é mais um personagem. O site Second Life é uma forma de pensar no cenário dos livros; e o escritor se transforma no autor de um mundo vivo, interativo, que responde aos estímulos individuais de cada pessoa.
Isso não impede, absolutamente, que alguns autores continuem usando a palavra escrita e o papel como meio de comunicação. Mas o mercado de jogos pode também avançar no sentido de oferecer produtos mais sofisticados - ‘obras primas’, experiências subjetivas - utilizando ambientes interativos montados a partir de imagens em movimento. Por que não?
E mesmo para quem preferir o texto escrito, as novas mídias estão mudando a percepção que se tem sobre escrever. O projeto Viva São Paulo, que eu lancei em 2003, está recheado com mais de três mil histórias, muitas delas deliciosas, escritas por pessoas comuns. Elas são bons narradores que não se consideravam dignos do título de escritor, e que se limitavam a contar seus causos nas reuniões de amigos e por meio das cartas. Essa conversa, agora, fica disponível na rede; quem quiser pode ler e ao ler, ocasionalmente, sentirá vontade de compartilhar alguma coisa. é disso que esse projeto vive - dessa papo contínuo, desse jogar conversa fora. Isso eventualmente poderá, mesmo, render livros impressos. [Webinsider]
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1° Diego Dotta Data: 04/04/2007 às 5:24 pm
Atividade:
Cidade: Florianópolis
Conheci o Leialivro e Vivasp a pouco tempo, gostei muito da missão e conteúdo destes sites Juliano.
Mas voltando ao assunto do futuro dos livros, eu ainda tenho resistência de ler um livro em componentes eletrônicos ou monitor, algo que talvez contribua bastante para a cultura de ler livros digitais, é o tal papel eletrônico, não sei como anda a evolução desta idéia, mas pela internet é possível ver alguns produtos que são fenomenais.
Até onde sei tem pouca interação, tem mais de “papel” do que “digital” no seu uso, inclusive dobráveis, por isso achei interessante, aproximou das características “antigas” de leitura, talvez não seja a idéia mais prática, mas acredito que é um caminho interessante e vai contribuir para o futuro do livro.
Nos vemos lá Juliano.