A TV Muro é punk
15 de março de 2007, 22:34Emissora mineira é o próprio "do it yourself". Começou com sucata e pode causar impacto.
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(Para começar, uma correção. Na coluna anterior, mencionei uma câmera digital vendida por uma empresa de televendas, e disse que o aparelho tinha resolução de 8 megapixels. Na verdade, o fabricante diz que a máquina tem 12 megapixels. A câmera chama-se Genius G-Shot, e é vendida por cerca de R$ 1.000, em dez vezes, se alguém estiver interessado.)
Francisco Dario do Santos mora em Sabará, na região metropolitana de Belo Horizonte. Em 1997, Chiquinho, como é conhecido, achou um link de TV num ferro-velho da cidade. Ele tinha uma câmera VHS, um aparelho de videocassete e um televisor preto e branco e criou a partir dessas peças rudimentares a TV Muro. Chiquinho começou a gravar seus próprios programas e exibi-los no televisor encaixado em um vão do muro da sua casa.
A programação da TV Muro reproduz uma emissora comercial em nano-escala. Chiquinho sai pela cidade captando imagens para um telejornal que ele mesmo edita e apresenta, há um programa de culinária apresentado por sua mãe, transmissão ao vivo de missas, teleteatros interpretados pelas crianças da vizinhança. E recentemente, a TV Muro lançou sua própria versão do ‘Big Brother Brasil’, obviamente chamada ‘Muro Brother Brasil’.
Hoje com dois televisores (coloridos), dois videocassetes, quatro câmeras, um gravador de DVD, um aparelho de som e um microfone, a emissora do funcionário público Francisco dos Santos é o triunfo do sonho sobre a realidade. Chiquinho teve um sonho de produzir televisão, e esse sonho se materializou a partir de praticamente nada, do desejo alimentado com peças de sucata e equipamentos caseiros obsoletos. E mesmo assim, sua audiência é notável: a TV Muro é campeã de audiência na vizinhança. Chiquinho já tem até “afiliadas”: dez casas da vizinhança recebem imagens da TV Muro por cabos. Para transmitir missas ao vivo, existe um cabo que conecta o “estúdio” com a Igreja de São Francisco.
Francisco usou sua criativade como motor. Habilidoso na transformação de sucata em brinquedos, ganhou cerca de R$ 1.000 ensinando professores a criar objetos a partir do lixo. Foi com esse dinheiro que comprou sua primeira câmera de vídeo. Chiquinho ganha um salário mínimo da prefeitura, onde trabalha na área de comunicação (envia faxes e filma obras municipais).
Em 2003, a rede SescSenac fechou uma parceria de conteúdo com a TV Muro. A STV empresta fitas com programas para exibição na TV Muro, e a rede exibe o ‘Jornal Legal’. Assim, a programação artesenal de Chiquinho atinge o país todo, já que a STV é distribuída pelas operadoras de TV por satélite DirecTV, Sky e TecSat.
Chiquinho, que mora na rua São Francisco, fiel à simplicidade do santo padroeiro. Santa Clara é considerada a padroeira da Televisão porque teria visto uma projeção de alta definição na parede de sua cela mostrando a chegada de São Francisco ao Paraíso. Chiquinho sonha em um dia ganhar dinheiro com sua televisão. O ‘Muro Brother Brasil’, por exemplo, é patrocinado pela fábrica de chupe-chupe de dona Maria da Piedade, mãe de Chiquinho.
A TV Muro é punk dentro da definição de um empreendimento televisual feito sem recursos, sem conhecimentos técnicos, sem estrutura comercial. Francisco tinha apenas 23 anos quando começou a imaginar sua TV. Deu sua energia e boa parte de seus magros proventos para criar essa emissora de fantasia — e se comunicar com o público de uma maneira que nenhuma grande rede consegue. A experiência está completando 10 anos. Nesse período, Chiquinho apareceu com freqüência na mídia, falando sobre sua TV. A popularidade rendeu doações de equipamentos, e algum dinheiro para tocar a emissora.
A TV Muro é punk porque sua programação não tem requinte algum, nenhuma pós-produção. É feita de imaginação, de faz-de-conta. Em entrevista, Chiquinho diz que a primeira idéia partiu dos brinquedos de papelão reciclado: uma câmera de mentirinha, com imagens recortadas de revistas em um televisor também de mentirinha. Quem quiser apreciar corretamente a TV Muro terá de entrar na brincadeira, no mesmo faz-de-conta de Chiquinho.
O que foi por décadas o território exclusivo de grandes corporações com milhares de profissionais treinados, agora pode ser feito por qualquer pessoa com vontade e disposição. Esse é o recado da TV Muro. Agora seria a hora de colocar a TV Muro na internet. E isso seria uma coisa muitíssimo mais simples do que trabalho gigante que Chiquinho teve nos últimos dez anos. Bastaria converter os programas para o formato digital e criar um canal dentro do YouTube ou similar. A câmera digital de 12 megapixels vendida em 10 vezes poderia ajudar muito.
Stickam, o MySpace das webcams
No final da década de 90, escrevi várias vezes neste espaço sobre o fenômeno das webcams. Numa época de conexões lentas, de modems por linha discada, era notável que alguém se dispusesse a deixar uma câmera ligada, transmitindo imagens em intervalos de minutos. A primeira webcam famosa focalizava uma cafeteira de um laboratório de pesquisas, para que os cientistas em outro andar do prédio soubessem quando havia café fresco. Uma imagem nova a cada 20 ou 30 minutos era suficiente para cumprir essa função.
Aos poucos, as webcams foram se tornando parte da paisagem online. As webcams ficaram cada vez mais baratas, enquanto as conexões se tornavam mais velozes. O intervalos das imagens caiu de uma foto a cada 30 minutos para 30 frames por segundo, a velocidade do tempo real.
Há uma profusão de sites com e sobre câmeras online. Há três portais recomendáveis, que reúnem milhares de câmeras (organizadas por categorias), além de muitas informações complementares: EarthCam, WebCam e WebCam Central. São bons pontos de partida para que estiver interessado nos vários aspectos que envolvem essas câmeras. Há algo de zen na experiência de ver imagens ao vivo, em algum lugar do mundo. Algumas câmeras tem controle remoto, o usuário pode movimentá-la em várias direções.
A última novidade nessa área é o Stickam, um serviço que combina o voyeurismo/exibicionismo tradicional das câmeras online com comunidades de relacionamento. O site diz ter mais de 400 mil usuários, que entram ao vivo para falar de suas vidas, como um condomínio com milhares de janelas onde todos se mostram – e se vêem. Notavelmente, enquanto pesam cada vez mais filtros e controles sobre o MySpace e similares, o Stickam é sem censura. O condomínio de janelinhas eletrônicas é na verdade um baita cortiço de Copacabana ou da Bela Vista, com muitos flagrantes e muito bate-boca.
O que mais chama a atenção no Stickam é o encontro do narcisismo com a falta de idéias, um tédio movido a alta tecnologia. Na grande maioria dos casos são vídeo-blogs ao vivo, onde nada acontece em tempo real. Mas ainda é cedo para avaliar corretamente. Passada essa fase inicial, é bem possível que o serviço evolua para uma nova forma de TV mundial, onde cada janelinha pode oferecer um conteúdo cativante, em vez da monotonia esparsa de quartos e salas de estar. [Webinsider]
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1° Thiago Valenti Data: 16/03/2007 às 8:20 am
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A TV Muro pode até ser punk no sentido de não possuir o equipamento técnico adequado, nem o devido conhecimento de tais materiais.
Mas com certeza, não é punk no sentido de produzir um “Muro Brother Brasil”. Com seu tamanho e acesso à vizinhança, caberia muito mais um jornalismo de crítica da realidade da sociedade em que está inserida, do que produzir uma sátira do programa bolachão que o mundo inteiro tem licensa para fazer.
PS: Estou julgando sem nunca ter assistido, apenas pelo que li no artigo.
PS 2: Tenho que concordar, a idéia de migrar para a internet começa a tornar a TV mais independente, e quero acreditar que em um futuro próximo, as notícias de verdade chegarão por esse meio.