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Dell cria site colaborativo para ficar perto dos clientes

26 de fevereiro de 2007, 20:06

Site Dell Idea Storm usa a participação dos usuários para agradar seus compradores, sentir a temperatura do público e ouvir idéias sobre novos produtos.

Por Rafael Oliveira (Wally)

Michael Dell é um grande empresário: criou uma marca reconhecida mundialmente a partir de uma oficina em sua garagem, montada para pagar as despesas com a faculdade. Criou também o mercado de vendas diretas e uma rede de pedidos online que mantém a empresa sempre de olho na demanda, inclusive para direcioná-la com promoções instantâneas (sobre este tópico, vale a leitura de O Mundo é Plano, de Thomas Friedman).

Agora a Dell inova mais uma vez, ao usar de forma inteligente os benefícios da web 2.0 para projetar uma nova linha de produtos. Através do site Dell Idea Storm, a empresa abre um fórum de sugestões para seus produtos no qual clientes do mundo todo podem sugerir novas funcionalidades, configurações, recursos, instalações e dizer o que quiserem. Os visitantes podem votar nas sugestões e promovê-las ou discuti-las com os moderadores da Dell e acompanhar o que a empresa planeja implementar.

No dia 22 de fevereiro o site já tinha 1.103 idéias, com 104.046 “promoções de idéias” (votos) e 1.610 comentários sobre estas idéias.

A maior parte das idéias postadas são relativas aos softwares pré-instalados e ao software livre, que possui uma comunidade de consumidores sempre ativa na web. Entre as idéias mais votadas estão “opção de compra sem Windows”, “Firefox como navegador padrão” e “OpenOffice pré-instalado”.

O mais interessante da adoção pela Dell deste tipo de diálogo com o público é que a empresa abre suas portas e permite que os clientes façam comentários positivos ou negativos. É um posicionamento corajoso, que exige que as empresas entendam que o mundo mudou com a web, e que a web 2.0 é uma evolução que dá ainda mais voz aos clientes.

Nem todas as empresas estão preparadas para serem criticadas em público, responder às críticas e ainda assim preservar sua imagem e sua marca. A Microsoft deu um grande salto neste sentido quando lançou seu blog. Hoje não abre mão desta estratégia de conversação com seu mercado consumidor.

Voltando à Dell, é muito provável que a empresa já soubesse de antemão as críticas que receberia, mas resolveu dar voz ativa à sua comunidade de clientes. Algumas idéias chamam a atenção:

As últimas três são manifestações que trazem um bom grau de xenofobia, característica de clientes americanos que não estão satisfeitos com a gradual migração dos centros de suporte ao consumidor para outros países, o que diminuiria os empregos nos Estados Unidos.

Além de ser uma característica natural em um mundo em constante pressão por preços menores, manter centros de atendimento mais baratos é praticamente uma das únicas alternativas viáveis para grandes empresas. Não só a Dell, mas a IBM, a HP e outras gigantes da tecnologia vão continuar migrando seus call-centers para países do “terceiro mundo”.

Por outro lado, a idéia “Opção de pagamento extra para suporte nos Estados Unidos” já tem 82 simpatizantes, além de outras idéias similares também com alguma popularidade (busque por “extra” no Dell Idea Storm e veja com seus próprios olhos).

Isto demonstra que mesmo querendo pagar menos pelos produtos, uma parte da rede de consumidores da Dell pagaria a mais para manter empregos em seu país e ser atendida por cidadãos americanos.

Existe ainda outra comunidade intitulada Olhe para mim. Eu sou Verde!, que estimula o programa “Plante uma Árvore por Mim”, que já tinha 4.461 simpatizantes. Outro aspecto de consumo revelado: clientes Dell são propensos a ações que envolvam o meio ambiente. Independente da Dell acreditar em ajudar a conservar o planeta ou ser apenas uma idéia para promover seu marketing, o que o site revela é que a idéia traz resultados, o que é muito positivo.

Através de uma ferramenta de tecnologia, a Dell conversa com seus clientes, dá a eles o poder de decidir o que é bom e o que é ruim, cria um canal para que eles se manifestem livremente e expõe a boa vontade de se adaptar aos clientes, ao invés de simplesmente esperar que eles se adaptem aos seus produtos.

A idéia não é nenhuma revolução (ou é uma revolução não-televisionada, vide o princípio do Marketing Hacker de Hernani Dimantas), até porque a força de vendas já tem o seu Ideas há algum tempo no ar, mas o importante é que esta iniciativa demonstra claramente a adesão aos princípios e ferramentas da web 2.0 como forma de conversar com os usuários e permitir que os usuários conversem entre si e decidam o que é bom e o que não é.

Pensando por outro lado, não é nada que não pudesse ser feito através de fóruns, que já existiam desde o nascimento da web. O que mudou na minha opinião - e é a isso que temos chamado de web 2.0 - é que agora os usuários estão familiarizados com a tecnologia e entendem que seu papel é mais importante do que era antes. Aos poucos, as empresas amadurecem para dar ouvidos aos clientes e interagir com eles. A web 2.0 talvez simbolize o mundo 2.0. [Webinsider]

Bibliografia recomendada:

O Mundo é Plano, de Thomas Friedman
Dell: Estratégias que Revolucionaram o Mercado, uma espécie de biografia de Michael Dell
Marketing Hacker, de Hernani Dimantas

Sobre o autor

Rafael Oliveira (Wally) (editor@grito.com.br) é responsável pelo marketing da Lógica Digital, consultor de usabilidade da Interactis e editor em férias do Grito.com.br

Apoio:

  • LayerDev Serviços de Webhosting Profissional

Palavras-chave relacionadas a este texto: [ usuário final ] [ comunidades ] [ Vendas ] [ livros ]

Comentários

6 pessoas comentaram o artigo "Dell cria site colaborativo para ficar perto dos clientes"

Túlio Data: 27/02/2007 às 5:50 pm

Atividade: Webwriter

Cidade: Buenos Aires

Creio não ser xenofobia a presença desses itens contra os suportes fora do país. Aqui em Buenos Aires existem inúmeras empresas de Call Center, que atendem muito os Estados Unidos e até mesmo o Brasil. Imagino o quanto deve ser pouco produtivo ser atendido por alguém que não domina o idioma do cliente de maneira tão abrangente. Nada mais justo do que querer ser entendido claramente sem fazer esforço.

Guilherme Tossulino Data: 01/03/2007 às 10:05 am

Atividade:

Cidade:

Matéria interessante.

Carolina Data: 01/03/2007 às 12:10 pm

Atividade: webdesigner

Cidade: são paulo

o link do Olhe pra mim eu sou verde não está funcionando…gostaria de saber mais a respeito.

obrigada.

Caique Data: 01/03/2007 às 6:52 pm

Atividade:

Cidade:

Bá, tri bom esse site da Dell. Vocês viram as principais sugestões que estão lá? Quase todas as primeiras sugestões são pedindo Dell com Linux. Que outra forma a Dell teria de receber um a idéia tão clara do que seus consumidores querem? Genial. Chega de falar de web 2.0. Vamos fazer!

Rafael Oliveira Data: 01/03/2007 às 10:35 pm

Atividade: Arquiteto de Informação

Cidade: Campinas - SP

Carolina,

Você tem razão. O post “Look at me, I’m green!” sumiu do Idea Storm. Procurei na busca com as palavras-chave “green”, “I’m green” e “look at me” e não achei! Mistério…

Túlio,

Concordo que ser entendido em seu próprio idioma é um pré-requisito indiscutível, mas a manifestação de alguns usuários do Idea Storm deixa claro que o fato dos empregos estarem indo para “overseas” incomoda demais os americanos. Se fosse aqui, certamente também não iríamos gostar. O ponto-chave é que haviam alguns posts sobre o assunto, de forma que chamou minha atenção para a relevância atribuída ao tema.

Abraços,

Wally

Rafael Rez Oliveira Data: 29/04/2008 às 6:12 pm

Atividade: Arquiteto da Informação

Cidade: Campinas

Quem adotou uma ferramenta similar à da Dell (inclusive do mesmo fornecedor) foi a Starbucks.

No site http://mystarbucksidea.force.com é possível interagir com a empresa da mesma forma que no Dell Idea Storm.

Aliás, quem viu os notebooks coloridos que a Dell lançou depois do Idea Storm?

Abraços,

Wally
http://exvertebrum.wordpress.com

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