Webinsider

Tecnologia

Paulo Roberto Elias
Áudio e vídeo

Reprodução de som dos CDs avança em qualidade

04 de fevereiro de 2007, 11:55

Enquanto as novas gerações preferem o MP3, puristas continuam achando que o som digital não é perfeito. No entanto, avanços mostram a força do CD comum de áudio e pouca gente nota.

Por Paulo Roberto Elias

Quando em 1983 a Philips lançou o Compact Disc, com o slogan de campanha The Perfect Sound Forever, uma parcela significativa de audiófilos conservadores partiu para o deboche: chamaram o áudio de mid-fi, disseram que o som era áspero e incapaz de reproduzir os harmônicos de vários intrumentos. Mas, na comunidade de audiófilos, muitos não embarcaram nesta canoa e se detiveram em analisar melhor alguns dos problemas inerentes à conversão digital-analógico dos reprodutores de CD.

Foi no processo de conversão que acharam os problemas e as fórmulas para tornar o som do CD cada vez melhor, usando exatamente o mesmo disco de antes, fincado nos padrões da Philips e da Sony, chamados de redbook CD – que não mudou até hoje, aliás.

Pouca gente sabe que o Compact Disc foi lançado como uma legítima aspiração aos ouvintes de música clássica, que desejavam um som com faixa dinâmica elevada e isenta de ruídos espúrios. O som digital do CD não foi adotado de imediato. Na realidade, anos antes, a Philips havia lançado o vídeo disco, com leitura a laser, mas com áudio e vídeo analógicos. O problema é que, diante das limitações, todas de natureza física do ambiente analógico, os engenheiros de pesquisa da Philips tomaram a saudável decisão de mudar para o som digital, antes do lançamento do CD.

Para passar de um ambiente para outro, no caso, analógico para digital, é necessário fazer um processamento de conversão bastante sofisticado: primeiro, a onda senoidal analógica é amostrada (“sampling”), ou seja, cada ponto da mesma é medido e anotado para ela um valor numérico discreto. Cada valor destes é posteriormente quantizado (“quantization”), ou seja, transformado em valores binários (0 e 1), e assim, o som digital propriamente dito é uma corrente de bits (“bitstream”) que carrega a informação musical.

O processo de mudança de ambientes (analógico para digital e vice-versa) é bem mais complicado que o acima descrito, mas não faz parte do escopo deste artigo. No entanto, espero ter ficado claro que a amostragem da onda analógica é um fator fundamental para qualquer outro aspecto do processamento posterior do sinal de áudio. Essa amostragem segue o teorema de Nyquist-Shannon: a freqüência com que ela deve ser feita deve ser maior do que duas vezes a faixa da resposta analógica. Por exemplo, no CD, a resposta de freqüências vai de 0 até 20 KHz, e assim a freqüência de amostragem escolhida foi de 44.1 KHz.

A escolha dessa freqüência tem motivos históricos, que não nos compete mostrar aqui, mas basta dizer que ela é suficiente para a obtenção de um sinal analógico final limpo e sem distorção, na conversão final digital-analógica.

Em tempos recentes, concomitantemente com o avanço da tecnologia dos microprocessadores, descobriu-se que a amostragem original dos CDs pode ser melhorada, com métodos de “upsampling”. O upsampling consiste na interpolação de um maior número de amostras, na onda de áudio original, fazendo com que a precisão da sua representação binária aumente significativamente.

O valor de upsampling na reprodução de um CD pode ser determinado pelo usuário em alguns leitores de DVD. Por exemplo: pode-se optar por 88.2 KHz (44.1 KHz x 2) ou 176.4 KHz (44.1 KHz x 4). Este recurso poderá estar disponível no setup dos aparelhos de DVD mais recentes ou pode simplesmente estar incluído nos chipsets dos mesmos, mas sem nenhuma divulgação ou documentação. Em outras palavras, se o leitor comprou um reprodutor de DVD recentemente, pode ter um conversor de amostragem para CDs e não está sabendo!

O recurso, sem praticamente nenhuma divulgação no mercado de leitores de DVD, é característica integrante da grande maioria dos aparelhos de reprodução de CD do mercado “high-end”, vendidos por alguns milhares de dólares. Ou ainda em aparelhos dedicados, destinados aos usos semi-profissional e profissional.

A ausência dessa percepção pode também ser atribuída ao fato de que a maioria dos usuários não se interessa em aplicar a reprodução de CDs em sistemas de reprodução dedicados, em dois canais estéreo, da mesma forma que se fazia anos atrás. Na realidade, para se ter uma noção mais concreta de até onde os métodos de upsampling acarretam uma melhoria drástica no som musical obtido, seria preciso implementar uma melhoria igualmente significativa na cadeia de reprodução, como amplificadores e caixas.

A inclusão deste recurso nos aparelhos de leitura de DVD é o resultado do aumento de integração nos chipsets atuais, que incluem diversos decoders, entre eles os de PCM linear, usado pelo CD. O aumento dessa integração em chips de larga escala (LSI) traz consigo um outro grande benefício para o som do CD: a ausência de “jitter”, que é o atraso ou adiantamento acidental na tomada dos pontos de amostragem. Isto se deve ao fato singular de que, com o aumento da integração, todo o processamento digital-analógico se faz pelo mesmo batimento (“clock”) entre os diversos processos.

A reprodução da onda musical, seja em ambiente digital ou analógico, requer equipamento dedicado, ou o melhor possível, dentro dos recursos financeiros do consumidor. No caso das fontes digitais, estes recursos são muito mais demandantes e impõem a instalação de equipamentos cuja estabilidade na condução do sinal seja exemplar.

Note-se ainda, por fim, de que não adianta ter somente uma melhoria do sinal de fonte. Para se apreciar a dinâmica, a resolução, e a limpeza do áudio digital, deve-se tomar um especial cuidado com a qualidade da amplificação e principalmente das caixas acústicas a serem instaladas, caso contrário a queixa de que o som digital não tem qualidade nunca vai ter fim! [Webinsider]

……………………………………..

A versão integral do texto sobre upsampling pode ser conferida no site pessoal do autor.

.

Sobre o autor

Paulo Roberto EliasPaulo Roberto Elias é professor aposentado da Faculdade de Medicina da UFRJ, hobbyista em áudio e vídeo, Mestre em Ciências (M.Sc.) e Ph.D. em Bioquímica. Manteve, até recentemente, o site Miragem, cujos artigos podem ser lidos aqui.

Apoio:

  • LayerDev Serviços de Webhosting Profissional

Palavras-chave relacionadas a este texto: [ música ]

Comentários

9 pessoas comentaram o artigo "Reprodução de som dos CDs avança em qualidade"

Shadow Brujah Data: 04/02/2007 às 1:05 pm

Atividade: Analista Programador

Cidade: Osasco

É a briga por um formato que já deveria ter morrido… o CD de audio, existe a 23 anos, e hoje ninguém mais quer carregar esse tipo de mídia. Quem procura audio de qualidade pode investir em um bom equipamento capaz de reproduzir audio em 176,4 KHz, e com mais de 4 canais. Com essa frequencia, é possivel obter muito mais precisão do audio… Pegar um CD e simplesmente multiplicar a frequencia dele para 176,4 KHz é o mesmo que pegar um bitmap de 320×240 e aumenta-lo para 1280×960… no fim,cada 2 pixels quadrados vão ter exatamente a mesma informação… os processos de suavização até dão uma melhorada, mas não podemos chamar isso de ganho… no máximo é um quebra-galho. O Ganho real só acontece quando a origem do audio é digitalizada já na frequencia final. Se for 176,4 KHz, ficará um espetáculo.

Nicolau Centola Data: 05/02/2007 às 10:42 am

Atividade:

Cidade:

Concordo com o comentário. O formato CD já está morto em qualidade, que todos sabemos ser insuficiente para reproduzir com qualidade ao menos igual que os antigos processos analógicos.

Uma das soluções é aumentar a amostragem, como fazem os formatos SACD e DVD Audio, se não me engano com 192 kHz. Infelizmente esses formatos não devem se popularizar no futuro próximo, por preço, grande base de CD players no mercado etc etc etc.

Outra pergunta é: adianta aumentar a amostragem se talvez a própria criação musical, hoje quase que na totalidade já digital, talvez não consiga acompanhar?

Mas concordo que tão importante quanto o suporte, está a cadeia toda, principalmente amplificdores e caixas. O que vemos hoje no mercado são produtos de baixíssima qualidade (nem vou citar audio no computador comum), limitando os excelentes aparelhos hi-fi para bolsos bem fornidos de dinheiro. Saudades do tempo em que fabricantes nacionais colocavam produtos de até alta qualidade no mercado.

Enfim, uma questão muito interessante. Por hora, não troco meus LPs e minhas caixas Master 100 da Gradiente, de mais de 20 anos, por nada nesse mundo. Trocaria por alguns produtos novos, mas que teria que vender o carro para ter…

abraços

Adalberto Carlo Marques Data: 05/02/2007 às 3:47 pm

Atividade: Matemático

Cidade: Campinas

Uma grande parcela dos usuários sequer nota a diferença de qualidade entre um MP3 a 128bps e o CD de áudio. Para não parecer exagero, creio que 160bps já “satisfaz” mais de 90% dos usuários. Se muitos não se incomodam com fones de ouvido de baixa qualidade, pouco se importarão com caixas de som, ainda mais aqueles que ouvem com o o volume estalando… Maior qualidade pode vir com o tempo, mas só aquilo que satisfazer outra necessidade: de se pensar que tem um aparelho de última geração, mas que ainda possa ser divido em 12 vezes.

Jardel Data: 06/02/2007 às 2:02 pm

Atividade: estudante

Cidade:

Concordo, a qualidade antiga era muito melhor, hoje quase todo mundo se contenta com um fone de ouvido de baixa qualidade e poucos kbp/s, é até uma estratégia pra fugir do download ilegal de mp3, as qualidades de uma música baixada geralmente varia muito, kpbs não estáveis, baixo KHz o que desencoraja quem não gosta de qualidade baixa, as músicas compradas também não valem o preço na minha opinião, 128kbp/s é um absurdo, ainda mais pra quem tem fones de ouvidos semi-profissionais ou profissionais.

Parece que ao invez de melhorarmos em qualidade só pioramos, mas provavelmente isso pode virar uma estratégia de marketing pra alguma empresa que queira se destacar, e concorência é assim, espero que logo a qualidade aumente com equipamentos bons que temos hoje em dia, ou senão vamos ter que ficar escravos dos CDs pra sempre pra aproveitar uma qualidade razoavel.

Paulo Roberto Elias Data: 09/02/2007 às 9:23 am

Atividade:

Cidade:

Eu não sei, sinceramente, até onde vai a minha capacidade de persuasão, a respeito de um tópico que considero, como amante de música, e entusiasta antigo de áudio (sem ser necessariamente expert em eletrônica), um dos mais interessantes dos últimos anos.

Isso porque, na medida em que a indústria fonográfica tentou se lançar, e fracassou redondamente, nos codecs de áudio de alta definição, o CD teria tido o seu lugar desbancado, mas não foi o que aconteceu. As empresas de reprodutores high-end perceberam isso rapidamente, e faz sentido todo o investimento em upsampling, por causa dos resultados obtidos, e principalmente por causa do ainda alto número de pessoas que coleciona CD’s no mundo todo.

E, por coincidência, nesta semana, conversando com um grande amigo, que é um competentíssimo experimentador de áudio, ele me diz que andou namorando um reprodutor Philips, modelo DVP9000S, lançado no mercado Europeu no ano passado, por causa das saídas SACD e do upsampling de CD. E aí ele me pede para dar uma olhada nisso.

Eu confesso que fiquei surpreso, em ver que a Philips investiu em chipsets novos, que levam o sinal de upsampling para os níveis do SACD, que são de 192 KHz, com 24 bits de resolução. Mesmo que não soe tão bom quanto poderíamos desejar, isto nos mostra que a Philips acredita no potencial de consumo, e na possibilidade de alternativa para o usuário comum, que normalmente não tem grana para investir no high-end. O 9000S é barato, usa chipsets Faroudja para o vídeo, com upscale até 1080i, e dá de graça SACD multicanal e o upsampling de CD. Abaixo, eu destaco uma parte de um review que eu achei hoje na Internet:

“The DVP9000S is also a fine audio performer and is compatible with high resolution multichannel SACD and also upsamples standard CDs (44.1KHZ/16-bit) to DSD (192KHz/24-bit) - four times the original resolution – to increase clarity and detail levels.”

Mesmo que isso seja um press-release, o fato é que todas as premissas que nós estamos discutindo, a respeito de upsampling de CD e resolução de SACD, estão no contexto dos outros mercados, para os quais nenhum formato de disco está morto ou enterrado!

W Data: 09/02/2007 às 9:49 pm

Atividade: W

Cidade: W

Quanto Mestre e Doutor no assunto…
Pena que ninguem dá a cara a tapa pra escrever um artigo…
hehehe

Vão nesse mundo ai…

Até mais

W

William Data: 14/02/2007 às 9:37 am

Atividade:

Cidade: Campinas

Gosto de tecnologias digitais, tenho MP3 player, uma coleção de CD’s inestimavel. Porem acho que o mesmo ainda é limitada na qualidade.

A saida, na minha opinião, é a masterização em amostragem minima de 96/24Khz, preferencialmente em 192/24Khz. Gosto da ideia de preservar o maximo a gravação original, mantendo todo o espectro sonoro.

Infelizmente, para massificar, a industria fonografica aceitou o padrão de baixa qualidade e a pirataria tem difundido a ideia que a qualidade não é importante.

Quando compravamos um disco de vinil, não existia apenas o trabalho sonoro gravado, muitas vezes acompanhavam-se capas bem produzidas. Mas o importante era que ouviamos em bons sistemas, mesmo os nacionais, e ate o ato de ouvir musica era algo que se fazia com prazer e sem pressa.

É verdade, o SACD e DVD-A não vem dando certo, mas pela ansia da industria em ganhar mais. Ja postei em outro topico que existe um padrão, onde o unico requisito é o processador do aparelho de DVD-Video possuir DAC 96/24 ou 192/94 chamado DAD e HDAD, respectivamente.

E o som é maravilhoso, mas essa ideia foi morta pela industria…

Vou deixar um artigo interessante (em ingles)… que acredito venha a complementar bastante a materia do amigo Paulo.

http://www.answers.com/topic/dvd-audio

Wandique Data: 22/08/2007 às 8:26 am

Atividade: Analista de suporte MAINFRAME

Cidade: Curitiba

A natureza do som percebido pelo ouvido humano é resultado de uma série de fatores físicos (e psíquicos, a tal da psico-acústica ) que acontecem desde a fonte emissora até chegar ao ouvido. Qualquer reprodução sonora (seja digital ou analógica) é exatamente isso, uma reprodução. O que mais se aproxima do som ao vivo é o que ouvimos em gravações analógicas encontradas em lp. O Neil Young disse que “ouvir um lp é como tomar banho de cahoeira, ouvir cd é sentir cubos de gêlo caindo sobre nós”.

Junior Data: 21/11/2007 às 11:23 am

Atividade:

Cidade: Campinas

Quero saber se é possivel reproduzir em cd o conteudo de uma fita de gravado .aquela fita pequenina

Att. Junior

Avisos
Os ítens com asterisco ( * ) são campos de preenchimento obrigatório.
Todos os links inseridos nos comentários possuem o atributo rel="nofollow" para impedir com que user agents (como os mecanismos de busca) sigam os links inseridos para desestimular spammers.
Todos devem se identificar através de e-mail válido.
Os e-mails dos usuários não serão divulgados no site.
Comentários:

Preencha os dados abaixo e clique em enviar

Webinsider