Web 2.0 é uma revolução? Então me deixem criticar
18 de janeiro de 2007, 9:44Uma opinião para discutir: nosso amigo diz que o termo Web 2.0 é mal compreendido, mal utilizado e quase traz de volta o clima irreal pré-bolha. Você concorda?
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Aparentemente não existem críticos quanto ao conceito ou idéia da Web 2.0 no Brasil, ou são bem poucos. Uma busca no Google retorna pouquíssimas opiniões contrárias, sejam de posts, artigos ou mesmo comentários em fóruns e listas de discussão. Exceção ao já conhecido (e referenciado) post de Henrique C. Pereira no Revolução Etc, que já levantava a lebre há um ano.
As críticas são, em sua maioria, importadas. Destaco os artigos de John Dvorak, crítico já conhecido (um dos primeiros) do termo (aliás ele é crítico de qualquer coisa, mas essa é outra história). Por esta razão, tenho me empenhado em contribuir para, quem sabe, conseguir reduzir um pouco a tradicional babação-de-ovo e comportamento maria-vai-com-as-outras que acomete defensores apaixonados da Web 2.0 tal como ela é descrita e propagandeada.
Tenho arrepios ao ler reportagens e textos com declarações como “A Web 2.0 nasce para reinar” ou “Web 2.0, o futuro da internet” ou ainda “Web 2.0, uma forma de ficar milionário”. E as variações religiosa-ameaçadoras “A Web 2.0 já chegou! Você e a sua empresa não podem ficar de fora!” ou “Esqueça tudo o que você sabe de internet, chegou a Web 2.0” (esta última, pérola encontrada na revista Info), entre tantas outras declarações entusiasmadas para o termo.
Declarações mais apaixonadas são costumeiras em qualquer revista de renome e em 10 entre 9 blogs e sites de “especialistas”. Lembram muito, ainda que em menor escala, a histeria que acompanhou o boom da internet no final dos anos 90, quando reportagens de capa, “especialistas” e gurus de toda sorte davam a impressão de que internet era capaz de mudar (e melhorar) o mundo radicalmente e quebrar quaisquer paradigmas (mesmo os mais duros).
Para começar, o que exatamente é Web 2.0? Existem mil e uma definições, basta inventar uma. Das explicações que se esforçam para ser sérias, todas trazem um punhado de “regras” para a Web 2.0 (“se você não seguir estas regras, seu site ou sua empresa não será Web 2.0”…).
O problema é que novas idéias (ou repaginações) são imediatamente jogadas no mesmo saco, sem qualquer escrutínio, dando a impressão que a tal Web 2.0 é simplesmente um nome para qualquer coisa que funcione (mesmo que não “funcione”, não dê lucros operacionais - vide YouTube), que seja popular (consiga atrair e reter um bom número de usuários, mesmo que estes sejam formados quase que exclusivamente por adolescentes ávidos por diversão e entretenimento digital de consumo rápido) ou “nova” (mesmo que não seja tão nova assim) na internet. É mais ou menos assim: se é pop, então é Web 2.0.
No entanto, a Web 2.0 não trouxe nada de novo em termos de tecnologia e de idéias e nem é uma mudança tão expressiva ou revolucionária como dizem (e vendem). Poderia ser resumida numa equação bastante simples:
A velha internet * aumento no número de usuários = Web 2.0
Note que nesta equação o único elemento “novo” é aumento significativo no número de usuários, especialmente os com acesso a banda larga. Em outras palavras: It’s the user stupid! As idéias e “regras” da Web 2.0 já existiam. O que não existia era um número significativo de usuários e de banda para justificá-las e implementá-las.
É simples entender e verificar isso, mas os “especialistas” da Web 2.0 não vêem as coisas desta maneira. Para eles trata-se de algo novo, revolucionário e que “vai mudar tudo o que está aí”. Estas afirmações implicam na coisificação da Web 2.0, torná-la um mero produto (acho que é exatamente isso o que os consultores querem), dar um nome, registro de patente, data de nascimento, versão, regras e pontos bem definidos, sem falar na necessidade de um “criador” (Tim O’Reilly?) e fiéis seguidores.
Em minha opinião, os especialistas da Web 2.0 estão para a internet como os criacionistas estão para a ciência. Por mais óbvio que seja o fato das coisas simplesmente evoluírem, natural e continuamente, prevalecendo o que funciona em detrimento do que não funciona (tal como Darwin teorizou), os especialistas da Web 2.0 entendem que as coisas só existem depois de terem sido criadas, inventadas, nomeadas e, principalmente, propagandeadas.
Alguns gurus mais avançados (aqueles que já atingiram um nível de abstração máximo dessa viagem lisérgica) já estão discutindo seriamente a Web 3.0, cuja equação seria: Web 2.0 + semântica + virtualização de comunidades + qualquer outra idéia ou coisa que se tornar popular até lá (só para garantir que o termo vai “colar” e significar alguma coisa).
Os especialistas brasileiros aparentemente estão entre os primeiros a abraçar a causa da Web 2.0 (e vão abraçar a Web 3.0, 4.0…) e defendê-la como a nova quintessência da grande rede. Brasileiros são normalmente apaixonados pelo que fazem e acreditam, comportamento notável entre os profissionais de internet e a mídia especializada no que diz respeito à Web 2.0.
O caldeirão de crenças, promessas e gurus está fervilhando de novo, como há tempos não estava (talvez porque os gurus e especialistas de Web 2.0 de hoje fossem apenas meninos jogando videogame quando a histeria 1.0 terminou). Mas bem que poderia desta vez vir acompanhado da análise crítica, o que aparentemente pouco acontece neste caso.
Na verdade, a Web 2.0 não é uma “mudança”, quando muito é uma evolução (algo bem diferente de mudança).
Sobre conteúdo colaborativo e inteligência coletiva
Os blogs e a própria Wikipedia são frequentemente mencionados como ícones da Web 2.0. Entretanto interfaces colaborativas, participativas ou capazes de gerar uma suposta “inteligência coletiva” sempre existiram desde que a internet dava seus primeiros passos (no berço das universidades).
Listas e fóruns de discussão - até mesmo a Usenet - são exemplos antigos de colaboração e participação. Vale lembrar que um bom exemplo de real inteligência coletiva (desta vez sem aspas), é aquela gerada por pesquisas sérias e por cientistas que se submetem ao processo de peer-reviewing.
Esta inteligência está disponível nas velhas e jurássicas listas de discussão e provavelmente não vai sair de lá tão cedo. O que se vê hoje na tal Web 2.0 não é inteligência. Inteligência é sinônimo de qualidade, não de quantidade. Os exemplos de “inteligência coletiva” da Web 2.0 são baseados em quantidade (com raras exceções). Sites como Digg.com geram “inteligência” pelo maior ou menor número de “diggs”/cliques num link. Isso é inteligência? O que se gera aí é simplesmente volume, não inteligência.
Outros vêem inteligência na enxurrada de tags e nas inúmeras classificações (folksonomia) que mais confundem do que ajudam em sites como o YouTube (tente achar uma informação de forma rápida por lá). Há os que ainda defendem que a inteligência da Web 2.0 está no sistema de rankeamento de links do Google. Quase lá! Outros usam o exemplo do modelo de desenvolvimento de software livre. Opa! Mas espere aí!… há quanto tempo o GoogleRank existe mesmo? 1998?
E o desenvolvimento de software livre? Os processos tradicionais do desenvolvimento de software livre são parecidos com o processo peer-review da ciência - que é meritocrático em sua essência - e não podem ser comparados ao popular oba-oba da Web 2.0. De novo a questão da “novidade” que não é bem uma novidade e a apropriação de idéias antigas e maduras para validar uma falácia pop… Por esta razão, a imensa maioria dos exemplos de “inteligência coletiva” da Web 2.0 são imaturos, incompletos e falhos, passíveis inclusive (e efetivamente o são hoje em dia) de fraudes e problemas justamente por serem inteligências meramente quantitativas (Google Poisoning que o diga!), muito pouco qualitativas.
No editorial de 30/12/06 do Diário de Notícias (português) podemos ler: “a tão exaltada Web 2.0 é, de um ponto de vista meramente quantitativo, um amontoado de lixo.” Eu concordo plenamente. Para poder falar em “inteligência coletiva”, a Web 2.0 precisa ainda comer muito arroz e feijão, pois qualquer coisa que se aproxime de “democracia” não é sinônimo de inteligência, vide nossos políticos.
Se você se interessa por inteligência coletiva na internet (se ela é ou não é inteligente), sugiro a leitura do excelente artigo de Jaron Lanier, cujo título é bastante apropriado: Digital Maoism: The Hazards of the New Online Collectivism.
Ainda em 1995, o GeoCities (atualmente pertencente ao Yahoo!) oferecia espaço e ferramentas para que qualquer usuário relativamente leigo construísse seu website e publicasse suas idéias. A loja virtual Amazon desde o seu lançamento (em 1995) permite que seus clientes e visitantes postem comentários e informações diversas sobre livros que são vendidos na loja. A Amazon também já sugeria produtos correlatos (“pessoas que compram este CD também compram…”) como forma de monetizar ainda mais a operação. Em 1998 o Yahoo! lançava o MyYahoo!, permitindo que a página de entrada do site fosse customizada e personalizada (com notícias, cores e afins) individualmente.
Conteúdo participativo e/ou colaborativo e as várias tentativas de inteligência coletiva não seriam idéias novas e revolucionárias, surgidas na Web 2.0. Ao contrário, seriam pilares bem antigos da internet, permitindo que virtualmente qualquer indivíduo ou empresa publique, opinie e compartilhe informações na rede.
Sobre a internet como plataforma
Ainda na metade da década de 90 a Sun Microsystems lançou e patenteou o slogan “The Network is the Computer”, demonstrando sua intenção e posicionamento comercial em fazer da internet “a” plataforma para todo e qualquer sistema computacional existente (o slogan veio reforçar as promessas de interoperabilidade, portabilidade da linguagem multiplataforma Java – “Write once, run anywhere” - parodiado por alguns como sendo na realidade “Write once, crash anywhere”). Ainda em finais da década de 90, começaram a surgir alguns padrões de interação entre aplicativos internet, para que as então chamadas transações B2B pudessem ser realizadas de forma padronizada.
O termo Webservices e o protocolo SOAP ganharam força e se popularizaram, sendo padronizados mais tarde pelo W3C em 2001. Em 2002, Amazon, Google e vários players importantes desenvolveram e publicaram APIs para que desenvolvedores de todo mundo pudessem integrar seus serviços com o destas empresas. Redes P2P surgiram e fizeram sucesso muito antes de se ouvir falar em Web 2.0. Cita-se o popular Napster, ícone desta “revolução” ocorrida em 1998. Exemplos são inúmeros (passando por sistemas de controle pessoal – ex. site Elefante.com.br), financeiros (câmbio), previsão do tempo etc.
Sobre tecnologias novas
Apesar de o termo AJAX ter sido usado pela primeira vez em 2005, as tecnologias que englobam o termo tiveram início ainda no final da década de 90, nos navegadores de geração “4” (Internet Explorer 4.0 e Netscape Navigator 4.0), que introduziram suporte à técnicas de remote-scripting. Com o lançamento da versão 5.0 do Internet Explorer em 2000, e a estagnação do Netscape Navigator (que mais tarde teve seu código fonte aberto gerando o excelente Firefox), a Microsoft inaugurou uma forma mais elegante de remote-scripting com o XMLHttpRequest. Daí até os dias atuais o conceito só evoluiu, ganhando força e notoriedade devido ao aumento no número de usuários da rede. Linguagens e frameworks de desenvolvimento rápido para web (RAD) já existiam antes da Web 2.0. Pode-se citar a linguagem ColdFusion da Allaire (1995) e o Fusebox (1998).
A sindicância de conteúdo (famosa hoje pelo RSS), chamada no passado de “conteúdo push”, já era conhecida de usuários do Internet Explorer 4.0 e o seu serviço ActiveChannels. Agências de notícias como a Reuters já utilizavam sistemas de intercâmbio de conteúdo e notícias entre agências e consumidores de notícias muito antes do surgimento da Web 2.0, sistemas estes que inclusive foram os precursores dos padrões atuais. O próprio XML data de 1997. A portabilidade de sistemas para dispositivos móveis (a tão aclamada “convergência”) é um discurso antigo, que antecede em muito a Web 2.0, e que sempre esteve em constante evolução, cujo passo inicial remonta aos primeiros dispositivos móveis, sejam eles celulares ou PDAs.
Sobre mudanças em marketing
Os críticos argumentam que não houve uma mudança significativa no marketing praticado pela internet. Segundo eles, o dinheiro (oriundo de ações de marketing) continua sendo gerado da mesma maneira: via publicidade e serviços. Como exemplo, a maior parte dos lucros do Google vêm de anúncios vinculados às suas buscas e sites que utilizam seus serviços. O Yahoo!, por exemplo, tem um modelo misto: publicidade e serviços. O Yahoo! Small Bussiness não é novo, já existia (porém não com esse nome) desde a época do GeoCities, quando você podia pagar um valor para ter mais espaço, vincular um domínio ao seu site, etc.
A web sempre foi serviços. Conceitos como o de marketing viral são bastante antigos e seu vínculo com a internet foi alvo de um livro (Idea Virus) de Seth Godin ainda em 2001. Empresas de publicidade na Web (ex. DoubleClick) já empregavam o pagamento por retorno antes do advento do termo Web 2.0. O próprio Google AdSense e AdWords não são serviços novos, derivam de empresas que já atuavam na internet antes do Google (Applied Semantics - adquirida pelo Google e Goto/Overture, adquirida pelo Yahoo!).
As críticas e fatos não param por aí. Engrosse a lista se desejar. Na Wikipedia qualquer um pode editar. Lembre-se apenas de saber como fazer isso de forma parcial e respeitosa. Leia as guias de ajuda antes de começar a editar por lá, vai te poupar um bocado de dor de cabeça com os xerifes e “especialistas” que lá habitam.
Mas ainda não terminou. E o que os “especialistas” da Web 2.0 vão dizer sobre as críticas? Bem, eles vão dizer que não é bem assim, não é bem assado, que a “Web 2.0″ é outra coisa, que a gente não entendeu nada porque é difícil entender, isso e aquilo… (prepare os ouvidos). O próprio guru-mór do termo, Tim O’Reilly já começou a “adaptar” (para não dizer mudar sutil e convenientemente) aquilo que ele já tinha papagaiado e dado como certo há cerca de um ano. A estratégia é ir definindo a coisa enquanto ela está acontecendo e/ou puxando a atenção para as coisas que fazem mais sentido, descartando as besteiras ditas no passado. É o beta perpétuo de idéias, que também perpetua a sua exposição na mídia (o que é bom para ele e suas empresas). O’Reilly é acima de tudo um cara esperto. Que se dane o termo (ele malandramente já nem faz tanta questão de defendê-lo), o que importa são as idéias, o que importa são as pessoas… Lindo, mas tão vago e subjetivo como dizer que a “individualidade é algo muito pessoal”…
Continue fazendo seu website, suas aplicações, seus mashups, seja lá o que for sem se preocupar com a meme, a hype e todo o alvoroço (incluindo consultores e gurus paraquedistas) da Web 2.0. Continue fazendo-os com qualidade e com inteligência, melhorando-os sempre que possível. As regras do bom senso nunca tiveram uma versão 2.0. Pense nisso. [Webinsider]
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Este texto, com algumas mudanças, está atualmente disponível para o termo Web 2.0 na Wikipedia portuguesa, onde colaboro e escrevo para que o conceito não vire uma peça publicitária.



1° Bruno Rodrigues Data: 18/01/2007 às 10:40 am
Atividade:
Cidade:
Êta, finalmente uma alma que põe no papel o que uma penca de gente, como eu, acha… É o caso típico de um ‘guarda-chuva’ que só vem para confundir o mercado… Boas idéias com uma *péssima* embalagem! Passo minutos intermináveis explicando a alunos e clientes o que é ‘Web 2.0′, e para isso preciso primeiro tirar o ‘lixo de imagem’ que se formou em torno do assunto. Haja paciência… Acho que o Tim O’Reilly merecia um ano ou dois de trabalhos forçados só por ter criado este termo! :-)