A inteligência coletiva e a burrice das multidões
08 de janeiro de 2007, 13:14A idéia de aproveitar a inteligência coletiva pode ser mal entendida - não é preciso buscar um consenso entre todas as opiniões e nem a média de opiniões muito divergentes deve ser a melhor opção.
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Segundo Tim O’Reilly, o núcleo de todo o conceito de Web 2.0 é aproveitar a inteligência coletiva. A regra mais importante para fazer sucesso na internet é aproveitar o fato de existir tanta gente acessando seu serviço e a facilidade de poder colher contribuições dos usuários, agregando valor (para o bem dos próprios usuários) ao serviço.
Essa contribuição pode vir em forma de votos, que definem qual conteúdo é melhor; pode ser o próprio conteúdo do serviço, como acontece nos sites colaborativos; pode ser na organização do conteúdo, com palavras-chave (tags); podem ser o feedback do usuário de um programa online; pode ser uma simples compra, que acaba ensinando ao sistema que quem compra isso compra também aquilo… As possibilidades são infinitas.
Porém esta idéia de aproveitar a inteligência coletiva pode ser mal entendida. O mal entendimento seria pensar que para aproveitar esta sabedoria das multidões é preciso buscar um consenso entre todas as opiniões e participações ou que a média de opiniões muito divergentes deve ser a melhor opção.
A burrice das multidões
Recentemente, Kathy Sierra publicou um artigo sobre a burrice das multidões. Segundo ela, aproveitar a inteligência coletiva pode trazer muitos benefícios, desde que não seja necessário um consenso entre a comunidade em questão. Kathy diz que aproveitar a inteligência coletiva é agregar de alguma forma a sabedoria de cada indivíduo independente (e a independência é a chave neste conceito), sem que esta sabedoria seja degradada por um consenso.
Veja alguns exemplos
– Inteligência coletiva é um monte de gente escrevendo resenhas de livros na Amazon. Burrice das multidões é um monte de gente tentando escrever um romance juntos.
– Inteligência coletiva são todas as fotos no Flickr, tiradas por indivíduos independentes, e as novas idéias que surgiram aproveitando essas fotos (utilizando a API). Burrice das multidões é esperar que um grupo de pessoas crie e edite uma foto juntas.
– Inteligência coletiva é pegar idéias de diferentes perspectivas e pessoas. Burrice das multidões é tirar cegamente uma média das idéias de diferentes pessoas e esperar algum incrível avanço. O maior problema aqui é mais o “cegamente” do que a média.
– Inteligência coletiva é a Camiseteria, votando e discutindo camisetas que foram criadas por indivíduos independentes. Burrice das multidões seria esperar que a comunidade da camiseteria criasse uma camiseta como um grupo unido, dirigido por consenso.
Arte não é feita por comitê. Um design realmente inovador não é feito por consenso.
Mais exemplos: Digg e Google
Um link no Digg, por exemplo, não vai para a homepage depois de um grande debate e um consenso entre os milhares de usuários que viram o link. Vai depois que o sistema (que é projetado por um pequeno punhado de indivíduos) decide que deve ir. O sistema é influenciado por cada usuário, individualmente, dizendo se gostou ou se viu algum problema no link. É aí que está a inteligência coletiva.
Um link não fica em primeiro lugar no Google depois que todos os usuários da internet chegam a um consenso de que aquele link é o melhor. Mas o Google aproveita a inteligência coletiva contando mais pontos para os links que são citados por muitos indivíduos independentes.
No Yahoo respostas não é necessário que todas as pessoas que respondem uma pergunta concordem. Podem haver respostas muito divergentes. E quem perguntou é que escolhe a melhor resposta.
Votação não gera consenso
Quem votou contra o Lula não deixou de se opor a ele só porque ele ganhou. Quem perde a eleição fica contrariado. Consenso é quando todo mundo concorda com uma situação, é o tal de “denominador comum”.
O consenso tem seu lugar. No desenvolvimento de software, por exemplo, eu penso que seja melhor trabalhar através de um consenso entre a equipe do que forçar ordens aos desenvolvedores contra sua vontade, o que só gera desanimo e desmotivação. Mas aproveitar a inteligência coletiva em um sistema não é, necessariamente, um movimento no sentido de obter um consenso de uma comunidade. É agregar aquilo que cada indivíduo tem de melhor, produzindo um resultado que agrega mais valor ao seu serviço.
E a Wikipedia?
A Wikipedia poderia ser um desastre, por buscar consenso entre os editores dos artigos, mas o trabalho dos administradores (tomando decisões que nem sempre são geradas pelo consenso) acaba sendo decisivo para a qualidade do conteúdo. Neste sentido a Wikipedia aprendeu com o mundo do software livre, que também trabalha através de um consenso moderado.
No que essa definição ajuda?
Penso que esta melhor definição de inteligência coletiva é muito útil, principalmente para avaliar idéias novas. Mudou muito meu jeito de ver as comunidades de Web 2.0. Não basta construir um sistema para aproveitar a participação do usuário, é preciso aproveitar esta participação de um modo que agregue valor ao todo sem que a coletividade se sobreponha à individualidade. O ideal é aproveitar o melhor dos dois mundos. [Webinsider]
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1° Guilherme Land Data: 08/01/2007 às 10:04 pm
Atividade: estudante de comunicação digital
Cidade: Sapucaia do Sul
meses atrás a Wired abriu um de seus artigos como wiki, não funcionou, perdeu-se a narrativa Wired e ficou parecido com artigo da Wikipedia…
interessante o que Steven Johnson fala no livro Emergência sobre os filtros do Slashdot e propõe um cruzamento entre qualidade e diversidade