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Comportamento - Games - Relacionamento

Second Life e a redução do poder do superego

06 de dezembro de 2006, 11:38

Freud ajuda a explicar o sucesso de games como o Second Life, onde a fantasia é uma forma de dissipação da energia acumulada por desejos não-atendidos.

Por Marcelo Marzola

Em seu belíssimo ensaio O Mal-Estar na Civilização, Freud dá continuidade ao trabalho iniciado com O Futuro de Uma Ilusão, de 1927, e explica o que ele acredita ser uma das grandes fontes da infelicidade humana.

Sinteticamente, Freud argumenta que para viver em sociedade o ser humano precisa tolher os instintos de sexualidade e agressividade e com isto perde a capacidade de ser plenamente fiel à sua natureza e vive sob uma condição de insatisfação permanente.

Um dos temas centrais do ensaio diz respeito ao indivíduo e à civilização — como o desenvolvimento do indivíduo e a evolução da civilização estão intrinsecamente ligados e quando/onde esta ligação ocorre. Basicamente estamos falando de formação de caráter, sublimação (a canalização da energia para outras atividades físicas e psicológicas) e não-satisfação/renúncia dos instintos, que ocorre quando enterramos nossos instintos em troca por viver em sociedade.

Pensando no mundo moderno, nos últimos anos assistimos ao sucesso fantástico do desenvolvimento de mundos virtuais que se tornaram possíveis graças à Internet. Estes mundos, chamados de Massive Multi-player Online Role Playing Games (MMORPG) ou jogos multi-jogador massivos online de role playing, reúnem cada vez mais pessoas. Alguns títulos contam com dezenas de milhões de jogadores.

Os primeiros que surgiram, à luz dos jogos de RPG fora do mundo virtual, tratavam de histórias fantásticas com gnomos, trolls e castelos. Mas o que mais causa espanto é o surgimento de jogos de RPG ‘normais’ que possibilitam ao usuário ter uma segunda vida na internet – este é, aliás, o título do jogo mais famoso desse gênero nos últimos tempos, Second Life.

No “Second Life” os jogadores criam ‘avatares’ (este é o termo técnico dado pela indústria para os personagens) que são homens, mulheres, travestis, etc, com características ditas normais, e o único objetivo do jogo é viver uma segunda vida.

É impossível não pensar em Freud quando se pensa em Second Life. Se começarmos pelo termo técnico citado acima ‘avatar’ – vem do sânscrito que significa ‘descida’ e era usado pelos hindus para descrever a manifestação corporal de um Ser Supremo (um Deus) – sim, no Second Life você cria um ‘Deus’.

Caindo no detalhe do dia-a-dia do jogo, podemos entender que o Second Life é uma forma moderna de minimizar desejos não atendidos. Quando Freud em seu ensaio fala sobre as formas que o ser humano encontra para dissipar esta energia ele fala de “substituições satisfatórias”, o que está diretamente ligado à fantasia. Segundo Freud, a fantasia é uma forma de dissipação da energia acumulada por desejos não-atendidos. Os jogos MMORPG são claras manifestações modernas disto.

Conforme exposto anteriormente, viver em sociedade implica em renunciar a nossos instintos – a vida em sociedade limita a nossa sexualidade. Aparece neste ponto outra característica interessante dos MMORPG – uma boa quantidade de jogadores homens usa avatares femininos no mundo virtual. Até que ponto isto está conectado à sexualidade ou ao desejo de liberdade sexual é questionável, mas o fato é que o homem, tão ‘macho’ na sociedade moderna, estabelece e usa sem culpa uma representação feminina na sua segunda vida.

Os jogos online são ainda uma rica fonte para minimizar o sofrimento oriundo da nossa insatisfação. Se aceitarmos o exposto por Freud que diz que o corpo humano (por sua fraqueza e mortalidade), o mundo (por sua falta de controle) e as relações sociais (por sua legislação social restritiva) são limitadores da nossa capacidade de satisfazer prazeres, os jogos online representam exatamente o ‘escape’ destes limitadores. No mundo virtual o corpo é imortal, o mundo é controlável e as regras sociais são menos rígidas.

No mundo virtual não existe culpa ou remorso, o avatar não sofre – uma parte triste deste fenômeno que podemos também constatar é a interposição da vida primária (terrestre) com a vida secundária (jogos online) – chegando ao ponto de pessoas cometerem sacrifícios reais em virtude de desentendimentos virtuais.

As primeiras sociedades defendiam as artes (principalmente o teatro, que por definição é ‘role playing’ e não coincidentemente originou o termo ‘role playing game’) como uma ferramenta de catarse – ritual que era a forma mais explícita de minimizar o acumulo de desejos. Isto posto, cabe perguntar se os jogos online seriam mecanismos de catarse mais modernos?

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Sobre o autor

Marcelo Marzola (marcelo@predicta.com.br) é presidente da Predicta, vice-presidente da IAB Brasil e participa do blog Na Medida.

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Comentários

10 pessoas comentaram o artigo "Second Life e a redução do poder do superego"

Clovis Fagundes Botelho Data: 06/12/2006 às 12:59 pm

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A medida que as tecnologias avançam e o realismo dos games on-line cresce, este tipo de jogo ganha mais adeptos. Isso ocorre devido a sensação de realidade alternativa que transparece.

Creio que no futuro cada vez mais pessoas jogando e levando “Duas” vidas.

:)

Rael Data: 06/12/2006 às 3:36 pm

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No meu blog eu ja publiquei uma matéria a respeito do Second Life.. simplesmente pq ele não é só um jogo…. tem muita gente ganhando a vida (de verdade) neste game… ou seja…. tirando umas verdinhas de verdade com seus serviços virtuais…

Além de entretenimento, muita gente enxerga isso como um empreendimento

até mais

Eduardo Data: 06/12/2006 às 5:13 pm

Atividade: Empresário

Cidade: Ribeirão Preto

Os princípios cientificos de Freud realmente permanecem, a despeito da evolução do homem em sociedade.

Se Freud vivesse nestes tempos ele diria que a psicanalise tem agora uma nova ferramenta para atuar. A do mundo virtual!

É como se a mente do indivíduo passasse, agora, a ser observada e reproduzida numa telinha mostrando comportamentos ‘avatariais’.

Concluo:A Inteligência Universal captada virtualmente nos mostrará tendências.

Perigo: As fantasias se imporem à realidade!!!

Parabens pelo excelente e culto artigo.

Bruno Data: 11/12/2006 às 5:15 am

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Como diria Cazuza : “Pra que ter vergonha? a vergonha não é uma coisa boa, só nos limitaa fazer coisas que queremos…”

O Second Life esta ae pra tirar nossa vergonha e fazermos oque bem intendermos.

Sim, mundos virtuais são uma cartase do mundo moderno.

Miguel Data: 11/12/2006 às 8:49 am

Atividade: Informática

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Segunda Vida, é como as pessoas precisassem de um escape, fuga de uma sociedade sem espectativas.

Este mundo se encontra em decadência, em desmoralização, em destruição. Agora criar um novo, onde o homem que terá total controle.

Entretanto este novo mundo online criado por ser humanos, será que também não terá o mesmo destino? Creio que sim! Até mais rápido.

O mundo em que vivemos é um reflexo de nossos decisões. Quanto mais este mundo virtual, em que as decisões partem de nosso consciente oprimido. Tudo que é “proibido” no mundo real, lá será “livre”. Que liberdade é esta, em que o Homem está preso em seu consciente, dominado pelos seus impulsos.

Este escape do homem é em busca de um preenchimento. Em nós encontrasse um vazio. Somete crendo em Jesus Cristo como nosso salvador e seguindo os seus ensinamentos é que teremos uma liberdade leal, não deixando nossos instintos nos controlar.

“Porque esta é a vontade de Deus, a saber, a vossa santificação: que vos abstenhais da prostituição, que cada um de vós saiba possuir o seu vaso em santidade e honra… I Tessalonicenses 4:3,4”

William Data: 12/12/2006 às 9:03 am

Atividade: comunicador

Cidade: São Paulo

Second Life é uma fuga para o que a sociedade no mundo real sempre tampou, o self interno das pessoas. Não é de hoje que existe essa necessidade de se soltar das amarras impostas pela sociedade.

Como dito no texto acima, as artes começaram a se soltar dessas amarras, com o pano da arte envolvendo essa liberação.

A religião tenta tampar novamente, com o discurso da salvação eterna. Quem precisa ser salvo? Eu?

Salvar-se das amarras é necessário, só assim a sociedade seria menos hipócrita.

Gustavo Data: 15/12/2006 às 10:59 pm

Atividade: Analista de Suporte

Cidade: Belo Horizonte

Bacanérrimo este texto!!!

Só uma observação: acredito que na maioria dos jogos, o termo “Avatar” é usado para designar o jogador como sendo o Deus do mundo do personagem… e este último a personificação do Deus: jogador. E não o contrário como exposto no artigo.

Ficaria assim mais ou menos assim:

Jogador(Deus,você) -> Personagem(Avatar,herói)

Onde, o símbolo “->” poderia significar “controla”… por exemplo.

Portanto, em Second Life, você não cria um Deus, Deus é você! Seu Avatar é apenas a sua manifestação corporal em um mundo fictício.

Tem um jogo, individual, chamado Black and White para PCs (que está mais para experimento de inteligência artificial do que para jogo) onde o jogador, de fato, encarna um personagem divino. Bem bacana! Recomendo!

É isso…

Fátima Data: 26/12/2006 às 2:35 am

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Muito doido isso.
Ensaio pra ser Deus.
Será q criaremos nossos avatares
nossa “imagem e semelhança” ou
justamente aquilo de mais absurdo q nunca
seríamos ou assumiríamos na vida real??
No q nos transformaremos?
Do q seremos capazes?
Qual será a nossa essencia??

Mais uma vida, mais despesas,
mais gasto do escasso tempo,
mais realizações e sensações novas,
mais consumismo, mais caminhos pra se escolher…

Será muito divertido.
A idéia foi genial!!!
Mas, perigos existirão, com toda certeza.

Tales Simon Data: 16/01/2007 às 4:40 pm

Atividade: Diretor de Arte

Cidade: São Paulo

Como Freud pode ser assim tão contemporâneo?

Esse game não parece ser apenas um game ele alinha todo sentimento humano por mudança (evolução) ou experimentos; a famosa busca e curiosidade.

Imagine!
Eu existo real e virtualmente.

É engraçado ter uma metáfora de mim mesmo e além disso poder vê-lo.
:)

10° Moisselle Moreno Data: 22/01/2007 às 10:53 pm

Atividade:

Cidade: São Paulo - SP

Excelente, Marcelo!
Em seu texto vc traduziu em palavras exatamente meu pensamento à respeito.

Avisos
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