Os controladores de vôo e o mercado digital
13 de novembro de 2006, 9:06O que aconteria se as agências trabalhassem 100% dentro das normas?
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No início de novembro de 2006, a aviação civil brasileira passou por uma grande crise. Diversos vôos atrasaram ou foram cancelados por um motivo: os controladores de vôo resolveram seguir à risca o que dizem as normas. Eles passaram a controlar somente um determinado número de aviões que permitisse dedicação suficiente para não colocar vidas em risco.
Diferente dos controladores de vôo, o trabalho de uma agência dificilmente coloca em risco a vida de pessoas. Na maioria das vezes, o que está em risco é a verba do anunciante, a imagem de uma marca ou o emprego de um funcionário da agência. Como um exercício, o que aconteceria se o mercado digital passasse a trabalhar seguindo normas-padrão?
Assim como aconteceu nos aeroportos, a primeira conseqüência seria o atraso ou perda de prazo em vários trabalhos. Com todos os funcionários trabalhando somente das 8 às 18 horas e com apenas um job por vez na mesa, seria praticamente impossível cumprir todos os prazos. Para os funcionários, acabaria a liberdade de horários. Algumas agências chegariam ao extremo de punir os funcionários que chegam atrasados constantemente.
A segunda conseqüência seria a ampliação de todos os prazos. Além de ter que realocar o trabalho de acordo com a menor jornada de trabalho dos funcionários, a agência passaria a trabalhar seguindo processos rígidos. Mudar uma palavra em um banner deveria passar por filas e formalidades. Briefings incompletos realmente voltariam para o atendimento. Os criativos teriam 4 horas para criar campanhas, nem mais nem menos. Os gerentes de projeto deveriam trabalhar seguindo ao pé da letra o PMBOK, a bíblia do gerenciamento. Um trabalho que hoje leva 2 dias passaria a levar no mínimo 5. E trabalho “para hoje”, só com taxa de urgência, afinal é preciso pagar horas extras dos profissionais.
A terceira conseqüência seria uma redução nos investimentos dos anunciantes por causa do aumento de todos os custos do mercado. Imagine se os veículos passassem a cobrar os preços de tabela pelos espaços e, as agências, o preço integral dos trabalhos.
A quarta conseqüência seria um aquecimento impressionante do mercado de trabalho. A única saída para as agências seria contratar mais funcionários para compensar a lentidão nos processos e a redução das horas de trabalho. Os terceiros, como produtoras e serviços especializados, cresceriam muito, pois em alguns casos não valeria a pena para a agência a contratação de novos funcionários por conta dos encargos trabalhistas.
A quinta conseqüência seria que algumas agências chegariam ao extremo de ter que recusar trabalhos por causa de todas as restrições para entregá-los. As agências também deixariam de participar de concorrências, a não ser que fossem remuneradas por isso, pois as horas de cada profissional passaram a ser preciosas.
O que podemos concluir desse cenário inimaginável é que cada um defende os seus interesses: a agência quer rentabilidade, o profissional quer ganhar o justo pelo seu trabalho e o anunciante quer pagar o menor valor pelo melhor trabalho. É preciso encontrar o equilïbrio entre esses interesses, o que permite à roda continuar girando: sem anunciante a agência não ganha dinheiro e não pode pagar seus funcionários. Embora esse equilíbrio aconteça com certa ajuda, como a de sindicatos, em categorias bem organizadas, na propaganda esse equilíbrio ocorre naturalmente. É o caso, por exemplo, do profissional que se sente explorado, deixa a agência e passa a trabalhar por conta própria.
Por último, o mercado digital é o retrato da publicidade, que é o retrato do Brasil: a arte dos jeitinhos para sobreviver. Nenhuma das características acima é exclusividade da propaganda: pergunte a seus amigos que trabalham em consultorias, bancos, empresas de engenharia ou jornais se eles não passam por situações assim. [Webinsider]
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1° Ronaldo Silva Data: 13/11/2006 às 9:27 am
Atividade: Designer de Interfaces
Cidade: São Paulo - SP
Resumindo, não sabemos seguir processos, e todo esse mecanismo, toda essa engrenagem trabalha totalmente fora do “menual”, bem ao estilo do Brasil mesmo.