Sobre o excesso de trabalho nas agências de internet
31 de outubro de 2006, 22:15É muito comum nas agências os funcionários trabalharem até tarde e nos finais de semana. É o reflexo de uma busca desenfreada por lucro e total desorganização na execução de projetos.
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Raciocine comigo neste cenário:
“Um agência vende um projeto por R$ 100 mil de 1000 horas de trabalho, sendo que ela vende a hora de cada recurso por R$ 100. Durante o andar do projeto, as pessoas começam a trabalhar à noite pra entregá-lo e continuam nos finais de semana, totalizando, no final, cerca de 1200 horas. Projetos similares se repetem de forma constante ao longo do ano.”
Afinal, quem ganha e quem perde com estas 200 horas de trabalho extra? Durante muito tempo eu refleti sobre este problema e cheguei a algumas conclusões, algumas muito polêmicas por sinal.
a) A agência paga hora extra
Se a sua agência paga hora extra, considere-se um privilegiado, pois eu nunca ouvi falar de uma que pagasse. É coisa mais normal do mundo esta violação da CLT nas agências. Nesta situação quem perde é a agência, pois gasta mais do que o planejado e tem prejuízo com o projeto. Um pouco de organização na gestão do projeto ajudaria muito em casos como este. Mas como pagar hora extra é algo muito raro, isso me leva a crer que elas nunca levam prejuízo por este motivo.
b) A agência possui banco de horas
Se a sua agência possui banco de horas, considere-se privilegiado em parte, pois é melhor do que não ter hora extra. É importante que você também tenha a chance de usar o banco de horas. Não adianta acumular 10 mil horas de trabalho se você não pode gastar. Mas mesmo assim quem perde é o recurso. Sabe por que? Simples, se a agência pagasse horas extras, ela teria que pagar o dobro das horas acumuladas, ou seja, para cada 1 hora trabalhada extra, teria que pagar 2 horas a mais. Com isso, ela normalmente paga as horas perdidas igualmente, mas lucra 1 hora comparando com a CLT, entende?
Além disso, as horas extras que você trabalhou roubaram o emprego de uma pessoa desempregada que está no mercado e poderia estar na agência te ajudando a terminar o trabalho (poderia ser você, se estivesse desempregado).
Um outro fator importante é que o horário de trabalho noturno normalmente é o tempo que você gastaria fazendo cursos ou cuidando da sua família e colheria frutos no longo prazo. É um tempo muito mais precioso e acabará sendo comprado por um valor muito baixo e só você tem a perder. Existem empresas que têm a cara-de-pau de pagar pizza e táxi para o indivíduo ir embora. Se já não bastasse ela matar o cara de trabalho, ainda mata de obesidade. Pense: quatro horas do seu trabalho valem “apenas” uma pizza mais um táxi?
Estou excluindo aquelas pessoas fazem do trabalho a própria razão de viver ou que ganham salário muito acima da média do mercado. Imagino que sejam a exceção.
c) A agência não paga horas extras e nem possui banco de horas
Esta situação é a mais comum e todo mundo “ganha” no curto prazo mas perde no longo prazo.
O cliente ganha, pois compra um produto de R$ 120 mil e paga R$ 100 mil. Se não bastasse ele ser uma grande empresa que fatura milhões/bilhões anualmente, ainda tem que lucrar 20 mil reais em cima dos coitados que trabalham na agência.
A agência ganha por vários motivos:
- O cliente fica muito satisfeito com o trabalho de baixo custo. O problema é que ele nem sempre tem consciência que foi de baixo custo, mas sim que saiu no preço combinado.
- A agência está conseguindo manter a meta de faturamento no ano e com isso a diretoria fica toda feliz. O bônus no final do ano está garantido!
- A agência se mantêm competitiva. Como ela vende um produto abaixo do preço de mercado, pode ter vencido uma concorrência ou mantido a competitividade. Na verdade, a competitividade fica mantida pelo baixo salário que paga ao recurso, na medida em que este fica diluído nas horas extras que não foram pagas.
O recurso ganha, pois mantém o seu emprego. Imagine o que aconteceria se ele se recusasse a trabalhar até mais tarde ou exigisse o pagamento da hora extra? Seria mandado pro olho da rua sem perdão.
O cliente também perde, pois provalmente paga por um produto com baixa qualidade na maioria das vezes. Transforma a agência numa verdadeira padaria. Já vi muitos projetos serem entregues com qualidade sofrível por causa das crises na entrega (para entender melhor, leia o meu artigo sobre crise.
A agência perde também por vários motivos:
- Fideliza um cliente com base no preço. Melhor trocar o nome para “Padaria Digital”.
- Desmotiva toda a agência no longo prazo. Com vários projetos assim, todo mundo fica desanimado, com vontade de sair, com impressão de que ganha salário baixo, que é desvalorizado, estressado etc…
- Não retêm os talentos. A agência vai aumentar a rotatividade e, com isso, pessoas muito boas começarão a ir embora.
- Perde a chance de melhorar o processo de produção. A empresa que não trabalha em prol da melhoria contínua, acaba repetindo este processo falho todas as vezes. Se acontecer uma vez tudo bem, mas acontecer sempre pode ser muito desgastante.
- A agência joga o projeto na crise e coloca todo mundo sob pressão. É difícil entregar um projeto quando os recursos financeiros são escassos ou empresa economiza desde o início. Este é um dos maiores tiros no pé em projetos que eu já vi: economizar no início (planejamento e contratações). Contratar o famoso funcionário “Júnior”. Realmente dá vontade de chorar pelos inúmeros apertos que passei por causa de gente “Júnior”, estagiários e gente desmotivada.
Se não reagir a tempo, esta situação só contribui para que gente incompetente se mantenha na gestão da agência e dos projetos.
A pessoa que trabalha em excesso é a que mais perde:
- Perde a chance de aproveitar o tempo livre e melhorar a qualidade de vida.
- Prova para a agência que pode ser explorado cada vez mais sem reclamar e isso só perpetuará a sua condição de explorado.
- Contribuiu para que a “Padaria Digital” continue de pé e mantenha o seu status de “Padaria da Ano de acordo com a revista tal…”
- Desvaloriza o seu trabalho.
- Perde competitividade no mercado de trabalho, pois os funcionários das outras agências conseguem investir na sua melhoria profissional, muitas vezes com o apoio da empresa.
A situação financeira da empresa pode influenciar muito nesta situação:
a) A agência está numa situação financeira boa
Neste caso, ou a empresa está com lucros exorbitantes ou tem um problema sério de organização e processo interno. Não tem desculpa - tem dinheiro e ainda faz mal feito? Basta um pouco de planejamento e contratar as pessoas certas para fazerem o trabalho direito. Se a agência paga mal às pessoas então.. aí tem coisa errada… melhor não comentar muito.
b) A agência está numa situação financeira média (no limite)
Neste caso, é só melhorar o processos internos. Investir no planejamento e ter pessoas experientes e cuidadosas gerindo o projeto pode ser a solução. Tem que tratar a demanda em excesso com inteligência e priorizar corretamente os projetos, evitando desperdícios e desgaste desnecessários.
c) A agência está numa situação financeira ruim
Neste caso, o excesso de trabalho acaba sendo justificável. Eu explico: como a empresa tende a economizar nos projetos para ficar no azul, este sacrifício acaba recaindo em cima de quem trabalha nos projetos em forma de trabalho extra. Existe uma tendência da agência demitir pesssoas se isso se perpetuar no longo prazo e o correto é que demita as pessoas que contribuem menos para o resultado final ou que sejam menos competentes para o trabalho. Eu escrevi ”correto”, pois na realidade, vai embora quem ganha mais ou quem o chefe não gosta.
Existem alguns fatores extras que contribuem para isso pontualmente.
a) Orçamento feito no chute
Há pessoas realmente “sem noção” na hora de dar um preço para o projeto. São otimistas, não avaliam riscos, escopo e acabam por dar um preço muito baixo. E muita vezes um tempo curto. Com isso o pessoal interno quase se mata de trabalhar para manter o “sem noção” no cargo.
b) Orçamento político
É aquele orçamento “baratinho” que o diretor passa de forma “camarada” para o cliente. É para deixar o cliente (Deus Todo Poderoso) feliz com a agência. Faz barato e ferra todo mundo.
c) Desorganização interna
Falta de planejamento, normalmente. Processos burros e outras coisas mais. Neste caso não tem jeito. É pão fresquinho saindo toda hora.
d) Acidente de percurso
Isso pode acontecer esporadicamente; é uma coisa até normal desde que não se repita muito. Se for isso, é algo totalmente contornável.
“As pessoas da minha agência trabalham muito, mas recebem bem!”
Se você pensa assim, faça uma avaliação no nível de motivação das pessoas e surpreenda-se. Por melhor que seja o carro, se você acelerar muito uma hora ele desgasta e quebra. Cansei de conversar com pessoas desmotivadas por trabalharem muito e o salário que elas recebiam fez pouca ou nenhuma diferença nisso. Nem todo mundo está atrás de dinheiro; muitos só querem viver sua vidas tranqüilamente, sair com os amigos, ir às baladas e ficar com a família. Normalmente as agências são um ambiente onde predomina gente jovem, tem que entender esta gente.
Não prometa prazos sem envolver quem vai fazer
Se você se comprometer com algum prazo, certifique-se que se comprometeu também com as pessoas que vão fazer o que você precisa neste prazo. Eu cansei de ver pessoas trabalhando em excesso (eu mesmo fiz muito isso) para cumprir prazos impostos por outras pessoas que, além de não obterem o aval de todos, vão embora com aquele “Qualquer coisa, estou no celular, ok?”. Quem nunca ouviu uma dessas? Não tem coisa que desanima mais do que isso.
E lembre-se: Entre 18:00hs de sexta-feira e 9:01hs de segunda-feira, existe apenas 1 minuto de tempo para se fazer qualquer trabalho que não tenha sido previamente combinado. Cuidado ao contar para o seu chefe sobre isso, pode ser um choque para ele. [Webinsider]
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1° Thiago Valenti Data: 01/11/2006 às 7:15 am
Atividade:
Cidade: Balneário Camboriú - SC
Muito interessante realmente, olhar o planejamento de um escritório desse jeito. Realmente, existem coisas até piores em centros menores.
Eu só discordo na parte em que “O cliente ganha, pois compra um produto de R$ 120 mil e paga R$ 100 mil”. Na verdade, o cliente compra um produto de R$ 100 mil, como ele quis, o problema dos 20 mil a mais é da falta de organização do trabalho, e isso custa, as vezes muito.
Muito bom.
=]