Sobre os critérios de classificação socioeconômica
20 de setembro de 2006, 7:56Nossos anúncios voltados aos mais ricos vendem discutíveis conceitos de exclusividade, requinte, superioridade. Para os mais pobres, preferimos a gritaria antiestética, rude, mal-acabada. Temos muitos preconceitos!
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Tem umas coisas que a gente não percebe, mas que vão-se entranhando sorrateiramente: no corpo, os parasitas; na alma, os preconceitos.
Quero chamar sua atenção para o forte, embora imperceptível, conteúdo ideológico das nomenclaturas das classificações sociais universalmente aceitas. Fala-se que o pessoal da classe A é isso, da classe B é aquilo. Ou que a classe economicamente superior tem tais hábitos e a inferior tem outros etc. Tudo bem, são apenas nomenclaturas.
Mas você já se perguntou porque os ricos vêm primeiro e, quanto mais pobres forem os segmentos sociais, mais tendem às últimas letras do alfabeto?
Já que há muito mais pobres do que ricos, por que eles não são, então, a classe A? Não nos esqueçamos que, culturalmente, o que vem primeiro é tido como melhor!
[um amigo já dizia que tínhamos, até há bem pouco tempo, graças ao crescimento da pobreza, a sociedade dividida em classes de A a Z, sendo esta última a turma que mora debaixo da ponte. Hoje, do jeito que vão as coisas no Brasil, já temos a classe Z-linha, isto é, a parcela da classe Z que empobreceu ainda mais e foi empurrada pra dentro d’água]
Isto acontece porque medimos e classificamos em razão do volume de moedas, não de pessoas. Mas não podemos deixar de pensar sobretudo em pessoas! Há algo de tenebroso aí.
Não nos esqueçamos da terrível desigualdade não apenas de renda, mas também de oportunidades, que se verifica neste nosso injusto-maravilhoso país, décima ou décima-primeira maior economia do mundo (ou algo por aí), mas que tem a terceira pior distribuição de renda do universo.
Nós, publicitários, acostumados a dividir segmentos econômicos da população em A, B ou C, e a aceitar passivamente estas divisões, corremos o risco de desenvolver uma certa insensibilidade social, acreditando que “não temos nada a ver” com o aprofundamento do abismo que separa os mais ricos dos mais pobres em nosso país. Nossos anúncios voltados aos mais ricos vendem discutíveis conceitos de exclusividade, requinte, superioridade. Para os mais pobres, preferimos a gritaria antiestética, rude, mal-acabada. Temos muitos preconceitos!
Se, por outro lado, nem ao menos discutimos a razão de os mais pobres ficarem pra depois até numa simples nomenclatura, por que haveríamos de nos incomodar com nossa possível participação no aprofundamento do abismo, ao vendermos, algumas vezes irresponsavelmente, certas “verdades” que, por via de conseqüência, representam mais um grão de areia na praia da exclusão social?
Recentemente, o CONAR resolveu que devemos proteger as crianças e adolescentes do constrangimento por seus pais não poderem comprar muito do que lhes é oferecido (às crianças).
Sugiro a extensão do conceito a todos os cidadãos, não necessariamente por normatização do CONAR, mas pelas regras das nossas consciências de publicitários. [Webinsider]
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1° Cris Data: 22/09/2006 às 5:26 pm
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Caro amigo Zeca, lamento informá-lo, mas vc escolheu a profissão errada.
“Nós, publicitários, acostumados a dividir segmentos econômicos da população em A, B ou C, e a aceitar passivamente estas divisões, corremos o risco de desenvolver uma certa insensibilidade social, acreditando que “não temos nada a ver” com o aprofundamento do abismo que separa os mais ricos dos mais pobres em nosso país”.
“Correr o risco de desenvolver insensibilidade” é eufemismo, né?
“…acreditando que não temos nada a ver com isso” tb, né?
Mas “consciências de publicitários” foi a mais hilária citação do seu texto, que tem um ótimo discurso, mas soa surreal saindo da boca de um publicitário. Heheheh…
Na boa, vc deve ser um cara legal. Mas tá na profissão errada, então.