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Fábio Fernandes
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O brasileiro que inventou o rádio

25 de julho de 2006, 17:15

Livro conta a história do padre brasileiro cientista genial que acreditava na comunicação sem fio.

Por Fábio Fernandes

Em que momento cai um mito? Quando, exatamente, deixamos de acreditar no que nos dizem os livros oficiais de história e mergulhamos a fundo nos fatos históricos, nos acontecimentos? Quando, para ficarmos apenas num exemplo, Tiradentes deixa de ser simplesmente “o mártir da independência” que lemos nos livros escolares para ser o conspirador revolucionário que foi envolvido numa trama complexa (também semi-ignorada pelos livros escolares, que chamam simplesmente a conspiração de “Inconfidência Mineira” e estamos conversados) e condenado à morte e à infâmia?

Nos últimos anos, uma série de ótimos livros têm colaborado para erradicar de uma vez por todas a idéia de que o brasileiro não tem memória. Ao que parece, essa idéia nunca passou de um mito, pois sempre há quem nos lembre de que somos muito mais do que o infame senso comum nos tenta fazer acreditar (quanto à questão de quem ajuda a disseminar esse senso comum, ou seja, de quem é o interesse que não tenhamos memória, isso será assunto para outro dia).

Que os leitores mais jovens do Webinsider não se espantem com esta diatribe inicial. Ela é conseqüência direta da educação de primeiro grau recebida pela geração que hoje está na casa dos quarenta (na qual acabei de entrar) e que pouco fez além de entupir as cabecinhas (que por isso mesmo ficaram um tanto cabeçudas) com dados e cognomes, bem à moda da historiografia positivista, cuja única preocupação era elaborar listas de fatos, sem lhes dar a devida análise e contextualização. E quantos nomes, por questões políticas, entre outras, não ficaram de fora dessas listas?

Um dos nomes esquecidos por décadas foi o do padre gaúcho Roberto Landell de Moura. E um livro que está ajudando a resgatar o nome desse inventor é Padre Landell de Moura – Um Herói sem Glória (Record). Escrito pelo jornalista Hamilton Almeida, Padre Landell de Moura… conta a história de um padre que não se contentou com o púlpito e a pregação religiosa. Seu rebanho era outro: a ciência.

Landell era antes de tudo um cientista. Na adolescência, como a maioria dos jovens de sua geração, era curioso pelos fenômenos não só biológicos como também elétricos – afinal, a eletricidade ainda era novidade no Brasil do final do século dezenove (Landell nascera em 1861). O tamanho de sua curiosidade e a amplitude das áreas do conhecimento que gostava de investigar podem ser aferidos por um simples fragmento de manuscrito: “…fiz algumas composições químicas, tais como a para extrair a cárie dos dentes. Construí um telefone. Fiz a autópsia de um gato, e estudei a influência que podia ter sobre ele a eletricidade atmosférica.” E arremata, só para humilhar: “Tinha, então, 16 anos.”

Um herói sem glória – até agora

Façam os cálculos. Landell nasceu em 1861. Seu telefone fora inventado, portanto, em 1877. A primeira experiência de Graham Bell com seu invento data de 1876, e o Imperador D. Pedro II (o primeiro brasileiro a possuir oficialmente um aparelho telefônico) só teria o seu telefone no ano seguinte. Praticamente ao mesmo tempo, portanto, que o jovem gaúcho de Porto Alegre, que, escusado dizer, não pertencia à nobreza nem tinha qualquer contato com Bell e muito menos com o imperador.

Perdoe-me a igreja católica, mas padre Landell era o diabo. Pintava e bordava – ou, seria melhor dizer, soldava e montava? Fosse como fosse, Landell acreditava piamente na comunicação a distância sem a necessidade de fios, e lutou durante anos para construir aparelhos que pudessem transmitir a voz humana e aperfeiçoar o sistema já existente de telefonia.

Não estava sozinho. Outros cientistas, como Nikola Tesla e Guglielmo Marconi, pensavam o mesmo. Tesla é o criador da corrente alternada, e trabalhou com Thomas Edison em uma série de projetos que envolviam emissão de ondas sem fio. Marconi não ficou atrás: obteve o apoio dos governos italiano e norte-americano (além de financistas britânicos) para a construção de antenas e transmissores.

Landell tinha uma coisa em comum com Tesla e Marconi, além da perserverança: assim como eles, também foi para os Estados Unidos, certo de que a famosa Terra das Oportunidades seria o lugar ideal para mostrar seus inventos. Conseguiu patentear uma série deles, mas não conseguiu expô-los.

Em 1900, no alto de Santana

Seria pior no Brasil. Embora, em 1900, uma experiência bem-sucedida de transmissão de som tivesse acontecido no alto de Santana, na cidade de São Paulo (noticiada inclusive pelo Jornal do Commercio), os aparelhos de padre Landell não foram levados a sério em seu próprio país. Por isso passou o ano de 1904 nos EUA para patentear seus principais inventos: o “Wireless Telegraph” (telégrafo sem fio), o “Wireless Telephone” (telefone sem fio), e o “Wave Transmitter” (transmissor de ondas). As patentes foram obtidas, mas a duração delas era limitada (17 anos), e ninguém manifestou interesse em comercializá-las. Cientistas como Marconi não acreditavam na viabilidade dos sistemas utilizados por Landell. Um deles? A transmissão por ondas de luz.

Hoje considerado (mais um clichê positivista) “um homem à frente de seu tempo”, Landell não foi tratado como deveria. Embora não tivesse conseguido apoio nem dos governos nem da própria igreja, padre Landell continuou vivendo dentro dos cânones católicos. Chegou a se tornar monsenhor um ano antes de morrer, em 1928.

Patentes venceram e foram usadas

E ainda tomou conhecimento de que suas invenções, findo o prazo de duração das patentes, foram apropriadas pelos americanos. Em entrevista a um jornal brasileiro, declarou que não era menos feliz por isso. “Eu vi sempre nas minhas descobertas uma dádiva de Deus”, acrescentando que sempre trabalhara pelo bem da humanidade. Padre Landell não queria dinheiro: queria apenas o merecido reconhecimento por ter feito parte da história das telecomunicações.

O livro de Hamilton Almeida contém relatos detalhados e excertos dos manuscritos de Landell. É uma excelente fonte de informação para cientistas, coleguinhas da imprensa e todo e qualquer brasileiro que (sem nacionalismos exacerbados, por favor) deseje conhecer algo mais a respeito de um homem que deu a vida pela ciência num país que está pouco se lixando para seus gênios. [Webinsider]

Sobre o autor

Fábio FernandesFábio Fernandes (zeroabsoluto@gmail.com) é jornalista, escritor e tradutor. Mantém o blog Pós-estranho.

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Palavras-chave relacionadas a este texto: [ livros ]

Comentários

19 pessoas comentaram o artigo "O brasileiro que inventou o rádio"

Thiago Valenti Data: 26/07/2006 às 8:54 am

Atividade:

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Muito bom texto, sem exageros patriotas além do mais.

É bom ver textos críticos relacionados a assuntos variados no webinsider, que não tecnologia. Tudo que é história e crítica nos faz pensar, e pensar ajuda em qualquer área da vida.

Micox Data: 26/07/2006 às 9:42 am

Atividade: Webmaster

Cidade: Goiânia

Ótimo artigo.
Realmente fiquei impressionado e revoltado.
Parabéns.

Wendely Leal Data: 26/07/2006 às 1:25 pm

Atividade:

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Infelizmente.

Para o caso de conseguir apoio por aqui, a luta pela qualidade vai ser maior ainda.

O que a gente vê(e às vezes não vê) é um país de criatividade ímpar deixando talentos irem embora na esperança de voltarem e, é claro, com coragem suficiente pra se desenvolverem sozinhos.

É o segundo texto aqui do Webinsider de assunto variado e que merece muita importância.

Webinsider +10
Fábio Fernandes +10

Francimar Tomáse Data: 26/07/2006 às 3:26 pm

Atividade: Webdesigner

Cidade: Imperatriz

Poxa fiquei extremamente surpreso com este artigo, com esta história relatada de forma fantástica, isso faz abrir nossos olhos para a valorização de pessoas criativas, que tem algo a oferecer de valor para o nosso meio.
A Webinsider está de parabéns pelo nível de informação e parabéns Fábio Fernandes por resgatar e mostrar o brasileiro que inventou o Rádio! :)

Eduardo Carrega Data: 27/07/2006 às 3:18 pm

Atividade: Empresário

Cidade: Botucatu SP

Será que nossa nação tem olhos para os atuais ” Landell de Moura”?
Quantos gênios desperdiçados devemos ter por aí, escondidos em uma favela, em um morro, numa grande cidade como um “menos afortunado”…

Eduardo Barros Barreto Data: 02/08/2006 às 11:12 am

Atividade: Estudante de filosofia

Cidade: Vila Velha - E.Santo

Muito interessante e curioso este documentário. Parabéns!O nosso País ainda não valoriza os Ciêntistas - Gênios brasileiros que podem descobrir muitas “enhenhocas” que podem melhorar e colaborar para o bem comum da sociedade,além do País poder ser valorizado e reconhecido pelo mundo inteiro. Infelizmente até hoje, está esquecida a inteligência nacional; pessoas anônimas que nunca foram apoiadas em suas criações que muitas vezes, conseguem apoio internacional, e mais tarde seus produtos e invenções são revendidos para o próprio Brasil. Ficando assim, estagnado no sub - mundo permanecendo como um País de terceiro,tentando sempre em adaptar - se aos padrões internacionais que explorando pela sua autonomia. Enfim, ainda o Brasil precisa acordar para a sua potencialidade, como demonstrou o Padre Landell, mostrando que é possível crescer cientificamente, se houver investimento, pelo contrário, os grandes Gênios do nosso País continuarão alimentando o desenvolvimento alheio.”Acorda Brasil”.

Geraldo Apoliano Data: 17/08/2006 às 7:31 am

Atividade: Estudante

Cidade: Buenos Aires

Devem existir outros tantos Landell (leigos ou religiosos) Brasil afora. Quem sabe resolvam, um dia, investir com seriedade em educação?!

Elton Miranda Tavares Data: 11/12/2006 às 5:54 pm

Atividade: Administrador

Cidade: Orleans, Franca

Impressionante a informacao.

Destaco entretanto o desprezo misturado com esperteza dos gringos em desdenhar boas invencoes de um brasileiro.

Diziam: “afinal poderia algo de bom vir de um brasileiro, alguem de fora do ‘clube’? Deixa pra la, diziam eles, depois vamos dar uma olhadinha direito, se for coisa boa e depois que as patentes caducarem, nos apropriamos de desses feitos, feitos do nosso clube”.

Acho que ja vi esse filme repetido.

Elton Miranda Tavares. Orleans, Franca.

julio cesar Data: 23/02/2007 às 12:59 pm

Atividade: técnico em eletrônica

Cidade: Porto Alegre

Caro Fábio por incrivel que pareça entendo este padre. Entendo até mesmo o que ele sentiu quando foi destruido seus iventos e o chamaram de bruxo e louco. Digo isso porque certa vez tive que provar a meu chefe que um sistema de repetidoras de sinais de rádio provia uma certa cobertura aqui na cidade de Porto Alegre. Acreditem isso ocorreu em 2002. Antes de montar o sistema eu disse a ele que: pela primeira vez ele iria assistir a reivenção da roda. E o pior ainda veio a acontecr ele viu o sistema funcionar e depois comprou um monte de celular no lugar do sistema desacreditando assim que funcionaria aquilo que até mesmo outras empresas de mesmo ramo que ultilizam este sistema de rádio comunicação já algum tempo. Bem isso aconteceu em 2002 fiquei imaginando o que sentiu o padre em em 1900. Quando mostrou seu invento Que frustração!! Creio que o que deve ter cigurado o padre na hora foi sua crença em pensar na frase: Pai perdoem eles não sabem o que fazem

10° Luiz Netto Data: 10/03/2007 às 1:52 am

Atividade: Professor

Cidade: São Bernardo do Campo - SP

Prezados:

Estudo a vida e obra do sacerdote-cientista Roberto Landell de Moura desde o ano de 1995.
Como sou de formação profissional em eletrônica e elétrica resolvi estudar os seus inventos patenteados nos Estados Unidos no detalhe.

O resultado de meus estudos sobre Landell de Moura,poderão encontrar em:
http://paginas.terra.com.br/arte/landell_de_moura

Dedico-me a divulgar sua obra, tenho publicados artigos na Revista Saber Eletrônica, na Revista QSP de comunicações - Portugal - Viseu e mais recentemente a Revista n.35 Nossa História.

Poderão também encontrar informações sobre Landell em
http://www.qtcbrasil.com.br/noticias/mais_lineto.asp

Um abraço,
Luiz Neto

11° Terramel Data: 02/06/2007 às 12:03 am

Atividade:

Cidade:

Infelizmente desde cedo nós brasileiros somos criados e condicionados para NÃO PENSAR, APENAS OBEDECER! Desde que entramos na ESCOLA e ainda na FACULDADE! Infelizmente nunca recebemos incentivo para aprender mais do que ensinam e nem para ser criativo. Nossa sociedade ainda ve isso como coisa ruim, como perda de tempo. Nas faculdade por exemplo apenas nos ensinam a pensar no mercado de trabalho e não em CRIAR NOVOS mercados. Desde cedo crescemos com todos nos ensinando a agir como empregados para acabarmos trabalhando para uma empresa e não como visionários para criarmos e desenvolvermos coisas novas! Muito triste isso… ;/ Temos que mudar essa realidade!

Abraços

12° lea ribeiro dos santos de oliveira Data: 18/08/2007 às 6:07 pm

Atividade: culinarista

Cidade: belo horizonte

fiquei realmente imprecionada com este artigo. porque o que se passa para nos e que existe um enventor a data do evento, oano de nascimento e morte.
claro que não é tão simples assim, a gente sabe que alem da genialidade existe persistencia inteligencia,anos de estudos, mas a midia mostra tanta porcaria, umas programaçoes horrorosas na tv,porque nao contar estas historias, que mesmo sendo triste a gente ve que as pessoas correm atras de seus sonhos, infelismente morreu sem o reconhecimento, mas tem o nosso, que eu simolesmente nao sei ficar sem rádio. é o ar que eu respiro. adoro. mas este é o nosso país que infelismente continua não valorizando genios brasileiros, pornografias, seco violencias, deputados, senadores etc.

13° Thyago Data: 15/03/2008 às 4:04 pm

Atividade: Estudante de Telecomunicações

Cidade: Curitiba

Tema muito bom abordado de forma excelente. Mas acho que a pessoa do Padre Landell não deve ser comparada ao diabo, pios foi um ser humano composto de centelha criativa e indagações sobre as ciências física e biológica, estudos estes que buscam explicar os príncípois da natureza que, por sua vez, foi e é criada por Deus, para que os homens possam dela usufruir com moderação.

14° César Monteiro de Barros Data: 05/04/2008 às 10:51 am

Atividade: Professor de Fisica e Matemática

Cidade: Piraju SP

O nosso querido Padre Landell de Moura se tivesse nascido nos USA já teria virado astro de Hollywood. Sua história e vida teriam sido contadas inúmeras vezes pelos priminhos ricos do norte. Mas o coitado nasceu no Brasil, um país de miseráveis, bandidos, prostitutas, ladrões, estelionatários e ignorantes. Mas lá do céu ele vai nos ajudar a mudar essa situação. O Brasil tem tudo pra dar certo. Hoje ao menos realizamos pesquisas, pois em 1897 quando JJT descobriu o elétron, nós brasileiros matávamos o António Conselheiro no nordeste. Na década de 20 foi proposta atribuir o Prêmio Nobel ao brasileiro, médico sanitarista, Carlos Chagas. Dizem que um grupo de brasileiros, por inveja, melaram o prêmio. Muda brasil! Acorda! Nós também somos inteligentes e capazes. Chega de valorizar somente forasteiros. Um abraço!

15° Nathália Aparecida da Silva Data: 13/05/2008 às 3:12 pm

Atividade: estudante

Cidade:

eu achu q vcs e a net inteira estao erradas pq eu entru num site e flam q foi tal q descobriu tal coisa e entro nu outro i flam q foi outra pessoa isso mi prejudica pq eu to fazendo pesqueisa d escola!
melhoren einh!

16° régis Data: 04/07/2008 às 5:27 pm

Atividade:

Cidade:

boa nathalia

17° Anderson Pinheiro Data: 07/07/2009 às 5:49 pm

Atividade: Estudante

Cidade: São Gonçalo

Parabéns, muito bom, acho que vc está fazendo diferença , citanto e relembrando esse genio.
Acho que falta um pouco de patriotismo.

Abraço…..

18° gabriel costa pereira Data: 12/07/2009 às 9:42 pm

Atividade: rádio

Cidade: poa

como foi o iniciamento dorádio.

19° RONALDO BASTOS REIS Data: 16/07/2009 às 10:54 am

Atividade: Pesquisador e radioamador

Cidade: Natal/RN

Olá:

No site abaixo está disponível um abaixo assinado pedindo o reconhecimento do trabalho científico do Padre Landell de Moura.

http://www.mlm.landelldemoura.qsl.br/

Colaborem assinando e divulgando.

Ronaldo Reis

Avisos
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