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O objetivo da internet 2.0 é gerar inteligência coletiva

18 de abril de 2006, 0:00

Web 2.0 sem tecnicismos ou vídeos passando: há um novo papel para os profissionais de rede do futuro. Estamos na passagem do modelo emissor–receptor para o animador–comunidade.

Por Carlos Nepomuceno

No início de março, o jornal O Globo publicou o artigo A vez da Web 2.0, decretando a nova fase da internet.

Diz o artigo:

” O termo, que tem entre seus criadores um outro Tim (O’ Reilly), surgiu em outubro de 2004, após a realização da conferência Web 2.0, em São Francisco, EUA, organizada pelas empresas MediaLive e O’Reilly Media. Durante um brainstorm, nasceu a idéia de inaugurar uma fase da Web que permitisse mais liberdade ao usuário, que deixa de ser passivo e passa a ter, também, a responsabilidade de produzir, “mixar” e classificar o conteúdo. A idéia vingou e, agora, começam a nascer os primeiros sites “colaborativos” em Web 2.0.”

Na verdade, se juntarmos dez defensores do termo, cada um vai apresentar um ponto de vista distinto, de questões conceituais a técnicas.

Mas existe um sentimento no ar, a intuição, de que uma nova fase começa. Projetos e mais projetos, como Wikipedia, Orkut, a construção coletiva do Linux, a consolidação da Amazon…

Para a qual, a sociedade (incluindo empresas) não compreendeu ainda a grande oportunidade.

Dizemos, então, que a web é um novo meio, fortemente voltado para a interação e que para nos aproveitarmos dele precisamos mudar paradigmas, se quisermos tirar proveito do que oferece.

Não é à toa que de todos os lados do planeta os e–atores sentem a necessidade de criar um marco, corte, barreira, decretar o fim de algo e início de outro.

A rede sem maquiagem

A expectativa, então, é de que consigamos superar a primeira etapa no uso das redes, na qual se inclui também as intranets e extranets.

Neste primeiro momento, tentamos desesperadamente, ao longo dos últimos dez anos, encaixar a web no modelo clássico e conhecido de comunicação.

Basicamente, o emissor divulgando informações e tantos outros recebendo, como nos jornais, rádios e televisões.

Este modelo clássico verticalizado, aos poucos, foi dando lugar a um novo ambiente, no qual usuários, desenvolvedores, pesquisadores, empresários perceberam intuitivamente algo de novo no horizonte do monitor.

Enfim, o modelo clássico da comunicação vertical podia ser alterado!

Começaram, assim, experiências em forma de sites, sistemas e negócios, que buscavam potencializar o que de novo existia.

Entre eles:

Os navegadores – que permitiam a leitura de textos de forma anárquica, através de hiperlinks, e não mais na ordem do livro tradicional, página a página;

As listas de discussão e grupos eletrônicos que possibilitaram o primeiro modelo de comunicação colaborativa, sem a figura do emissor único, com troca de mensagens a distância de muitos para muitos;

O correio eletrônico que permitiu a troca de textos, de forma barata e a longa distância para múltiplos destinatários;

Os mensageiros eletrônicos que expandiram o conceito da comunicação virtual para a presença constante e troca de pequenas mensagens entre amigos e colegas de trabalho ao longo do dia.

Assistimos impressionados a evolução permanente de projetos, que foram aos poucos permitindo cada vez mais a participação e a colaboração dos usuários no processo de geração de informação, não mais verticalizada.

Este fenômeno horizontal de troca de informação de usuários com usuários permitiu a criação e difusão quase instantânea e globalizada de novos produtos e a criação de projetos e empresas, nunca antes possível no modelo clássico.

A saber:

O MP3 e todos seus sucessores na área de vídeo que possibilita nova forma de comercialização e troca de bens culturais;

O Linux e o conceito de software livre e gratuito que quebra monopólios e abre a nova forma de distribuição de programas;

A Amazon que plantou a nova idéia de consumo, no qual o usuário faz parte integrante do processo de tomada de decisão por todos os outros;

Na verdade, nessa verdadeira Tsunami informacional e comunicacional moderna, tentamos construir pranchas e novas formas de surfar.

E haja tombo!

Quando falamos agora da web 2.0, na verdade, queremos delimitar a barreira da fase da intuição dos últimos 15 anos para assumir a nova etapa consciente, baseado em novo paradigma:

A internet é um novo meio de comunicação, com forte tendência à interação;

Ou, se quisermos ser mais precisos: a internet é o primeiro meio de interação a distância de muitos para muitos, criado pelo homem, com forte potencial de comunicação horizontal, a critério e a gosto do freguês.

(Entendam sempre internet como sinônimo de ambiente de rede).

Assim, como proposta filosófica devemos passar a limpo experimentos e erros de adaptação do modelo de comunicação clássico para este novo ambiente e avisar aos desavisados: a praia é outra!

Estamos partindo do princípio que os agentes impulsionadores desse processo estarão trabalhando na potencialização máxima do novo ambiente, tendo a colaboração, a interação e a força do coletivo como motor para dar respostas a essa nova sociedade virtual, nesse novo dínamo:

Quanto mais rede, mais rápido. Quanto mais rápido, mais rede.

A inteligência coletiva

Diante desta nova visão, de um novo meio de interação humana, temos e teremos cada vez mais impacto no conhecimento, implicando repensar a sua gestão, organização e recuperação.

E indagamos: que tipo de conhecimento será esse que permitirá ao ser humano acompanhar este novo cenário em eterna mudança na velocidade das comunidades virtuais?

Talvez ninguém da nossa época possa ainda dar resposta precisa, pois os últimos 15 anos demonstraram que a rede vive de revoluções, de saltos e trancos; E não das revisões, passos e carinhos.

A rede é impacto e não planejamento!

E, mais do que tudo, da aderência intuitiva das massas, no que podemos chamar de e-intuição, em direção a cada vez mais querer a comunicação horizontal, como forma de libertação dos modelos clássicos.

Nada pensado: “Vou entrar no Orkut, pois ele é web 2.0”. Mas algo do tipo: “Que legal essa nova forma de se relacionar!”

A história do homem mostra sempre a necessidade umbilical de ir adiante.

É preciso, então, assumirmos nossos papéis de cegos e nossas humildes bengalas para podermos nos posicionar no tiroteio.

Somos hoje contemporâneos de uma revolução similar a de Gutemberg, quando inventou a prensa.

Aqueles muitos que não sabiam que aquele experimento com a intenção explícita de ganhar dinheiro, permitiu a reforma protestante, as revoluções americana, francesa e industrial, apenas com a difusão em larga escala da informação e do conhecimento, através dos livros e depois dos jornais.

Assim, nos cabe trabalhar com a mesma intuição dos elefantes, que subiram nas montanhas mais altas da Indonésia para escapar do maremoto.

Nosso instinto nos diz que precisamos estar inicialmente abertos a:

● Reunir pessoas que já têm experiência e idéias neste campo;

● Novas ferramentas para demonstrar, na prática, o novo conceito;

● E reciclar profissionais para tirá-los da influência do modelo clássico emissor–público para o de público-público, passando para a nova missão: animar e administrar conflitos e encontros. E organizar para rápida recuperação a memória coletiva acumulada.

Esta tese vale para toda todo o planeta, inclusive o brasileiro, que se caracteriza com grande potencial criativo, comunicativo e facilidade de lidar com mudanças, ainda desperdiçado.

Assim, para lidar com este novo meio de interação, devemos imaginar um novo papel para os profissionais de rede do futuro.

O novo modelo é uma nova forma cultural de relacionamento, da qual estamos nos habituando lentamente, com enorme resistência.

Por isto, os projetos que potencializem a web 2.0 não são fáceis, pois vão contra a arraigada cultura que temos de difundir e nos informar e trocar conhecimento no modelo anterior.

Projetos da web 2.0 para gerar inteligência coletiva são, basicamente, de mudanças culturais, utilizando novas ferramentas interativas.

Portanto, como mostra a história, não são todos atores sociais que adotam, querem e necessitam das novidades comunicacionais e informacionais.

Hoje, irão abraçar e levantar a bandeira da interação e do compartilhamento do saber de conhecimento de forma horizontal justamente aqueles que estão oprimidos, impedidos, impotentes diante de determinada realidade que modelos clássicos de comunicação não permitem superá-la.

São estes atores: algumas pessoas, algumas empresas e alguns países que já estão prontos para mudar e precisam apenas da ferramenta. E já a estão usando, aqui e ali.

Assim, quanto mais mudança alguém necessita, mais uma novidade como esta pode ser uma tábua de salvação.

Quanto mais os canais de comunicação e geração de conhecimento clássicos criam barreiras, mais vontade terá de adotar projetos na web 2.0 de Inteligência Coletiva.

Neste balaio pós-moderno, podemos colocar empresas inovadoras, usuários insatisfeitos, países sem espaço no mundo globalizado.

Quanto mais sede de mudança, mais web 2.0. Quanto menos, mais resistência.

Ou seja: quanto mais estável for uma situação de determinado grupo e quanto mais vantagens têm com a geração do conhecimento e comunicação clássica anterior, mais ele tenderá a rejeitar projetos deste tipo.

É o caso da indústria fonográfica, por exemplo.

E ainda: quanto mais um grupo se utiliza do ambiente colaborativo da web, mais ele se distanciará daqueles que não o fazem, valendo esta dinâmica para pessoas, empresas, instituições e países.

Assim, quando falamos em internet ou web 2.0 não podemos nos perder em tecnicismos, ou em imagens piscando, ou vídeos passando.

O que realmente fará a diferença para o ser humano com estas novas ferramentas, metodologias e profissionais será a nossa capacidade de interagir no mundo novo, não mais para ser informado, mais para informar, descobrindo tribos e produzindo com elas e nelas o conhecimento necessário para enfrentar o novo cenário veloz.

Assim, as decisões tomadas, a experiência adquirida e a memória do grupo preservada com rápida recuperação para os que estão e ainda virão − tudo isso, podemos chamar de Inteligência Coletiva, o objetivo principal da nova web 2.0. [Webinsider]

Sobre o autor

Carlos Nepomuceno (nepomuceno@pontonet.com.br) é professor, pesquisador e co-autor do livro Conhecimento em Rede (Editora Campus), coordenador do ICO, Instituto de Inteligência Coletiva e diretor da Pontonet. Mais dele no blog CNepomuceno e no Twitter.

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Comentários

11 pessoas comentaram o artigo "O objetivo da internet 2.0 é gerar inteligência coletiva"

Daniel Mizukosi Data: 05/03/2007 às 7:45 pm

Atividade:

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Agora está surgindo o termo TV 2.0. As aplicações de interatividade não parecem ser as mesmas p/ essa possível TV 2.0.

Luiz Daniel Lima Data: 29/05/2007 às 4:58 pm

Atividade: Engenheiro

Cidade: Florianópolis

Obrigado pelo excelente texto, Carlos. Gostei principalmente da passagem:

“Projetos da web 2.0 para gerar inteligência coletiva são, basicamente, de mudanças culturais, utilizando novas ferramentas interativas.”

Realmente acredito que o caso do Brasil é bastante particular, com um sucesso tão grande do Orkut, mas iniciativas ainda tímidas que lá foram têm sucesso (como o Rec6/Digg).

Paulo Sergio de Oliveira Data: 10/06/2007 às 10:09 pm

Atividade: Artista Plástico

Cidade: sete lagoas-MG

Sem a quebra de paradigmas não existe avanço em nenhuma área do conhecimento humano, contudo o que sempre existiu na história da humanidade foi o fato de que, sempre após a derrubada de algum regime, ou a morte de um rei, fica-se a mercê do novo regime ou do novo rei. Imperando os mesmos interesses econômicos e desejos de poder abosoluto.Governando os poderesos sobre os necessitados.É isto intrínseco da natureza humana?Com a possibilidade da web 2.0 poderemos participar, criticar, nos organizar de forma livre?Qual o verdadeiro interesse por trás de tão boa oferta,qual preço que teremos que pagar?O que o “Grande irmão” deseja de nós agora.

Daniel Data: 26/06/2007 às 3:53 pm

Atividade:

Cidade:

Só nos resta saber quando as empresas no Brasil de conscientizarão disso e abrirão a guarda, largando seus modelos antigos e deixando os usuários participarem.

Phillip Data: 07/09/2007 às 12:39 am

Atividade: Universitário

Cidade: Rio de Janeiro

A internet 2.0 é o inicio de um grande passo da humanidade. Todo indivíduo se desenvolve sozinho ou em grupo. Apartir do momento em que indivíduos em desenvolvimento trocam seus conhecimentos, isso resulta em multiplicação do aprendizado. Costumo dizer que aprender é infinito enquanto se busque. A internet 2.0 é o início desse infinito. Os homens podem trocar entre sí todo tipo de conhecimento e informação útil a qualquer fim desejado, multiplicando seus saberes que, por sua vez, multiplicam o potencial de cada um. Pessoas desenvolvidas são agente do desenvolvimento. E é o desenvolvimento que elimina a pobreza, o analfabetismo, a ignorância e muitíssimas outras mazelas de nosso planeta. Viva o desenvolvimento!

Jose Cristiano de oliveira aguiar Data: 24/12/2007 às 2:41 pm

Atividade: servidor público

Cidade: brasilia

Concordo plenamente com as idéias do articulista. No meu entender, a web 2.0 veio para aumentar ainda mais o ambiente colaborativo entre as pessoas, seja no trabalho, no lazer, no lar ou na escola.

Eduardo Gomes Aragão Data: 16/05/2008 às 8:30 pm

Atividade: Estudante de programação

Cidade: Brasília

Gostei muito do seu texto, embora tenham frases que poderiam ser mais claras para melhor compreensão.

alvim Data: 02/06/2008 às 12:41 pm

Atividade: artista em 3d

Cidade: fortaleza

acho que esse ‘nada’ que foi falado em 500 linhas de texto escrito poderia ter sido dito em apenas um paragrafo com apenas 8 linhas.

Marcelo Data: 05/10/2008 às 10:09 pm

Atividade:

Cidade: RJ

Nunca foi tão fácil ter acesso ao conhecimento, mas nessa nova era, a era do conhecimento, são poucas as pessoas que se importam com o conhecimento propriamente dito. Hoje em dia, basta que funcione, ninguém - leia-se a maioria - se importa com o nome e com tradições. Ironias e críticas a parte, talvez para nós, brasileiros, isso seja uma coisa boa; não respeitamos nossas tradições mesmo.

10° Heber Data: 24/04/2009 às 9:49 pm

Atividade: Diretor de TI

Cidade: Brasilia

Realmente, poderia ser mais sintético.

11° Carlos Firme Data: 11/06/2009 às 3:28 pm

Atividade:

Cidade: Aparecida de Goiânia- Goiás

De fato a internet somente terá o seu papel social, cultural,educacional,científico, etc quando podermos interagir com ela, no sentido de fazermos intervenções, a fim de melhorarmos o que nela já está colocado, e além disso, podermos nos defender do poderio tecnológico/virtual das potências econômicas mundiais, que de certa forma continuam exercendo um tremenda engemonia sobre os países em desenvolvimento.

Avisos
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