FotoRepórter do Estadão: o leitor é o fotógrafo
17 de março de 2006, 0:00Qualquer pessoa pode ser um repórter fotográfico diante da notícia. Faça a foto, ligue para a redação e envie como mensagem MMS. O Grupo O Estado de São Paulo aceita e remunera as publicadas.
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(Com Daniel Reis.) Olhos atentos e o celular na mão. É o que se precisa para ter um momento como fotojornalista. Esse é o objetivo e o resultado de uma iniciativa pioneira no Brasil idealizada pelo grupo O Estado de São Paulo, chamada FotoRepórter. A idéia do projeto foi levada ao jornal em abril do ano pasado e tomou corpo no dia 30 de outubro seguinte.
No início as fotos podiam ser enviadas apenas via e-mail, porém atualmente os repórteres fotográficos de plantão podem usar o número 47900 para mandar sua mensagem multimídia ou MMS (a foto).
Conversamos com Juca Varella, coordenador do projeto e subeditor de fotografia do Estadão. Segundo Varella, a frase: “o fotográfo estava no lugar certo e na hora certa” era muito comum. Hoje qualquer pessoa pode ser o fotógrafo, basta estar no lugar certo e na hora certa e ter algum tipo de câmera ”.
O FotoRepórter também abrange países como Portugal, Itália, Polônia, Egito, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra, França, Espanha e Suíça. Até o momento da entrevista havia 4.136 foto repórteres e cerca de 6.000 fotos em arquivo.
O nome atribuído pela equipe do projeto aos colaboradores é “Foto Cidadãos”, pois atuam como agentes de vigilância focados em assuntos que a grande mídia, na maioria das vezes, não consegue enxergar.
Esta foi a forma encontrada pelo grupo O Estado de São Paulo de buscar a interação entre o jornal e o leitor, fazendo com que, de alguma maneira, o receptor da informação possa participar de sua construção. Quem elaborou a sistemática desse serviço de MMS Integrado foi a empresa Okto, especialista em telecomunicações.
– O que é o FotoRepórter?
Varella – Já existe em outras partes do mundo e com outros nomes (CellJournalist, por exemplo). O ano passado, mais ou menos em abril, essa idéia veio para o Jornal. Foi criada uma comissão multidisciplinar, com departamento jurídico, fotografia, redação. Tudo para tentar formatar essa idéia que já acontece no mundo todo.
Os atentados que aconteceram em Londres o ano passado ainda estavam muito forte na cabeça da gente, quando as fotos dos usuários do metrô circularam nas primeiras páginas dos jornais do mundo. Do New York Times até jornais menores. Daí formatamos esse serviço de interatividade. Chamamos os leitores para participar. Existe um exército muito grande de portadores de celular com câmeras e esses caras conseguem estar em todos os lugares ao mesmo tempo. É impossível uma empresa jornalística ter essa gama de cobertura. Percebemos esse potencial represado e abrimos um canal.
No começo a gente só recebia as fotos por e-mail, agora recebemos foto por celular pelo número 49700. O participante faz a foto e manda. É preciso se cadastrar, entrando pelo site.
– Uma equipe cuida da escolha das fotos. Como funciona?
– Tem uma página desenvolvida pela Okto - antiga Tiaxia do Brasil -, ela disponibiliza para gente todo o material que está entrando. Todas as fotos são apresentadas numa tela de edição com os respectivos textos, informações. Então, essa equipe faz a triagem e coloca à disposição das editorias dentro do jornal. Elas são aproveitadas ou no portal, ou no jornal O Estado de São Paulo ou no Jornal da Tarde (JT). Sendo que nesses dois últimos, quando publicado, existe uma remuneração.
Tem gente que abraçou de uma tal forma o Foto Repórter que começou ir para a rua para tirar foto. Temos aposentados; em Brasília temos vários. Choveu o cara vai para rua, pois vai ter árvore caída.
– Como você enxerga esse poder ao qual as pessoas têm acesso?
– O FotoRepórter é um canal para isso. É uma maneira do cidadão denunciar um buraco numa rua que nenhuma TV ou jornal vai lá verificar. Por exemplo, um cara que costuma estacionar o seu caminhão toda hora do rush naquela esquina. E por aí afora.
Um foto repórter no Rio de Janeiro fotografou uma praça completamente abandonada, onde ainda restava uma plaquinha dizendo: “A empresa tal cuida dessa praça”. Ele fez a foto, publicou e no dia seguinte a empresa tirou a placa. Não sei se mudou, mas mexeu com algum setor que até então estava inerte.
– E quem faz o texto da legenda?
– Gente da nossa equipe com as informações que o foto repórter fornece. Quando a foto vai ser publicada no jornal, fazemos uma ligação para checar e afinar as informações da legenda. Muitas vezes o foto repórter já está bem sintonizado com o projeto e já manda uma legenda enxuta e cheia de informação.
– Tecnicamente como essa foto deve ser? Um mínimo?
– Não tem um mínimo, não. Fotos feitas por celulares com uma resolução pequena, não vão ser publicadas no jornal em mais do que duas colunas. Mas o projeto privilegia mais o conteúdo do que a qualidade de resolução. Então, uma foto feita com celular é perfeitamente publicável.
– Lá fora existem algumas iniciativas que são bem malucas. Como uma chamada SpyMedia, que trabalha com a invasão de privacidade. Isso deve ter um limite?
– Tem sim. Não é a nossa proposta. Mas eu acho que isso depende do segmento. Eu não vou dizer o que é válido ou não. Há público para isso e há quem produz isso. O nosso caso é conteúdo jornalístico mesmo e cotidiano. Hard news.
– Como foi a resposta do público?
– Foi muito boa. No segundo dia foram enviadas mais de 300 fotos. Só que ainda o foto repórter não conhecia a cara do projeto. Nós recebíamos muitas fotos assim… tinha uma que era muito engraçada: uma menina linda, bem vestidinha no berço e com o texto: “Não sei se vai servir para vocês, mas que é linda, é”. Outro mandou foto de abelha, de cachorro brincando com bola. Fotos legais, mas que não faziam parte do nosso escopo.
– Mas que faz parte desse novo jeito de ser das pessoas. De ter fotolog, de compartilhar.
– Sim. Se quiser mandar serão bem-vindas, mas se não tiverem valor jornalístico não serão publicadas. E rapidamente o foto repórter percebeu isso. Até as pessoas que mandavam fotos do cachorrinho, do sítio e do fim de semana na praia começaram a ter outra abordagem dentro desses mesmos cenários. O cara, quando ia para o sítio dele, começou a fotografar uma cena inusitada, por exemplo, um animal. Ou na praia, ele não fazia mais o filho jogando bola, mas o trânsito na estrada. E começamos a publicar.
– Você acha que a foto digital vai substituir a convencional?
– Em alguns segmentos já substituiu, mas não vai acabar. É como o cinema, ele era informação, cultura e entretenimento. Com a chegada da televisão quase foi decretado o seu fim. Mas o cinema ocupou o lugar dele. A fotografia com filme e mesmo a preto e branco ocuparão sempre um lugar.
– Vocês já receberam alguma foto que precisou ser censurada?
– Pornografia, quase nada. A gente imaginou que fosse chover fotos deste tipo, mas não aconteceu por conta de um cadastro. Há muita foto de acidente, mas aquela violência gratuita não dá.
Há também pessoas que querem utilizar o serviço para promover o seu político predileto. Chegou um tempo atrás a foto de um prefeito inaugurando um posto de saúde e o foto repórter dizia assim: “Veja a simplicidade desse homem”. Então, lá não é um espaço para isso.
Agora, nós temos foto repórter dentro do congresso, em Brasília. Teve gente que fotografou o José Dirceu no dia em que ele foi cassado. É factual, aquilo foi notícia.
– Vocês são agregadores de notícias, ou seja, as pessoas são co-partícipes do jornal de alguma forma.
– Na Ásia, de onde vem essa idéia, há jornais inteiramente feitos com a participação dos próprios leitores (veja ao lado o caso do OhMyNews). Os leitores fazem o jornal. Uma equipe de editores e técnicos montam o jornal, mas ele é produzido pelos próprios consumidores desse jornal. E aqui no Brasil isso é pioneiro. Não existe no jornalismo impresso um canal de duas mãos com o leitor. Não precisa ser leitor do Estadão ou assinante para participar do Foto Repórter, qualquer pessoa interessada é só entrar no site se cadastrar e começar a trabalhar com a gente.
– No fundo o conceito é como o do voto distrital, ou seja, você participa e acompanha o que acontece na sua comunidade. Você não é passivo.
– Exatamente. Você atua no seu meio social também – brigando contra uma poda ilegal de árvore ou pelo bueiro que está entupido por muito tempo. Você está no contexto do seu local de trabalho, de onde mora. Esse é um canal para você se expressar.
– Vocês fizeram trabalho de divulgação?
– Na verdade não. Isso não foi nem necessário. Houve um trabalho de marketing com uma divulgação em revistas e nos meios que o próprio Estado tem.
– Que conselho você dá para quem está começando e quer virar jornalista, repórter?
– A pessoa tem procurar se integrar a esse momento, inteirar-se da possibilidades que a internet e todos esse novos meios oferecem. Procurar se inserir. Essa mudança está ocorrendo de uma forma muito rápida. A pessoa deve estar sempre ligada e tentar de alguma forma acompanhar isso. No caso específico do Foto Repórter, a primeira coisa é entrar no site e participar. Se você não tem um telefone celular com câmera, você deve ter uma câmera digital.
– E se tiver uma câmera antiga é só escanear.
– Sim, já recebemos foto escaneada. [Webinsider]



1° majo pinheiro Data: 10/08/2006 às 11:23 pm
Atividade: producao musical
Cidade: Sao Paulo
Incrivel a iniciativa pois alem de aproximar o jornal do leitor, promove as pessoas um olhar atento a sua cidade que é sua casa.
Eu entendo que todo cidadao participante de sua foto fica super instimulado a contar sobre sua foto pelo menos pra 3 pessoas .
Lindo o jornal vai bombar,parabens.