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Quem mexeu no meu texto? O dono dele.

16 de novembro de 2005, 0:00

O redator publicitário não é dono do texto que escreve, mas deve saber defendê–lo dos pitacos do cliente, que nem sempre tem razão. Defesa com embasamento tem mais credibilidade.

Por Adriana Baggio

Você imagina que H. G. Wells, autor do clássico A guerra dos mundos, possa ter tido preocupações mesquinhas como pessoas mexendo em seus escritos? Difícil, mas provável. Foi ele quem disse que “nenhuma paixão no mundo é comparável à paixão por alterar os textos de outra pessoa”. Até parece que ele era publicitário e estava fazendo piada sobre o cliente durante um happy hour com o pessoal da agência.

Esse vício incontrolável por mexer no texto alheio faz parte das características básicas da maior parte dos clientes. Eles não resistem a tirar ou colocar um adjetivo; trocar por um sinônimo pobre a palavra perfeita que você demorou horas procurando; inserir um clichê no texto que você lapidou com todo o cuidado.

Peraí: texto alheio? Mas o texto é do cliente!

Bem, a gente até entende que Wells tenha se sentido ofendido quando algum editor quis mexer em suas histórias. Afinal, a obra de um escritor é autoral, a razão dela se encerra no próprio texto. Diferente de um anúncio publicitário, onde o texto é parte de um todo, e a razão desse todo não está em si mesmo, mas nos objetivos pré–determinados que deve ajudar a alcançar.

Por mais que o seu nome, redator, esteja nos melhores anuários de criação, a grande maioria dos leitores do texto que você escreveu para um anúncio nunca vai saber que o autor daquela brilhante sacada é você. Sua assinatura não vai aparecer. No máximo, a assinatura da agência. Mas o grande “autor” daquele texto é o anunciante. É quase como se o redator fosse um ghost writer. O cliente paga para você escrever o que ele vai dizer ao consumidor.

Essa é a realidade, às vezes meio dura de engolir. Os redatores publicitários têm uma relação umbilical com seus textos. Normalmente, porque são apaixonados pelo que fazem. Algumas vezes, porque o ego se materializa na escrita. Não importa o motivo dessa relação. Qualquer pitaco de cliente na cria dos redatores dói como ataque à integridade de um rebento.

É preciso reconhecer que, algumas vezes, o cliente tem razão. Em outras, porém, os pitacos podem parecer pura implicância ou um desejo irresistível de dar o toquezinho dele no texto. Quando esses palpites não agregam nada e até prejudicam a peça, é preciso tentar contê–los. Essa é uma tarefa do atendimento no momento da apresentação, mas também do redator ao embasar e defender sua criação.

O cliente precisa confiar nos criativos que trabalham para a sua conta. E confiança se conquista com embasamento técnico, quando a gente mostra que sabe o que está fazendo. O perfil do criativo pirado, viajandão, que defende qualquer idéia com expressões como “é uma grande sacada, você não tá vendo?”, está em extinção. É preciso compreender o negócio do cliente, ter noções de marketing e, principalmente, entender tudo da matéria–prima das suas criações: a língua.

Bons redatores sabem que se aprende a escrever lendo. Lendo de tudo, de bula de remédio a tratados filosóficos. É nas leituras que nada têm a ver com publicidade que aparecem as técnicas que utilizamos no texto publicitário. A sacadinha genial que você colocou no anúncio provavelmente tem nome, sobrenome e história de família – na literatura, na poética, na semiótica. Conhecer essa “genealogia” das técnicas de redação publicitária faz toda a diferença na hora de elaborar – e defender – um texto.

A defesa criativa com embasamento é sólida e tem muito mais credibilidade. Prova que você sabe do que está falando, que não se trata apenas de uma piração de criativo. Por exemplo: quando se defende um título explicando que foi usada uma metonímia e que essa figura de retórica é ideal naquele caso, porque mostra da melhor maneira o todo através de uma de suas partes (e um anúncio normalmente não tem espaço para apresentar o todo, só partes), entende–se que o criativo tem o conhecimento e a técnica necessários para realizar seu trabalho.

Mas a gente sabe que, na prática, a teoria é outra. Em alguns casos, mesmo que você tenha o mais sólido dos argumentos, seu texto vai ser impiedosamente detonado. Nesta situação, relaxe e faça como os budistas: exercite o desapego.[Webinsider]


Sobre o autor

Adriana Baggio (adritulio@hotmail.com) é redatora da RMG Connect e diretora cultural do CCPR.

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Comentários

2 pessoas comentaram o artigo "Quem mexeu no meu texto? O dono dele."

Graça Vieira Data: 02/08/2006 às 12:32 pm

Atividade: professora

Cidade: salvador

Adriana,
Parei em alguns momentos para pensar até onde vai a interferência do cliente em um texto publicitário. O seu artigo me respondeu muito bem essa questão. Também deparo-me com problema semelhante quando faço preparação e revisão de textos para serem impressos. A interrelação entre domínio autoral, técnica na utilização da linguagem, objetivo do discurso e abertura para um diálogo construtivo são ingredientes indispensáveis. E, como vc bem disse, é uma boa oportunidade para o exercício da quebra da vaidade egóica.
Abraço
Gal Vieira

ÁGATHA Data: 24/10/2008 às 1:17 pm

Atividade: Publicitária

Cidade: São Paulo

O texto aborda alguns fatores importantes da vida de um redator publicitário. Pirar por pirar não rola, se a “sacada é genial”, têm - se que fazer jus dela, afinal, qdo alguém questiona ou dá pitaco no seu texto, argumentos vc tem que possuir para rebater o ataque; mas se a pessoa tem razão, vale utilizar-se tão somente da humildade e assim, colocar na balança os pós e os contras daqula suposta alteraçaõ.Vale a pena deixar o ego de lado!!!Vc ganha não só o cliente como aquele velho e indispensável traquejo!!!

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