Quando analista e criativo são a mesma pessoa
22 de setembro de 2004, 0:00Uma divertida visão sobre a criatividade do analista de sistemas: o trabalho de desenvolvimento e criação é idealmente feito em equipe. Mas quando cai na mão de uma pessoa só... surge o anartista!
Por
Arte lembra sensibilidade, a explosão do ser, o impacto visual, a ascensão: o artista a personifica.
Prática sugere a lógica, o raciocínio dirigido, o sentido, a otimização, a base sólida: este é o analista (entendemos “de sistemas”).
Artista é o cineasta que coloca um enorme banco de dados em um único disquete (sempre azul ou vermelho) e a bandidada, durante o filme todo, persegue o mocinho e a mocinha para recuperá–lo. O disquete resiste a tudo, lutas, mergulhos, tiros, incêndios.
O analista, no mínimo, vislumbra a possibilidade de o mocinho ter feito umas dez cópias becape antes de expor o original a todas essas vicissitudes.
Então, se o cineasta fosse um analista, o filme perderia a graça, mas a situação não seria tão aflitiva nem frágil.
Os primeiros programas em computador eram assim secos porque interagiam laconicamente: ‘Data:’ e você digitava 030582 (3 de maio de 1982) – caso houvesse erro ouvia–se um plim irritado.
Com os recursos de vídeo, mais memória, mais velocidade etc., os analistas, mentores e criadores de aplicativos, passaram a incrementar os seus programas com um pouco mais de calor humano: Queira por favor redigitar a data … porque um ano tem no máximo 12 meses, sua besta!.
Prosseguindo, veio um pouco de arte: aparece desenhado um calendário no qual podemos escolher a data na folhinha, sem erros. E tem artista que ainda coloca as fases da lua, efemérides, horóscopo, ciclo menstrual …
Assim, aquela figura do analista de sistemas radical, insensível e direto deixou algum espaço para o cineasta latente em todos nós: queremos o sucesso na tela de apresentação, queremos a emoção, o colorido, queremos a platéia “babando” com efeitos especiais.
Principalmente nos sistemas web: se estamos agenciando por aí, oferecendo páginas para deleitar e atrair internautas, por que não extravasar o nosso lado artístico?
Modernamente, um sistema envolve um corpo de especialistas o projetista, o roteirista, o artista, o cenarista, o interativista, o documentarista porque, no fundo, todos têm o seu lado de analista.
Mesmo assim, coordenar esse conjunto de profissionais em torno de uma obra não é muito fácil: há que se apararem alguns arroubos pipocantes contudo sem lhes tolher a criatividade.
Mas, numa freqüência considerável, o que encontramos é um cara sozinho para exercer todas essas funções de uma só vez: é o que podemos chamar de anartista.
Ser anartista não é muito difícil para a mente privilegiada do brasileiro ele cria, pinta, borda, engatilha e dispara. Por exemplo, com a obrigação de transformar um monótono sistema de contabilidade num emocionante Ajuste de Contas, com direito a simulações, playback, deve–haver, romaneios e devaneios, por aí.
Só que, com o crescente número de pessoas que cada vez mais se assomam no campo de desenvolvimento de aplicativos, vemos, não raro, alguns valores analíticos sendo um tanto quanto negligenciados.
Acho que tem faltado um pouco de senso operacional coisas simples.
Como, por exemplo, uma lista (combo) de estados do Brasil, que aparece muitas vezes em ordem alfabética e obriga a maioria dos usuários a abrir no Acre e buscar uma clicada lá no finalzinho da lista (São Paulo, Rio de Janeiro etc.).
Por menor que seja o tempo despendido, o usuário entediado começa a formar uma negra nuvenzinha de resistência que pode degenerar em impaciente abandono. Uma lista daquele tipo deveria estar em ordem de tendência freqüentativa, com o maior volume em primeiro lugar.
Nada, por favor, contra os patrícios acreanos, amapaenses. É claro que, se estamos cadastrando seringueiros, o primeiro estado deveria ser o Acre, mas na maioria dos assuntos essa lista deveria ser encabeçada pelos maiores centros populacionais.
Popups, senhas e outros elementos institucionais deveriam aparecer somente depois que o usuário já se familiarizou e simpatizou com o site. Grande parte das páginas não dão um tempinho sequer.
Imaginar que todos os que navegam na grande rede possuem banda larga (geralmente onde são testados os sistemas). A maioria usa ainda internet discada, obtendo conexões entre 30 a 50 Kcps (falam em 80%).
Se eu, internauta, procuro, por exemplo, o assunto Martelo, você, designer, tem de me dizer primeiro: Eis os martelos que eu tenho, são os melhores ou Eu ensino como usar um martelo.
A partir do momento em que eu me detive em sua página por alguns 15 segundos de interesse, fica bom você trabalhar no sentido de me prender um pouco mais: qualidade do produto, idéia de custo, como funciona isso tudo numa seqüência rápida de páginas bem navegadas.
Neste avanço é que há lugar para propagandas, diversificações, conceitos, doutrinas, culminando por informar quem foi o avô do fundador da empresa.
Na hora de um cadastramento, esse deve ser feito de forma mais rápida possível (há uma série de técnicas que atendem muito bem a esse quesito).
De que eu, usuário, não gosto especialmente na característica obra dos anartistas:
páginas que demoram um tempão para apresentar um carnavalesco logotipo e depois clique aqui para entrar no mais perfeito estilo site pornô.
popups que confundem e prendem memória, algums dando erro de Java.
objetos enganadores, como falsos botões para cancelar, fechar quando você clica ele aciona outra página não solicitada.
backgrounds complicados, faraônicos, confusos, de cores vagarosas.
formulários longos para preencher online cadastros, currículos, compras em supermercados (encher um carrinho sai assim muito caro).
senhas injustificadas, só porque o sistema do outro lado necessita de uma primary key composta.
Em suma, para que paga a conta de telefone, é questionável obrigar um consumidor a pagar pelo tempo despendido com um oba–oba sem fim. Mas nem tudo é assim tão depreciativo!
Há casos em que o anartista tem de ser político e tentar conciliar recomendações técnicas com anseios, romaneios e devaneios do seu cliente, aquele que o contratou!
Ou ainda contrariar tudo aquilo que eu disse não gostar como internauta porque a natureza do tema se destina a outro tipo de consumidor.
E tenho visto, nesse sentido, alguns trabalhos que exuberam técnica, arte, praticidade, eficiência, ética, segurança, e muitas coisas bem feitas por parte dos nossos profissionais de web.
Como não posso enumerá–los, de tantos que são, vai aqui um voto de louvor aos sites e sistemas web do Governo, em geral. Muito bem elaborados, já servem de modelo para outros países que, tradicionalmente, se encontrariam na vanguarda.
Assim é o Brasil, esse berço esplêndido onde os que nele nascem são quase todos técnicos de futebol e … anartistas. [Webinsider]

