Comunidades à brasileira
11 de setembro de 2003, 0:00Nem sempre o que funciona lá, funciona aqui.
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E não me venham com essa história de que no Brasil é diferente. Lá fora funciona assim, no mundo inteiro deu certo, no México está indo bem, então aqui vai ser assim e pronto.
Não reproduzi o sotaque, mas espero ter traduzido a arrogância, a miopia mental, a truculência da posição desse cliente, na época à frente de uma mega empresa estrangeira vindo para o Brasil. Tive sorte de não atendê–lo por mais tempo, e logo vi essa convicção toda ir por terra à medida que a empresa tropeçava nos próprios pés.
A grande decepção, porém, foi perceber nestes últimos anos que nós mesmos, brasileiros, tão orgulhosos da nossa criatividade e singularidade e adaptabilidade, caímos nessa mesma armadilha do funciona lá, então funciona aqui. Basta surgir um discurso novo lá fora para que saiamos repetindo como papagaios o que veio pronto.
Quando o assunto é tecnologia ainda vai, afinal máquinas são máquinas, e com um bom ar–condicionado elas nem percebem que estão nos trópicos. O bicho pega quando o assunto envolve pessoas a nível de gente enquanto seres humanos.
Quem mexe com internet mexe inevitavelmente tanto com tecnologia como com gente, sobretudo se isso envolve as ditas ferramentas sociais e plataformas de comunidade. Fica muito difícil separar o que é técnico daquilo que é humano, e aí mora um perigo que me preocupa.
Ferramentas sociais como grupos, chats, fóruns, existem aos montes, e estão cada vez mais maduras e robustas. Na maior parte das vezes você não precisa inventar a roda, basta adotar uma e customizá–la. Vai funcionar? Não. Adianta ler o manual, referências, artigos, debates? Talvez não.
Por que não? Por que ferramentas que funcionam lá fora podem engasgar aqui?
Pra ilustrar: numa história em quadrinhos, o viking Hagar, o Terrível, volta pra casa depois de saquear Roma. Traz de presente pra mulher uma surpresa: uma torneira. Para demonstrar a maravilha, Hagar abre a torneira. Ué, em Roma saía água, diz ele encafifado.
É isso aí. Importar a torneira não faz com que tenhamos água. E se descobrirmos como fazer a água sair, nossa água não é tão potável nem fluorada como a água dos gringos.
Voltemos ao nosso métier. Brasileiros têm um comportamento social completamente diferente dos americanos. E dos japoneses. E dos alemães. Traga para cá um ambiente colaborativo criado na… Inglaterra (ou Índia, ou China), super bem–sucedido, e veja o que acontece quando brasileiros entrarem nele.
Entre brasileiros a informalidade, a aversão a regras, a aversão a líderes, o gosto pelo off–topic, a malícia podem virar um ambiente desses do avesso.
Esperar que comunidades tenham o mesmo padrão de crescimento e expansão, esperar que sigam um funcionamento conhecido é de uma ingenuidade inadmissível, ainda mais num povo que se orgulha de não ser ingênuo. E esse não é um problema exclusivo do nosso métier: isso tem a ver com choques culturais, diferenças regionais, globalização, etc.
Existiria um manual para que comunidades funcionem, alguma fórmula mágica, uma panacéia universal? Não há não. Tudo o que envolve pessoas e sobretudo pessoas interagindo com pessoas merece uma atenção e um cuidado tão atentos, tão específicos, tão constantes que fica difícil criar uma solução que funcione em todos os lugares da mesma maneira. Cada caso, cada casa, cada acaso é um caso.
É como imaginar que cidades planejadas vão ser mais habitáveis do que cidades espontâneas. Vá para Brasília e veja as pessoas dando nós no sonho original do Lúcio Costa.
Na aritmética humana, o denominador comum é um e o problema é definir os máximos múltiplos. A partir de que número vale a teoria do caos?
Dentre os inúmeros livros que amei mas nunca li está um do nosso ex–presidente Fernando Henrique Cardoso, que se chamaria (não sei ao certo) A Originalidade da Cópia. Segundo ele, mesmo quando copiamos algo estrangeiro introduzimos sem perceber ingredientes locais, e o resultado é imprevisível.
Exemplo: tentamos copiar a democracia representativa mas a infectamos com coronelismo e clientelismo. Isso é ruim. Tentamos copiar o jazz e fizemos o chorinho (bola dentro). Tentamos copiar a divisão de poderes e acabamos criando castas no funcionalismo.
Ser brasileiro é uma benção, um privilégio, mas como já disse alguém (quem foi?) Brasil não é coisa para amador, é pra profissional. Copiar não vale. [Webinsider]

