A incrível arte de produzir salários
31 de julho de 2003, 0:00O que acontece no lado de lá (ou de cá) para aquele dinheirinho pingar magicamente todo final de mês na nossa conta?
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Desde pequeno, a gente é sempre ensinado a funcionar dentro de um mesmo padrão. Estude, se supere, tire seus diplomas e sua recompensa virá. Algum grande pai irá te pinçar no meio da multidão. Te dará um cargo, uma cadeira, uma função e um salário pingará magicamente na sua conta corrente a cada fim de mês. E a vida será simples.
Com o dinheiro, você compra uma casa, seu carro, tem seus filhos e pronto. Tudo isso em recompensa à sua maravilhosa performance acadêmica, puro reconhecimento pelo seu esforço. Uma perfeita meritocracia.
Já ouvi dizer que isso um dia funcionou. Em alguma época não muito distante do nosso tempo. A escola preparava a sociedade para alimentar as posições das empresas criadas pelos…
Perai. Se a gente entra na escola, estuda e um dia alguém dá um emprego pra gente, quem é que dá o emprego pra quem deu o emprego pra gente? A pergunta é quase aquela do se Deus criou tudo, quem criou Deus?
Complicado né?
Seria curioso não perceber o quanto isso tem impacto no mundo em que a gente vive hoje: um lugar praticamente tomado por gente que foi treinada pra procurar emprego, mas não pra criar empregos. Um mundo onde sobra gente procurando e falta gente fazendo, inventando, criando, fora da formato tradicional que nos ensinaram na escola. Porque na escola a gente aprende montes sobre trigonometria, biologia, afluentes do rio Amazonas, mas não tem uma aula sequer sobre como montar uma empresa, se posicionar no mercado, administração, nada.
Encarando a realidade de hoje vemos: não tem emprego. E o que é pior, não dá nem pra botar a culpa na crise. Porque com crise ou sem crise, o modelo de funcionamento do mundo está mudando. Os sistemas se automatizando, a tecnologia permitindo o trabalho descentralizado, relacionamentos à distância, tudo modular. E o pior, tem muito mais gente procurando do que inventando emprego.
Cada vez mais, cada um precisa ser dono do seu próprio emprego, inventar o seu próprio negócio, encontrar o seu único caminho, compreender sua função na cadeia de serviços e fazer com que os outros percebam a sua relevância no sistema.
Quase sem perceber e mesmo sem querer, me vi de volta na posição de praticar a incrível arte de produzir salários. Transformar os dias de prospecção, negociação, orçamentos, atendimento, posicionamento, planejamento, produção e cobrança em um fluxo constante e (se Deus quiser) ininterrupto de salários depositados todo final de mês, nas contas da turma que ajuda a fazer o negócio acontecer.
Fazer isso simplesmente, sem deixar transparecer pra todos, o que é que realmente acontece do lado de cá, seria repetir o erro que nos ensinam na escola: de acreditar que o salário é mágico e parte de uma recompensa pela nossa excelência.
É fundamental que a gente tenha nosso dindim ali depositado magicamente no final do mês, principalmente enquanto estamos crescendo profissionalmente e ganhando bagagem. Mas é imprescindível compreender que não há mágica, não há recompensa, não há pai. Somos todos parte integrante de um sistema que precisa funcionar.
E acima de tudo, precisamos entender como é que funciona esse sistema pra gente saber se posicionar e quem sabe, aumentar a turma dos magos produtores de salário, diminuindo a fila da procura e ajudando a empregar e ensinar a turma nova que vem por ai.
Complicado, né? [Webinsider]


1° Vinicius Madureira Data: 09/10/2006 às 5:42 pm
Atividade: Web Designer
Cidade: Rio de Janeiro
Concordo com gênero, número e grau. No Brasil, dificilmente se ensina a pescar. O peixe é dado na boca do brasileiro, que se acostuma e pedi-lo. O espírito empreendedor é uma virtude de poucos.