Webinsider

Negócios

Publicitários, apertem os cintos. A grana sumiu.

12 de junho de 2003, 0:00

Uma criatividade lúcida tenta driblar a "varejização" exagerada dos comerciais, na busca de conceitos que sobrevivam a produções mais modestas, que vendam e ajudem o país a pisar no acelerador da economia.

Por Nenhum

Eduardo Zugaib

O tempo em que campanhas milionárias projetavam ídolos criativos na propaganda parece ter ficado pra trás. Finda a farra–do–boi dos anos 90, parece que o mercado se vê agora de forma mais modesta, mais parecida com outros mercados cujo produto seja a prestação de serviços.

No Brasil do ano 2000 o que se vê é o enxugamento quase que total das verbas gigantes, patrocinadoras de uma luxúria criativa cara que imperou há alguns anos. E que por sua vez também patrocinou a luxúria cara de muitos criativos. O mundo mudou, o Brasil mudou.

Hoje, grandes medalhões da propaganda se vêem frente a uma sensação esquecida, escrita em um pedaço de guardanapo socado no bolso de algum terno Armani, Coleção Inverno 92. Humildade é nome dela. Redescoberta talvez só agora, em pleno 2003, quando percebeu–se que não haveria grana para comprar um terno do ano. Seria preciso tirar o velhinho do guarda–roupa, espantar o cheiro da naftalina e colocá–lo em uso novamente.

A grana sumiu. Junto com ela, presumo que um pouco da arrogância. Um resumo rápido da lógica atual do mercado publicitário dá conta que, a cada seis meses, duas empresas fundem–se e tornam–se uma, encurtando ainda mais o budget. Nos mesmos seis meses uma dupla, ou um trio, sai de uma agência e lança a sua marca própria no mercado. Há cada vez menos bolo para cada vez mais bocas.

A falta de grana reflete também na postura atual de muitos dos poucos clientes que ainda investem algum valor em propaganda. Interferem cada vez mais nas cada vez menos ações, numa luta desesperada para recuperar o tempo perdido. Idéias gratuitas, piadas e frases de pára–choque coladas em seus logotipos já não fazem mais a cabeça das empresas que sobreviveram à vaporização econômica interna e externa. Um grande sinalizador disso, pelo menos para quem trabalha em propaganda, foi o número de peças brasileiras inscritas em Cannes este ano, que apresentaram uma queda de 40%, devidamente acompanhada da queda no teor criativo.

Algumas exceções memoráveis à parte – e devidamente pré–selecionadas pelo júri do Cannes Predictions – a maioria das peças mostrou que enfim a criatividade de muitos encontrou o espelho da falta de verba. E mirando–se nele, percebeu–se nuazinha em pêlo. Talvez isso seja um bom sinal, o da lucidez, quase sempre ofuscada pelo brilho de superproduções caríssimas e pela mídia abundante, em níveis pavlovianos, capaz de transformar qualquer idéia na mais lembrada.

Chegou enfim a hora da verdade para a propaganda brasileira. A hora de provar para si mesma, para o público que dela fez entretenimento e para os clientes que dela esperam resultados, que é possível sim ser criativa no decorrer de uma das maiores crises de nossa história. A hora de tentar driblar a “varejização” exagerada dos comerciais, na busca de conceitos criativos novos e ousados, que construam e fortaleçam as marcas às quais estão colados. Conceitos que sobrevivam a produções mais modestas, que vendam e ajudem o país a pisar mais demoradamente no acelerador da economia.

Uma era de criatividade lúcida parece tomar forma na nossa propaganda, onde a objetividade dará a tônica. E impulsionada mais pela luta de sobrevivência dela própria do que ao lustro na vaidade. Este misto de criatividade e lucidez já faz parte da rotina de pelos menos uns 160 milhões de brasileiros. Uma habilidade que só quem já nasce com a água batendo na bunda domina com maestria. [Webinsider]

Sobre o autor

Apoio:

  • LayerDev Serviços de Webhosting Profissional

Palavras-chave relacionadas a este texto: Sem Categoria

Comentários

Ninguém comentou o artigo "Publicitários, apertem os cintos. A grana sumiu."

Avisos
Os ítens com asterisco ( * ) são campos de preenchimento obrigatório.
Todos os links inseridos nos comentários possuem o atributo rel="nofollow" para impedir com que user agents (como os mecanismos de busca) sigam os links inseridos para desestimular spammers.
Todos devem se identificar através de e-mail válido.
Os e-mails dos usuários não serão divulgados no site.
Comentários:

Preencha os dados abaixo e clique em enviar

Outrolado.com.br

Leia

Ana Clara Cenamo

Escutar é diferente de ouvirO desejo do cliente. Por Ana Clara Cenamo

Para encolher a indústria do pênis pequenoTodo mundo sabe que o spam está estragando o maior canal de comunicação da internet. É mais do que hora de nossas autoridades criarem legislação que dê respaldo jurídico para o fim deste abuso.

Entrevista: Nick Usborne, autor e webwriterConversamos com o autor de Net Words, um dos mais importantes livros sobre redação. Aqui ele fala sobre o conteúdo e o escritor comercial, aquele que tem habilidade e vontade para efetuar a venda.

Marcello Póvoa

A era pós pontocomO amadurecimento do mercado aponta para novas oportunidades. Por Marcello Póvoa

Para entender o conceito de copyleftOpinião: um dos pontos positivos é a capacidade de formar comunidades em torno dos mais diversos temas. O conhecimento é compartilhado e a remuneração para o autor vem indiretamente. Tudo a ver com a internet. Por Rafael Wally

Coisas a fazer quando se está desempregado(Aliás, não diga desempregado, mas “em busca de novos desafios”.) Falando sério, procure exercitar a mente e o corpo. Você se acalmará, terá bons momentos com a família e os amigos e enxergará mais longe.

Como ler e interpretar estatísticas de acessoWorkshop já realizado, com grande sucesso! Aguarde os próximos…

Por uma nova ética na publicidade onlineAs ofertas para atrair anunciantes ao mundo virtual, quase sempre deixando de lado preceitos éticos básicos, como o direito à privacidade e à liberdade de escolha, caducaram. A terra de ninguém não existe mais.

Webinsider