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Criação - Planejamento

Ana Clara Cenamo
Atendimento

Escutar é diferente de ouvir

10 de junho de 2003, 0:00

O desejo do cliente.

Por Ana Clara Cenamo

Há mais ou menos um mês escrevi aqui pela primeira vez e desde então tenho conversado muito com o Michel, o Lent, e o Vicente, o Tardin, sobre escrever uma coluna que fale de Atendimento.

Minha história na publicidade é pouco convencional, pois venho de uma formação em Humanas, Geografia e Psicologia. Depois de ter atuado uns nove anos em consultório de psicanálise, descobri a comunicação trabalhando em projetos para internet desde 1995, gerenciando projetos de conteúdo e depois fazendo atendimento.

Esta experiência faz toda a diferença, pois a formação “híbrida” deu um samba bem interessante, que é a junção da experiência de atendimento e teoria psicanalítica com a prática cotidiana de atendimento publicitário.

E por aí podemos explorar esta coluna: falando de cases, histórias, pegando alguns conceitos fundamentais de psicanálise, dando dicas de situações de atendimento, trazendo entrevistas com criativos, discutindo a questão do briefing, falando com outros atendimentos, equipes, enfim…

Atendimento. Atendimento, aquele que se tornou famoso pelo “leva e traz”, tudo: pastinha, proposta, pastonas de layouts, o dindim ou a falta dele, boas notícias e más notícias… Atendimento de MKT, de agência publicitária, de contas de Interne, como diz uma grande amiga minha que é Atendimento na DPTO.

Para ser um Atendimento não basta ter o diploma de comunicação, propaganda etc., vestir o uniforme de publicitário de manhã (todas as profissões têm seus uniformes, já repararam?), arrumar um emprego em uma boa agência e receber o job description do atendimento.

O começo é ir a uma reunião após a outra acompanhando o chefe até que um dia te jogam na fogueira e dizem: – agora vai sozinha! Liga lá, pede o material, vai pegar o briefing, traz a estimativa assinada, leva o plano de mídia, faz a apresentação em ppt!!!

Parem o carro que eu quero descer!

Alguns atendimentos têm o dom e saem–se relativamente bem desta história… Mas muitos outros não têm e ficam soltos, perdidos e por serem completamente destreinados acabam contribuindo terrivelmente para a má imagem que o mercado faz de nós: Atendimento Burro, leva e traz.

E os atendimentos morrem ou vivem, sobrevivem assim, no contrapé do susto daquilo que levam e trazem, que aprovam ou não, daquilo que ouvem e que escutam ou não escutam, só ouvem.

Porque atender é acima de tudo escutar. Esta a grande tarefa dos atendimentos, que parece ser simples e muito fácil, mas que na realidade esconde um mundo de relações interpessoais inconscientes importantes. Se não soubermos decifrá–las, corremos sério risco de nos perder e ficar mesmo só no “Leva e Traz”.

Escutar não é ouvir. Ouvir a gente ouve o que é dito no campo do significado estrito das palavras. Bola é bola, coca é coca, mulher é mulher. Escutar é bem diferente e requer treino, autoconhecimento e conhecimento do outro. Escutar é do campo da significação das coisas para cada um, diferente para cada um sempre.

Ouvir é do campo dos sentidos e Escutar é do campo do Inconsciente. Escutamos sem precisar ouvir. A Escuta é muitas vezes silenciosa, escuta–se o não verbal, a entrelinha, o gesto, a atuação.

E afirmo que saber desta diferença e saber explorar a escuta muda tudo neste campo de atuação que é o Atendimento. Ter análise e conhecer alguns fundamentos da psique e do comportamento humano inconsciente é uma ferramenta de trabalho que “não tem preço”.

Quando falamos de Atendimento muitas analogias com o atendimento psicanalítico podem e devem ser feitas, pois em ambas as situações trata–se de escutar e não de ouvir.

No consultório o analista escuta o desejo inconsciente do paciente e no atendimento publicitário o atendimento escuta o desejo inconsciente do cliente, que é uma soma do desejo da pessoa do cliente com o desejo “corporativo” do qual ele é porta voz.

Atender um cliente e escutar sua demanda requer uma boa dose de maturidade psíquica para acreditar no que escutamos, pois é muito fácil confundir o desejo da pessoa do cliente com o desejo corporativo que ele deve transmitir.

Para isto devemos sempre estar atentos a todas as percepções que temos do cliente, desde um tom de voz diferente, um jeito novo de falar ao telefone, uma frase mais ríspida no e–mail, uma recepção mais carinhosa, enfim, existem uma série de sinais que vão compondo um todo que nos dá a dica de por onde e como devemos nos conduzir naquele dia, reunião, etc.

E tudo depende de nós, do quanto escutamos de verdade e do quanto levamos à sério aquilo que percebemos nas coisas não ditas diretamente, naquilo que nossa “intuição” (escuta) nos revela.

Sabem aquela sensação de “a pulga atrás da orelha?”. São sensações, físicas até, que apontam e revelam certa situação. E, se não damos a devida atenção à tal da pulga, sempre nos damos mal, porque com certeza, inexoravelmente, a pulga acaba nos picando. [Webinsider]

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Sobre o autor

Ana Clara CenamoAna Clara Cenamo (ana.cenamo@gmail.com), geógrafa, psicóloga e publicitária, é diretora de Atendimento da Ogilvy Interactive.

Apoio:

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Palavras-chave relacionadas a este texto: [ formação profissional ] [ briefing ]

Comentários

9 pessoas comentaram o artigo "Escutar é diferente de ouvir"

Pamellla Data: 23/08/2006 às 10:18 am

Atividade: Universitária

Cidade: Goiânia

Muito interressante…eu trabalho a pouco tempo em uma agência,e só pra você ver(como em alguns casos)o meu por exemplo. o grande erro de lá, e que primeiro ninguém do atendimento possui experiência, formação na área,nada apenas em vendas, tanto que o departamento que ao meu ver seria o atendimento é tido como vendas, ou comercialização…Quando fiz as primeiras visitas com “os de casa” nossa!!! pensei ou a faculdade é um sonho encantado, ou tudo isso aqui tá errado.Depois não sabem porque que a agência tá na bosta,desculpe mas não deu pra segurar.

Ana Clara Data: 01/09/2006 às 8:13 pm

Atividade: Mídia Interativa

Cidade: São Paulo

Pamella,

VocÊ tem razão… as áreas de atendimento são mesmo vistas como área comercial e eu concordo com isso. Nós fazemos isso mesmo! vendemos! Mas, a diferença está em COMO vc vende e como se relaciona com as pessoas, e não mercadorias, que estão do seu lado…Isto sim é uma arte!
E para esta arte existem poucas teorias… hoje começam a surgir pessoas que escrevem sobre isto de alguma forma… são os Gestores de Pessoas… Vale a pena bisbilhotar em alguns.
Boa sorte!
Ana

jose pereira neto Data: 15/10/2006 às 7:19 pm

Atividade: CORRETOR DE IMOVEIS E CONTADOR

Cidade: BELO HORIZONTE

GOSTARIA DE PARABENIZA-LA SOBRE O ASSUNTO “OUVIR/ESCUTAR” . VISANDO AMPLIAR S CONHECIMENTOS DESTE ASSUNTO E OUTROSA COMO ARTEDE CONVECER PARA ÁREA DE VENDA. SOLICOTO NOMES DE LIVROS PARA COMPRAR.

OBRIGADO. PEREIRA

Ana Clara Data: 19/10/2006 às 4:52 pm

Atividade:

Cidade:

Pereira,

Obrigada pelo seu comentário.

Livros para ler sobre este assunto? Puxa…talvez alguns temas de psicanálise, sabe? Ou de Filosofia… Você poderia se aventurar a ler o velho e bom Freud ou o difícil e hermético Lacan… mas, nenhuma leitura substitui o auto-conhecimento. Existe um romance interessante: “Quando Nisetzche Chorou” que fala um pouco sobre isso. Acho que é um bom conheço.E tem um outro que vc só encontrará em Sebos…”Lacan ou a morte de um herói intelectual”.
Acho que é isso. boa sorte! abs,
Ana

Jorge Elias Batista de Souza Data: 19/02/2009 às 3:28 pm

Atividade:

Cidade:

INTERESSANTE O ENSINAMENTO A RESPEITO DO ASSUNTO, POIS, MUITAS PESSOAS PASSAM PELA VIDA SEM NEM AO MENOS ENTENDER TUDO AQUILO QUE OUVE. APRENDI ISTO HA MUITO TEMPO, AO ANALIZAR A BÍBLIA SAGRADA E ENTÃO, COMECEI A BUSCAR MAIS ENTENDIMENTO, TENDO EM VISTA QUE O QUE ALI SE APRESENTAVA, PARECIA-ME MUITO SUPERFICIAL. PASSEI A ANALIZAR O CONTEXTO E AS ENTRELINHAS E APRENDI QUE DEUS FALA AOS NOSSOS CORAÇÕES MUITO MAIS QUE NOSSOS OLHOS PODEM ENXERGAR. A PARTIR DAI, PASSEI TAMBÉM A ESCUTAR OS ENSINAMENTOS DIVINOS E NÃO APENAS A OUVIR COM O SENTIDO FÍSICO.
PARABÉNS PELO ARTIGO.

veronica soares Data: 30/05/2009 às 6:27 pm

Atividade: atendimento

Cidade: olinda

achei muito interessante pois vou começar a trabalhar com atendimento publicitário. O que inicialmente faz uma pessoa que nunca trabalhou neste segmento, sou formada em mkt.
parabéns

Éfrem José André Data: 15/07/2009 às 9:27 am

Atividade: Juridica

Cidade: Natal

O artigo é ótimo e retirar a dúvida sobre
ouridoria, que é uma palhaçada neste
Brasil.

Lucas Data: 23/10/2009 às 3:08 am

Atividade:

Cidade:

Interessante!

Lucas
email marketing
www.geekle.com.br

ROSANE MOURA CAVALLINI Data: 31/10/2009 às 5:20 pm

Atividade: ESTUDANTE DE PSICOLOGIA

Cidade: FLORIANÓPOLIS

ACHEI FANTÁSTICA ESTA DIFERENÇA,REALMENTE SÃO POUCAS AS PESSOAS QUE SABEM ESCUTAR.CADA VEZ MAIS VEMOS AS PESSOAS VOLTADAS PRA SI, ESQUECENDO OU PERDENDO A OPORTUNIDADE DE TREINAR A ESCUTA QUE É DE GRANDE IMPORTÂNCIA PARA NÓS.

Avisos
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