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D. Idália e Bingoludo se relacionam, uma crônica

24 de maio de 2003, 0:00

Momento distração sobre a capacidade que a internet possui de colocar pessoas para conversar. Se mercados são conversações, nem sempre uma ponta se encaixa na outra.

Por Nenhum

Cristian Fischer

Dona Idália vai religiosamente à paróquia toda quarta–feira à tarde. Depois da aula de violão vem a de coral e em seguida a de informática para a comunidade.

Desde então a internet ganhou mais uma adepta. Cabelos roxos, vestido largo e florido comprado na lojinha do bairro, um imenso coração sempre pronto a despejar palavras de consolo são características da simpática senhora… Oops, ela nunca mais apareceu no muro para conversar com a vizinha?

Os dedos lentos à procura das teclas certas e os óculos apoiados na ponta do nariz conferem a ela um ar de “antenada” com a atualidade. Mesmo que seja para pesquisar receitas de bolinhos.

Certo dia ela descobriu o tal do chat. Era algo irreal, assim como o fax. Sem tentar entender, ela criou um nick bastante original “iDÁ” e entrou na sala… errada. Sexo grupal com lambidas e vela.



Um nick desse logo despertou a atenção.

Bingoludo diz: De onde vc tecla?

iDÁ diz: Da paróquia do Bairro

Bingoludo diz: Adoro mulheres religiosas, comigo é assim: ajoelhou tem que rezar!

iDÁ diz: Concordo, mas só ajoelho aos domingos, dia da missa. Nos outros dias costumo ficar sentada mesmo.

Bingoludo diz: Vc deve ser uma daquelas gostosinhas que paparicam o padre!?

(Idália fica ruborizada, mas dá uma ajeitadinha no cabelo.)

iDÁ diz: eu me dou bem com o padre, homem bom!

Bingoludo diz: Você curte pingar cera de vela no corpo? Sentir o calor escorrendo…

iDÁ diz: Dói muito, ainda mais quando escorre na mão, mas faço de coração. Acabei de acender uma de sete dias pra minha vizinha!

Bingoludo diz: Então você curte esse lance de valetudo, inclusive com a vizinha?!

iDÁ diz: Eu não, mas o neto dela adora, tanto que até quebrou o braço. A vela que acendi é pra ele.

Bingoludo diz: Eta beata doidona, tô louco para… !


iDÁ sai da sala – correndo.


………………………………………………………………….

Dona Idália ficou encabulada, tinha a quase certeza de que a conversa enveredava para um caminho pecaminoso. Sentiu o peso de que havia feito algo pouco moral, pois há muito não tinha contato com palavras tão “agressivas e carnais”.

Buscando aliviar sua consciência, dirigiu–se para o confessionário e, ofegante, sentou–se e contou sobre o ocorrido e os desejos despertados. O padre ouviu toda a confissão e sem mais delonga deixou escapar: ajoelhou tem que rezar… Oops (deu uma engasgada)… 10 Pai Nossos, Dona Idá.



Sem saber o que pensar destas coisas da vida moderna, Dona Idália voltou a conversar diariamente no muro, e somente com a vizinha. [Webinsider]


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