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Michel Lent Schwartzman
Web à vista

Teletrabalho na marra

01 de maio de 2003, 0:00

A promessa de o trabalho a distância revolucionar o mundo está se cumprindo. Na base da porrada.

Por Michel Lent Schwartzman

Isso era fichinha em qualquer revista especializada há uns 10, talvez 15 anos atrás. Primeiro se pensava no fax, na troca de arquivos via modem (ainda sem a internet) e nos serviços de courier das grandes cidades. Quando a internet chegou pra valer então, era certo: no futuro, ninguém sairia de casa para trabalhar. Tudo seria feito à distância no maravilhoso mundo do teletrabalho.

Imagine passar a tarde com as crianças. Se conectar da praia com o seu celular, responder e–mail da rua, trabalhar às duas da manhã aproveitando o silêncio da noite. Um mundo fantástico onde cada um seria dono do seu tempo e as grandes corporações enormes espaços vazios, com telefuncionários comparecendo a cada tanto com seus notebooks para reuniões presenciais.

E passados alguns anos, olhando bem, o teletrabalho realmente chegou e funciona para muitos profissionais cujo trabalho não exige a presença física em um ambiente para acontecer, como no mercado de comunicação e da tecnologia.

Hoje montar um home–office é tranqüilo. Qualquer pessoa de grande cidade que quiser trabalhar de casa consegue instalar algum tipo de banda larga sem ter que pagar por mês muito mais do que R$ 100 pelo pacote. Notebook virou algo acessível. É possível realmente ler e responder e–mails da rua. O ICQ e outros messengers facilitam a comunicação instantânea e a troca de arquivos entre pessoas em cantos diferentes do mundo de forma extraordinária. E quando não dá pra se mandar via digital, apelamos para os heróicos e quase suicidas couriers motorizados para entregar o pacote na hora necessária.

Definitivamente, trabalhar em um escritório grande, com horário para entrar e sem hora para sair, hora do rush, sem janela, computador geralmente pior do que o que você tem em casa e ainda por cima sem poder ir só de cueca, não faz o menor sentido.

Isso sem falar em não poder pegar a sessão das duas no cinema do bairro quando você tá num dia relax de trabalho. Escritório, só mesmo se for pra ir almoçar com a galera naquele restaurante a quilo do centro e curtir aquele flerte de corredor com a mulherada.

Trabalhar de casa é muito melhor. O teletrabalho chegou pra juntar a “fome com a vontade de comer”. É mais ou menos assim.

Do Aurélio:

……………………………….
frila. S. 2 g. Bras. Pop. 1. Freelance (1).

freelance. [Ingl.] S. m. 1. Trabalho avulso realizado por profissional autônomo, ger. para empresa jornalística, agência de publicidade, editora, etc.; frila. 2. Profissional que realiza freelance (1); freelancer.

………………………………………………..

O raciocínio é simples: hoje no Brasil um empregado custa uma fortuna para o empregador em encargos sociais. Isso significa que o salário final do profissional inevitavelmente será muito mais baixo do que ele está custando para a empresa. O que gera salários baixos ou desemprego. Ou teletrabalho (frila).

Se hoje é possível trabalhar à distância com uma série de profissionais, cada um com a sua pessoa jurídica, trabalhando o quanto precisar, sem gerar custos fixos elevados para o contratante, qual é o sentido de se manter os grandes espaços e as grandes empresas quando o teletrabalho é possível? Demitir é a saída. Só trabalhar com frilas.

E como diria a minha avó, “isso é bom ou ruim para os judeus?”.

Não sei se melhor ou se pior. Se é realmente pior ser frila e poder ganhar mais do que ter um salário achatado de uma grande empresa com a incerteza de não ter o contra–cheque no final do mês.

Se é bacana poder trabalhar sempre de casa. Se o pessoal da “firma” faz falta. Se é tudo uma questão de costume e no futuro a gente vai achar engraçado o tempo em que as pessoas precisavam viver em grandes cidades, sair de casa todos os dias, se locomover gerando engarrafamentos na hora do rush para ir trabalhar em grandes salas comunitárias.

Talvez seja mesmo tudo uma questão de costume. Mas costume ou não, triste é se constatar que o teletrabalho está se tornando uma realidade, não por uma opção, mas pela falta dela.

E a realidade sucks sometimes. [Webinsider]

Sobre o autor

Michel Lent SchwartzmanMichel Lent Schwartzman (michel@lent.com.br) é publicitário e especialista em mídias interativas.

Apoio:

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Palavras-chave relacionadas a este texto: [ comunidades ] [ formação profissional ]

Comentários

5 pessoas comentaram o artigo "Teletrabalho na marra"

Zeno Pereira Data: 27/07/2006 às 2:37 pm

Atividade: Instrutor/Escritor

Cidade: São Paulo

Que ótimo que o teletrabalho já é uma realidade!!
Só penso que ainda é difícil aqui no Brasil encontrar trabalhos a distância usando a própria ferramenta que nos permite trabalhar a distância, a web.
Ainda são escassos os sites especializados em congregar esse tipo de profissional.

Wilson Azevedo Data: 27/07/2006 às 4:14 pm

Atividade: Educação Online

Cidade: Parnamirim - RN

Zeno

Não é tão difícil assim encontrar. Mas por enquanto a oferta é menor que a procura. Por isto não aparece na web.

Para exemplificar: o maior programa de educação online deste país, conduzido pelo SEBRAE, já passou de meio milhão de alunos. Os professores (”tutores” como são chamados) não pisam fisicamente em dependências do SEBRAE para trabalhar. Todos são teletrabalhadores. São neste momento mais de 100 profissionais teletrabalhando de vários lugares do país.

Eu mesmo capacitei esta equipe também teletrabalhando, sem pisar em dependências do SEBRAE nem para assinar o contrato. Foram várias turmas de candidatos a tutores do SEBRAE, que ajudei a capacitar enquanto morava em locais tão diferentes quanto o Rio de Janeiro, a Vila das Aves (em Portugal), Birmingham (na Inglaterra) e agora a Praia do Cotovelo, no Rio Grande do Norte.

E estou falando de uma iniciativa que já vem acontecendo desde 2001, 5 anos. Na época que o Michel publicou este artigo já fazia 2 anos. E não há sinais de que esta tendência vá refluir. Pelo contrário.

Wilson Azevedo

Lineu Drummond Data: 28/07/2006 às 8:23 am

Atividade:

Cidade:

Mesmo com profissionais de tecnologia, trabalhar em casa vai se perdendo bastante em trocas de idéias, experiência e acertos finos de quando você está na empresa, junto de várias pessoas. Vai ser sempre uma solução só para alguns casos. O melhor é tentar humanizar o escritório de trabalho, deixando o pessoal ter vida social, nem que seja na base da porrada.

Saymont Data: 23/09/2006 às 7:03 pm

Atividade:

Cidade:

Os indivíduos que trabalham remotamente em geral trabalham 2 horas a + por semana e possuem seu nível de stress mais elevado. Procure sobre isso na internet em artigos acadêmicos e pesquisas. Procure no google americano também. Teletrabalho é um vírus disfarçado cura.

Abraços

Luiz Henrique Quemel Data: 25/12/2007 às 10:35 pm

Atividade: Consultoria Doméstica em Informática

Cidade: Brasília-DF

Caro Michel,

na onda do teletrabalho criei uma ocupação destinada a dar suporte técnico para esse novo trabalhador.

Chama-se consultor doméstico em informática e em 2007 houve uma explosão dessa nova forma de trabalho.

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