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Guilherme Coelho
Muitos meios

Dança das cadeiras na música digital

29 de abril de 2003, 0:00

Apple faz a coisa certa.

Por Guilherme Coelho

Numa entrevista de Arnaldo Antunes em 1997 para o Rockwave, num mundo pré–Napster e Kaaza, perguntei a ele o que achava sobre a eminente venda de música pela internet. Como artista, ele vislumbrava a possibilidade de sair do velho formato “discos com 12 músicas a cada ano” imposto pelas gravadoras há anos.



Assim poderia criar 100 músicas em três meses, ou nenhuma em um ano sem criatividade… e colocar cada música à venda separadamente, online ou em CDs personalizados nas lojas. Anos passaram, e a indústria fonográfica não conseguiu encontrar legalmente ou tecnicamente um formato razoável de venda de músicas pela internet e, pior ainda, em 1999 viu um adolescente criar um programa chamado Napster que revolucionou a forma de se encarar o consumo de música: tudo por nada!



Milhares de crianças e adolescentes estão crescendo com essa nova forma de pensar, sem saber exatamente o que há por trás disso tudo, sem estar conscientemente querendo ferrar gravadoras e artistas, mas rebeldemente passando o seu recado: reinventem a indústria da música, pois nós reinventamos o jeito de consumi–la.



Mas o fato é que as gravadoras passaram anos acomodadas, na defensiva, iludidas com a proteção do “Digital Millenium Coyright Act” de 1998, tentando manter o mercado no formato que vinha funcionando muito bem, e que permitia a elas ser a verdadeira galinha dos ovos de ouro dos grandes grupos de mídia.



Ao mesmo tempo em que as tentativas de criar assinaturas mensais atraíram pouquíssimos pagantes em sites como Pressplay e MusicNet, a tecnologia livre correu por fora, passou uma rasteira em todos e estabeleceu os novos donos da bola: os usuários.



O mercado continua em busca de uma solução para a equação música + internet = gravadora feliz + artista feliz + você feliz, e esse ano o agito parece estar novamente crescendo, tanto no campo legal quanto tecnológico.



No aspecto legal, as gravadoras continuam sua batalha defensiva tentando tapar o sol com a peneira e gastando milhões com advogados. Este ano conseguiram pelo menos uma vitória importante: a RIAA (Recording Industry Association of America) obteve semana passada (24/04/03) autorização legal para pegar os usuários pesados do Kaaza com ajuda dos provedores de acesso, que por lei teriam que identificar o usuário para as gravadoras. A Verizon está com um prazo de 14 dias para dedar um de seus usuários de broadband (DSL) nos EUA, que teria trocado ilegalmente mais de 600 músicas por dia durante um período em 2002, de acordo com a RIAA. Dependendo das conseqüências para o bode (gordo) expiatório, o fato colocará medo em muita gente e deverá reduzir, em parte, o uso pesado de troca de músicas gratuitas.



Mas numa tentativa de tirar mais vilões de sua frente assim como fez com o Napster (ironicamente comprado pela Bertelsman, grupo alemão dono da gravadora EMI), a RIAA sofreu um grave revés nos tribunais também em agora em abril/2003 e não conseguiu tirar de operação o Morpheus e o Groskter, dois dos mais populares programas de troca de arquivos na atualidade.



A diferença principal entre esses programas e o Napster é a ausência de um servidor central, com uma lista geral de usuários e músicas disponíveis. A defesa alegou que se num determinado instante os servidores e serviços do Morpheus ou Grokster desligarem, toda a rede descentralizada continua funcionando. Ou seja, não existe um serviço a ser tirado de operação.



Mas não é só o fato de ser mais descentralizado que parece ter convencido o juiz a favor da StreamCast, dona do Morpheus e Groskster: talvez mais importante seja o aspecto de comparação utilizado por ele para justificar a existência de tais programas: são similares a uma copiadora ou videocassete, que também podem e são usados diariamente há anos para infringir a lei de direitos autorais.



No aspecto tecnológico, grandes peixes de mídia e tecnologia entram na dança das cadeiras para ver quem é que, finalmente, vai garantir seu lugar na nova ordem musical. Um grande fator que contribuiu para atrapalhar as gravadoras no desenvolvimento do comércio de músicas pela internet foi a tecnologia.



Por um lado, a falta de um formato razoável de se vender música online, sem permitir a livre cópia mas ao mesmo tempo sem prejudicar a experiência do usuário. Os formatos de assinatura hoje impõem muitas restrições ao uso das músicas disponíveis. Por outro lado, a inundação e overdose do mp3 e peer–to–peer pregando a idéia do “tudo de graça”. Somente agora alguns formatos de distribuição e comercialização legais online estão se mostrando mais eficientes. E o que está determinando isso é a usabilidade. O que o usuário está fazendo no dia–a–dia com suas músicas? Quais os players que está usando? Como ele passa as músicas do computador para o discman ou mp3 player? O produto música não será mais o conteúdo e sim o hardware que se compra para ouví–la?



Muitas empresas, como Sony, Microsoft, Real Networks e Apple, já estão em cima dessas respostas há anos, mas agora talvez as configurações corporativas que estão surgindo permitam finalmente resgatar os negócios das gravadoras na internet. A Sony, dentro de sua pequena guerra civil, viu a Sony Music apanhando da Sony Electronics no gráfico lucro com gravadora x lucro com CD–R virgem, e pior, começou a perceber que era inversamente proporcional: à medida que cresce a venda de CD–R, cai o lucro com as gravadoras.



Agora Tóquio dá sinais que em pouco tempo a Sony também pode começar a fabricar equipamentos eletrônicos com disco rígidos, ou seja, mp3 players e outros gadgets (algo que a Sony sempre relutou em fazer). Se a Sony passar a ganhar milhões (quero dizer, mais milhões…) com a venda dessas pequenas maravilhas eletrônicas, por que se preocupar com o lucro de sua gravadora? Com uma estrutura relativamente pequena e baixo investimento (em relação à divisão de eletrônicos), é só manter os artistas gerando conteúdo e continuar inundando a rede com música gratuita ou bem baratinha!



Será que esse é o pensamento da Apple quando ouvimos boatos esse mês de que estaria interessada em comprar a Universal do grupo Vivendi? A Apple, que irritou as gravadoras há um tempo atrás pregando o lema “Rip, Mix, Burn”, agora pode mostrar que estava certa e que a interpretação atual disso pode ser “Rip, Mix, Burn in a mac computer and listen on my Ipod”.



E como o formato de assinaturas como Pressplay e MusicNet não decolaram, a Apple lançou seu próprio serviço de música online (foto) e ataca também com o formato “pay–per–download”. Aí estando tudo em casa, já estou vendo em alguns meses a Apple lançando coisas do tipo “Robert Plant Ipod” que já viria carregado com 5 discos de Plant, ou o “Eminem Ipod”, já carregado com os últimos discos do rapper branquelo. Ou ainda “Compre seu Ipod e ganhe 100 músicas do serviço online Apple”, e por aí vai. E por aí, como sempre copiando a Apple, devem ir também Microsoft, Sony e outros.



E os artistas?? Qual o modelo de negócio com as gravadoras ou com os futuros–eventuais grupos de TecMedia? Se o modelo “pay–per–download” vingar, será uma grande conquista para o bom e velho modelo gravadora/artistas. Mas muitos acreditam que na nova ordem mundial da música, os artistas serão mais autônomos em suas produções, sem gastos de milhões em estúdios e produtores caros, reduzindo os custos finais.



Com a divulgação das músicas na mídia e distribuição gratuita ou bem barata do conteúdo, muitas vezes de forma independente, o artista ganha exposição e pode gerar renda com turnês e outros produtos licenciados. Nesse formato, artista e gravadora ganham com o licenciamento desse conteúdo para as empresas fabricantes de MP3 player e outros produtos.



Estou louco pra ver onde vamos parar com tudo isso! [Webinsider]


Sobre o autor

Guilherme CoelhoGuilherme Coelho (coelho@zeroum.com.br) é sócio da ZeroUm Digital e CEO do Aprex.

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