Quem acredita em internet grátis?
21 de abril de 2003, 0:00Parece grátis mas não é. É diferente mas é igual.
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É um assunto que acidentalmente me voltou à cabeça. Me lembro de ter tido uma discussão longa por e–mail com um colega de listas sobre a questão da (ilusão da ) internet gratuita talvez há um ano.
Basicamente, eu argumentava que nada na internet é nem nunca foi gratuito e que essa idéia e imagem era uma grande ilusão, que significou para o mercado de internet um grande preço e um grande retrocesso enquanto desenvolvimento de negócios.
Hoje recebi um e–mail de um outro colega que procurava dicionários de português gratuitos, pois o Michaellis e o Aurélio estavam em área fechada do UOL. Parei pra pensar em quanto custa acessar o conteúdo do UOL, ou do Terra, ou da Globo.com hoje e fiquei numa certa bronca.
Resolvi voltar a carga nesse tema.
Nada na internet é ou jamais foi gratuito. No começo era difícil entender isso. A cada dia está ficando cada dia mais evidente.
Tudo na internet tem seu preço. Assim como tudo que é feito no mundo, tem seu valor e seu custo. É assim, infelizmente, que o mundo funciona desde que deixamos de andar em tribos caçadoras que viviam de subsistência. E talvez, mesmo aí, já existia a troca de trabalho e as diferentes responsabilidades que faziam o coletivo funcionar. Os homens caçando e as mulheres cuidando das crianças, ou vice–versa. Não importa.
Na internet também sempre foi assim. Feliz, ou infelizmente, alguns fatores contribuíram pra causar essa ilusão de grátis nos seus primeiros anos de existência.
Primeiro os sites pessoais. Na grande rede de retalhos planetária, passamos a ter acesso a informações vindas de todos os cantos do mundo. Gratuitas? Não, feitas com o tempo extra de cada uma dessas pessoas, que tinham seu tempo extra pago graças a algum tipo de trabalho. Professores em seus tempos vagos pagos com seus salários pagos pelas universidades. Pesquisadores dedicados ao tema internet 100% do tempo, pagos com suas bolsas de pesquisa. E o mesmo vale pra qualquer tipo de pessoa com qualquer tipo de atividade profissional que resolveu fazer seu site pessoal. Dá pra se ter uma imagem do que estou falando.
Depois os sites corporativos. De início, riquíssimos em conteúdo e um monte de coisas legais (ou não). Que também davam a impressão de ser gratuitos, mas que também eram pagos com a grana das empresas, que investiam rios de dinheiro sem saber muito porque.
A IBM nessa época tinha um filme primoroso na TV que resumia toda essa confusão. Dizia mais ou menos assim.
Dois homens sentados. O mais novo lendo um jornal e dizendo para o mais velho: Aqui diz que em cinco anos todas as empresas do mundo precisam estar na internet. Precisamos fazer nosso web site. O mais velho pergunta: Pra que?. O mais novo olha o jornal procurando alguma coisa e responde: Aqui não diz.
Sim, um dia as empresas começaram a se fazer essa mesma pergunta e os sites riquíssimos em coisas grátis começaram a secar ou a ficar extremamente pragmáticos.
E tivemos ainda a grande bolha e os bilhões de dólares em investimento pra se fazer qualquer coisa na internet.
De uma hora pra outra tudo era muito, qualquer coisa existia e era tudo de graça, até acesso. Quase uma dezena de provedores só no Brasil oferecendo acesso grátis. Grana que obviamente ou vinha dos investimentos ou tinha alguma outra forma de compensação prevista.
E quando no começo desse artigo me referia ao preço e ao retrocesso que a idéia da internet grátis causou, queria dizer basicamente o seguinte.
Justamente por vivermos essa euforia de um novo modelo que estava subvertendo qualquer ordem anterior e alimentados com o dinheiro investido por cada empresa e cada indivíduo do mundo e até então não contabilizado, passamos os primeiros anos da explosão da web num certo faz–de–conta, acreditando que aquilo mesmo vinha de graça e não precisava de um modelo de negócios sustentável.
99% de todos os sites comerciais que apareciam então tinham seus modelos de negócio baseados em receita publicitária, enquanto os já existentes canais de TV a cabo brigavam para sobreviver dentro do mesmo modelo.
Essa euforia do dinheiro desvairado nos fez parar muito pouco para olhar para o lado e entender que o que estávamos fazendo era único mas não era diferente de tudo e que o mundo continuava o mesmo, funcionando do mesmo jeito que sempre funcionou. Desde os primórdios, até hoje em dia, o homem ainda faz o que o macaco fazia. Canta Sérgio Britto em Homem Primata dos Titãs. Nada mais apropriado.
E depois que a grana secou e que passou a ficar claro que as coisas na internet também têm seu preço, por um lado vimos uma quantidade assombrosa de boas idéias sendo fechadas por falta de receita e por outro, uma mentalidade que ainda resiste em achar que as coisas na internet devem ser de graça e que não se deve pagar pelo conteúdo que se utiliza, mesmo que ele custe menos de 20 reais e essa grana ajude a manter a empresa aberta nos prestando um serviço tão valioso.
Não é botar a culpa no meu colega de lista que procurava dicionários grátis, nem querer entrar na discussão de se os valores cobrados estão certo ou errados. É tentar fazer entender que o grátis não existe e que mesmo que a internet seja uma coisa super evoluída ainda somos os mesmos homens primatas no mesmo capitalismo selvagem. E ô ô. [Webinsider]
