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O dilema da tecnologia e a locomotiva americana

07 de março de 2003, 0:00

Um comentário noir sobre o especial que a revista inglesa The Economist dedicou recentemente à internet pós–utopia. O que chama a atenção é a liderança dos Estados Unidos na falta de rumo.

Por Nenhum

Julio Daio Borges

Como uma engenhoca que aparentemente não deu certo, e cuja carcaça ainda serve para alguma coisa, vamos juntando os cacos do projeto que se tinha para a internet. Esse é o espírito do especial Digital dillemas que a The Economist dedicou, no final de janeiro, à rede mundial de computadores.



A revista parte das promessas não realizadas e tenta tirar algo de útil de cada uma delas, nem que seja uma lição de moral para o futuro (?). Assim, são lembrados, melancolicamente, os anseios por uma “nova civilização”, em 1996, cuja matéria seria o ciberespaço.



Também, logicamente, o boom e a bolha – mal comparando com o empreendimento das estradas de ferro, que igualmente, no início, quebraram os Estados Unidos, para, depois, construir uma nova era de prosperidade. Os ideólogos e os investidores da World Wide Web perderam os sonhos e as calças – e, mesmo assim, não querem largar o osso.



A The Economist esteve entre eles, e quem a lia com alguma freqüência se lembra como ela saudou a fusão da AOL com a Time Warner – justamente o maior pesadelo da atual economia norte–americana. Para além da internet, o ocaso das (tele)comunicações, neste início/fim de século, permite conjecturar sobre onde essas coisas vão dar.



Malgrado o destino fatídico da utopia digital, é patente que a locomotiva do Tio Sam perdeu o rumo – e arrasta as apostas do mundo inteiro para o seu particular buraco negro. Os EUA ditam as regras, o planeta as segue, concentra suas esperanças de um lado da balança e, de repente, o universo desaba solenemente – nós, junto com ele. E isso não tem nada a ver com o neoliberalismo. (Ou tem?).



Nossos modelos estão fora de moda, a fábrica fechou as portas, e o estilista desistiu de confeccionar novas peças. Estamos à beira do abismo, sendo empurrados, e o único que conseguimos fazer é bocejar – de preguiça, de tédio, de indiferença.



Nós quebramos, mas, e daí?, os Estados Unidos da América também quebraram. Então, tanto faz. Cada um salva o que pode: o que é seu. De fato, a internet não é uma má invenção. Acontece que não escolheu uma boa hora para nascer. Nem para morrer. [Webinsider]


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