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A internet popular não é domesticável

10 de fevereiro de 2003, 0:00

Com o acesso das classes C e D cada vez maior à internet, será que teremos que repensar a maneira de criar sites e conteúdos para a web? De certa forma sim, mas a comparação com a TV não se aplica.

Por Nenhum

Guilherme Schneider

Li outro dia um artigo, já não importa onde, em que o autor defendia a criação de conteúdo e de sites voltados para as classes C e D, considerando que o acesso à internet se amplia. Segundo estatísticas, as classes C e D já representam 10% das pessoas conectadas à internet no Brasil, através de computadores no trabalho, nas agências do correio, cibercafés e escolas.

A preocupação do autor não levava em conta o aperfeiçoamento dos sites, em busca da simplicidade e da descomplicação, objetivo a ser sempre seguido, como já vimos em tantos textos aqui no Webinsider em torno de conceitos como usabilidade. Ele se referia ao próprio conteúdo a ser exibido.

Foi a minha vez de ficar preocupado ante a perspectiva de serem criados sites e conteúdos voltados para a “realidade” dessas classes, como defendeu o autor do artigo em questão.

Antes do advento da TV por assinatura, os canais abertos da televisão, principalmente a Rede Globo, eram voltados essencialmente para as classes A e B, quando a TV reinava soberana. Com a chegada da TV por assinatura e a multiplicação dos aparelhos de televisão, os canais da TV aberta adaptaram suas programações para uma qualidade que podemos considerar inferior e focada nesse público das classes C e D (a época da bundalização da televisão, na definição de um amigo…).

Em um dado momento, a televisão aumentou a dose de programas de baixa qualidade e mais grosseiros, além da farta exibição de bundas em close.

Na internet o conteúdo que temos hoje é basicamente focado para as classes A e B, que têm o poder de compra e maior facilidade de acesso à rede mundial, mas aos poucos as classes C e D começam a contar em maior número, em tendência que só deverá prosseguir.

Em relação aos usuários, há uma diferença entre quem chega agora e os que já possuem prática. Os mais avançados se tornam mais espertos e dominam atalhos que permitem navegar com mais objetividade, de modo a economizar tempo e aumentando sua produtividade, digamos assim, em relação aos menos experientes.

Mas falando especificamente em termos de conteúdo e edição, em sites de audiência geral, como os portais, trata–se de um problema de escolha do que destacar. Ao decidir o que colocar em evidência na home de um portal, cabe a pergunta: será que a solução é mudar o foco para satisfazer piques de audiência mais imediatistas ou, pelo contrário, criar uma cultura de informação mais educativa? Considero a discussão pertinente pois já ouvi mais de uma dezena de vezes que a web deveria ser uma facilitadora do acesso à informação (e ultimamente vem sendo assim).

Claro que públicos do que chamamos classes C e D não devem ser ignorados ou esquecidos, mas é um pouco perigoso pensar no conteúdo para web sob o prisma do sensacionalismo, ou então vamos acabar vendo o mesmo fenômeno da bundalização também na web. Na verdade ele já existe, na proliferação de sites pornô e na estética daqueles que buscam atingir grande audiência e público jovem.

Por outro lado, olhando comparativamente as homes de nossos principais portais hoje e há um ano, é possível sentir que houve um redução sensível na oferta de chamadas para conteúdo mais sensacionalista (sexo, fofocas). Pensando bem, mesmo na TV aberta hoje há menos bundas e mais oferta de programas elaborados.

Pensando melhor ainda, a comparação entre TV e internet simplesmente não cabe. O público, não importa se rico ou pobre, não vai ficar assistindo à home dos portais – vai conversar, interagir. Quem sabe logo estará em chat com as donas das bundas! Ou criando milhares de blogs de periferia. Talvez eu não deva me preocupar tanto e deixar a natureza seguir seu curso. [Webinsider]

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