Webinsider

Intranets e GC

Ricardo Saldanha
Intranets

O embate TI versus humanas nas intranets

07 de fevereiro de 2003, 0:00

Se o pessoal de TI é muito mais dono das intranets é porque o pessoal de comunicação e RH precisa conquistar um lugar central nas questões que envolvem o ser humano, sem esquecer de incorporar a tecnologia.

Por Ricardo Saldanha

Felizmente, cada dia cresce mais a noção de que as ferramentas de informática, como as intranets e os portais corporativos, não possuem o poder da transcendência. Ou seja: ferramentas são ferramentas. E muito mais é preciso para que realizem as maravilhas descritas nos folhetos das softwares houses.

Assim, enquanto as ferramentas perdem gradativamente sua aura mágica (embora continuem sendo importantes, é bom que se diga), cresce a noção de que o grande diferencial é mesmo o ser humano – e motivá–lo, envolvê–lo, conquistá–lo passa a ser o X da questão.

Da mesma forma, fica mais claro que EAD é algo que tem muito mais a ver com educadores do que com analistas de sistemas. Intranets, por sua vez, embora atravessem toda a corporação, começam a descobrir no pessoal de RH e de Comunicação o seu maior motor, ainda que nunca seja o único.

Mas, se essas mudanças são inevitáveis, é certo que estão ocorrendo em ritmo lento, muito lento… Por quê?

Transição

A supervalorização do aspecto técnico, que caracterizou a década de 90 do século XX, é algo natural. Se lembrarmos que estamos vivendo mais uma transição (desta vez da era industrial para a era do conhecimento), chegaremos à conclusão de que a coisa fica meio confusa mesmo nessas horas. Causas e conseqüências se sobrepõem, paradigmas novos e velhos dificultam a formação de uma imagem clara, precisa. E isso não é novidade, já vimos esse filme.

Basta lembrar de Ford e seus automóveis. Ele foi o grande nome da era industrial, que se sobrepôs à era agrícola. Alguém duvida que os mecânicos de 1930 tinham um poder e uma aura bem mais glamourosa do que a que está reservada ao profissional que hoje conserta os nossos carros? Mesmo sem ter feito uma pesquisa a respeito, aposto todas as minha fichas que, sim, o mecânico era mais importante do que o piloto.

Gradativamente, a coisa virou. E está virando novamente. A tecnologia está sendo empurrada para seu lugar de origem – o importantíssimo lugar de atividade–meio, quase sempre trabalhando para apoiar outros setores. Mas esse é um processo que leva décadas – e nós estamos apenas começando.

Vilões, mocinhos e um pouco de dialética

Voltando para as intranets, retomemos a pergunta original, já com novo tempero: por que o ritmo de mudança, de uma utilização meramente instrumental para algo mais construtivista, está sendo tão lento?

A primeira hipótese é também a mais óbvia: provavelmente há uma resistência da área de TI em largar o osso. Acostumados a sugerir e a dominar as primeiras intranets, os setores de informática das corporações, por inércia ou por disputa explícita de poder, agem de forma reacionária.

Mas será que é isso mesmo? Eles são vilões e nós, os humanistas, coitados, somos um misto de mocinhos e vítimas?

Da mesma forma que fiz em relação à hipótese de que mecânicos pertenciam a uma casta em 1930, aposto agora que os humanistas têm sido muito mais protagonistas do que vítimas nessa história toda. Protagonistas omissos.

Não há dúvida de que a reação da área de TI ou mesmo a visão obtusa que a alta direção das empresas ainda cultiva colaboram para afastar do centro das questões o aspecto humano, muito embora ele devesse ser o fim de tudo. Mas é inegável que profissionais de Comunicação Interna, Assessoria de Imprensa e de Retenção e Desenvolvimento de Talentos (antigo RH) – só para citar alguns – relutam em assumir o papel central que lhes está reservado no desenvolvimento das intranets…

Afogados sob a ditadura do informatiquês, diminuídos diante da aparente supremacia da tecnologia (que se traduz inclusive na diferença salarial existente entre as áreas de Exatas e de Humanas), o máximo que os humanistas vêm conseguindo é lamentar sobre o leite derramado. E isso é pouco, muito pouco.

Reconquistando o lugar central

Nenhum espaço ou território é dado de graça. É preciso lutar por ele, fazer valer o esforço. E provar ser merecedor. Os profissionais da área de Humanas que atuam no segmento corporativo têm que acordar para essa realidade. É preciso que se unam, defendendo a aplicação das intranets em favor dos colaboradores/empregados – não por uma questão de caridade, mas sim porque é o melhor caminho para todos, inclusive para a própria empresa.

Entretanto, nada disso se conquista com belos discursos ou artigos. É preciso mais. É preciso demonstrar competência para provar que intranets não são um sisteminha como qualquer outro. É preciso investir numa formação que inclua pontos de interseção com a área de TI, permitindo que se estabeleça um diálogo construtivo e respeitoso entre os setores.

Aproximar Humanas e Exatas é um dos grandes desafios que temos pela frente. É isso que a nova era exige: interdisciplinaridade. Foco em resultados, sim, mas com a valorização do conhecimento holístico. Os profissionais de Humanas que não acordarem para essa realidade estarão fadados ao descrédito – e, lá na frente, ao desemprego.

Precisamos conquistar nosso lugar central nas questões que envolvem o ser humano, sem esquecer que a tecnologia é uma realidade irreversível e, por isso, deve ser incorporada ao nosso rol de preocupações e metas. Só assim TI poderá agregar valor sem ocupar todos os espaços, como ainda hoje acontece. E nós. humanistas, estaremos no comando, como tem que ser – muito mais pelos nossos méritos do que pela benevolência de alguém.

Parafraseando Marx, chegou a hora de gritar: Humanistas, uni–vos! E mais: sejamos pró–ativos, porque “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”, como já disse Vandré.
[Webinsider]

Sobre o autor

Ricardo SaldanhaRicardo Saldanha (ricardo.saldanha@intranetportal.com.br) é consultor e CEO do site Intranet Portal. Especialista em intranets e portais corporativos, também mantém o blog Intra 2.0.

Apoio:

  • LayerDev Serviços de Webhosting Profissional

Palavras-chave relacionadas a este texto: [ formação profissional ]

Comentários

1 pessoa comentou o artigo "O embate TI versus humanas nas intranets"

Alexandre Pontes Data: 26/03/2007 às 6:18 pm

Atividade: Psicólogo

Cidade: São Paulo

Apesar do artigo ser de 2003, faço questão de comentá-lo, mesmo que ninguém leia.
Sou formado e mestre em psicologia, trabalhei por um tempo em hospital psiquiatrico, hospital público e atualmente trabalho em uma associação como psicologo clínico. Tenho muita vontade de trabalhar na área de RH.
Na associação tive a oportunidade de participar como colaborador de algumas atividades feitas pelo setor de RH e achei muito interessante.
Atualmente, estou fazendo treinamentos na área de desenvolvimento de aplicações para TI, mais especificamente voltados para intranets e desenvolvimento de sites na plataforma .NET.
Pode parecer estranho, mas sempre me interessei bastante por esta área.
Ao ler este artigo, que alias é de uma leitura bastante agradável e esclarecedora, pude dar um sentido maior a minha busca atual por um novo lugar no mercado de trabalho.
Concordo com o autor que nossa área (humanas) tem grande dificuldade de relacionamento com a tecnologia. E isso, obrigatóriamente terá de ser superado. Portanto, façamos nossa parte da melhor maneira que pudermos.
Obrigado, Ricardo.

Avisos
Os ítens com asterisco ( * ) são campos de preenchimento obrigatório.
Todos os links inseridos nos comentários possuem o atributo rel="nofollow" para impedir com que user agents (como os mecanismos de busca) sigam os links inseridos para desestimular spammers.
Todos devem se identificar através de e-mail válido.
Os e-mails dos usuários não serão divulgados no site.
Comentários:

Preencha os dados abaixo e clique em enviar

Webinsider