Usabilidade à moda
29 de janeiro de 2003, 0:00O cliente não sabe o que esperar do especialista em internet.
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Fui a pé almoçar hoje. A pé e sozinho. No meio do caminho encontrei um velho amigo e colega de métier. Ambos mexemos com internet, por assim dizer.
Como estávamos quase na porta do restaurante eu o convidei pra almoçar. Ele declinou, e almocei só. Entre uma garfada e outra do meu prato indiano–vegetariano, pensei: vai ver ele não curte comida natureba. Ele até poderia querer almoçar comigo, mas não ali.
E aí, enquanto sorvia mate natural com limão e sem açúcar, pensei: mexer com internet é tão vago quanto dizer que você mexe com comida. E os que mexem com comida são mais honestos (ou mais maduros) do que nós, pois quem tem lanchonete não se confunde com o dono do Fasano, nem com o vendedor de cachorro–quente da Paulista, muito menos com a Amor Aos Pedaços. Cada um mexe com comida, mas à sua maneira.
Idem para os consultores de comida: do gourmet barrigudão ao guru macrobiótico, cada um tem o seu discurso, cada um tem seu público, e adotar um ou outro é literalmente questão de gosto (ou de saúde hepática).
Já nessa salada que é nosso ofício as coisas são bem menos transparentes. Quando você chama um especialista em internet, nunca sabe se ele é um confeiteiro, um dietista ortomolecular ou uma versão digital do tempero da dadá ou – pior – se tudo vai acabar em pizza. Não dá pra saber.
O que complica é que se você perguntar a um sushi–man se ele faz quiche lorraine, e se você disser ao mestre–cuca da caserna que você quer um banquete tailandês, a maior parte vai dizer sim, internet é comigo mesmo. E vai te entregar um banana split no lugar do arroz com feijão. Difícil encontrar quem diga não, essa não é minha especialidade. E dá–lhe indigestões por conta disso.
Falando de indigestões e gordurinhas, usabilidade é o equivalente online do colesterol. Meu colesterol tá alto? Baixo? Isso mata? Isso broxa? Aí você chama um fac totum de internet e ele te dá uma série de preceitos digitais estritíssimos, tão impossíveis de se levar à risca quanto o voto de silencio dos monges. Ou o de celibato.
Tenho dó dos clientes hoje. Comprar internet ainda é como comprar ovo kinder: você nunca sabe qual a surpresa que vem dentro.
E se alguém aqui curte comida vegetariana–indiana, o Manipura é uma ótima pedida. A cozinha é uma maravilha, e como deu pra perceber, é tranqüilo, dá pra pensar e tal. [Webinsider]
