AOL degringolou
18 de janeiro de 2003, 0:00Arrogância corporativa que não levou a nada.
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O ano é 1985. Steve Case, Jim Kinsey e Mar Seriff, fundam a empresa Quantum Computer Services com idéia de ser um BBS. A empresa cresce, e em 1989 é renomeada “America Online”. Continua crescendo e em 1999 dá o salto, quando passa a oferecer acesso ilimitado a web por apenas US$ 19, algo revolucionário na época.
O resultado foi desastroso no início: os servidores e o link simplesmente não agüentaram o tranco. Muitos usuários xingaram todos os parentes possíveis dos donos e mudaram para outros serviços. Mas a estratégia funcionou e acabou matando os concorrentes Compuserve e Prodigy.
O serviço continuou a crescer, apesar de ser taxado “internet para burros”: algo que qualquer usuário firme de web acharia a maior queimação de filme utilizar. Mesmo assim consegue mais de 32 milhões de usuários e se torna o maior provedor do planeta. O ápice ocorre em 10 de janeiro de 2000, quando a America Online compra a Time Warner, uma operação de mais de 350 bilhões de dólares e creditada como a maior compra corporativa da história do capitalismo. Mas aí degringolou.
Já desde a compra, a coisa não foi fácil: vários órgãos e governos se posicionaram contra a operação, que acreditavam iria criar um grande irmão da mídia, algo totalmente incontrolável, a besta do apocalipse. Depois de concretizada a operação, também não foi fácil a convivência entre mentalidades online e offline da empresa: Ted Turner, fundador da CNN e membro da parte offline, criticou várias vezes a gestão de Case, a quem acusou de ser responsável por tudo de ruim que aconteceu desde então.
A empresa perdeu mais 70% do valor das ações desde a fusão, o crescimento no número de assinantes recuou, só em um mês ela conseguiu dar lucro, chegou a ter a maior perda mensal da história do capitalismo (mais de 70 milhões de dólares) etc. Para piorar, entrou no seleto rol daquelas com práticas contábeis questionáveis, quando foi acusada de ficar mudando receita de um lado para outro e de acusar como receita a venda de espaço publicitário para o eBay. Mas a maior crítica que a empresa recebeu se refere | estranha insistência em não oferecer banda larga, e de permitir o acesso (dial up) apenas através do seu software específico. Há quem diga que o fato dos EUA terem um baixo número de usuários de banda larga (só 17% dos usuários de web), se deve ao fato de que quase 1/3 dos usuários de web no país acessam por AOL.
A presença da empresa no Brasil e na América Latina também sempre foi conturbada. Teve que entrar na justiça para ficar com o domínio “aol.com.br” que já tinha sido registrado por um provedor do sul do país. Alguns de seus primeiros CDs de instalação vieram por engano com músicas de um grupo de pagode. Os seguintes vieram com tantos “bugs” de programação que várias entidades de defesa do consumidor ameaçaram processar a empresa por causa de numerosos usuários irados depois do seu catálogo de e–mails ter ido paro espaço. Trocou de presidente inúmeras vezes. Só conseguiu 150 mil usuários. E por aí vai.
A AOL America Latina vai ainda pior. Estes dias conseguiu que a Nasdaq lhe dê mais seis meses além dos quatro já conseguidos para tentar cumprir a exigência de manter preço mínimo de US$ 1 por ação e assim continuar listada na bolsa eletrônica. Na última semana, os acionistas America Online e grupo Cisneros até tiveram que converter 68 milhões de ações preferenciais em ações ordinárias para tentar impulsionar o valor de mercado da AOLA. E até o Olavo Setúbal, dono do Itaú e principal investidor na empresa no Brasil, já se retirou do board da empresa com a desculpa de “falta de tempo”.
Assim, a história termina em 13 de janeiro, quando Steve Case anuncia sua demissão, que acontecerá em maio próximo, exatamente três anos depois de ter comandado a fusão. Case, de apenas 44 anos, afirmou estar deixando a empresa pois sua presença estaria mais atrapalhando do que ajudando. Assim, o board da empresa decidiu no dia 16 de janeiro, por unanimidade, que o CEO Richard Parsons será o novo chairman da companhia. Ele pega as rédeas da conturbada empresa no dia 16 de maio, durante a reunião anual de acionistas. A escolha já era esperada, e é considerada uma vitória do lado offline da empresa, que mal ou bem sustentou financeiramente a empresa desde a sua fusão.
Agora, justiça seja feita: só quem já tentou fazer negócios com a AOL no Brasil pode testemunhar o enorme nível de arrogância corporativa que permeava a empresa. Parece que ninguém estava | altura para fazer negócios com ela. E é justamente nos detalhes que o equívoco mais fica visível. ~I no tom de voz do gerente de parcerias ou nos seus “rã–rã, rã–rã” que mostram que não está nem aí para você. ~I no fato de ninguém nunca retornar uma ligação telefônica. ~I no fato de te passarem para quatro pessoas que afirmam ser a única responsável por determinada linha de negócio. ~I na fraca desculpa apresentada para justificar a falta de um serviço que o concorrente tem como default. Assim, exceto pelos empregos que certamente serão perdidos quando a AOL deixar o país (o que deverá acontecer até o fim deste ano), poucos sentirão a sua falta. E eu menos. [Webinsider]
