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Feliz ano novo, companheiro!

06 de janeiro de 2003, 0:00

Porque 2003 vai ser um ano sensacional.

Por Michel Lent Schwartzman

São 7:07 am. Meu gato Garibaldo acaba de finalizar seu micro período de colo matinal e pulou pro chão. Todo dia de manhã é do mesmo jeito. Bicho cheio de mania o gato. Eu acordo, ele também. Se roça no meu pé, vem atrás de mim pela casa. Pega o jornal comigo, me segue até o computador onde vou abrindo o e–mail enquanto passo o olho na primeira página. Me pede colo com a patinha. Ele não sobe sozinho não. Eu preciso pegar ele, virar, e colocar no meu colo onde ele fica, em média, de 3 a 8 minutos. Depois cansa e cai pro chão, assim de repente. E amanhã vai ser tudo de novo.



É 2003. Já faz um tanto de tempo que eu não dava as caras por aqui e estava com saudades. Mas pra mim, escrever é sempre um ato de necessidade e impulsão. Não consigo colocar uma crônica pra fora aos poucos. É preciso que ela esteja na garganta. É preciso sentar e cuspir ela de uma vez, sem freios nem distrações. E já faz um tanto de tempo que eu não tinha pra dizer o que eu tenho pra dizer nessa manhã.



Hoje é meu primeiro dia de trabalho no ano. O primeiro para muitos. E, como há muito não sentia, aquela excitação que eu sentia nos primeiros dias de aula no colégio, a cada ano. Excitado com tudo de novo que estava por vir, conhecer, fazer.



Dentro de pouco menos de duas horas, vou estar entrando no escritório da 10’ pra começar 2003.



Desde a fazenda de uma amiga em Posse, cidade no estado do Rio de Janeiro, eu assisti à Posse do nosso presidente Lula, a quem delicadamente, pedi emprestado o título para este artigo. Passei o fim de ano brincando com o trocadilho de que ia passar o final de ano em Posse (e não NA posse).



E a partir de Lula, vem meu primeiro motivo pra acreditar que 2003 vai ser um ano sensacional.



Alto lá. Sem radicalizações nem contra nem a favor. Por estar em Sampa e não ter transferido o meu título do Rio pra cá, acabei me liberando da responsabilidade de ter que fazer a terrível escolha entre Lula e Serra na final. Vamos combinar que não foi uma escolha fácil pra ninguém. Não era, digamos assim, Lula e Collor na final, onde fui até pra Rocinha fazer corpo a corpo pelo PT.



Porque me esquivei da decisão, falo até mais confortavelmente. Lula vai ser uma mudança extraordinária para o país. Um amadurecimento sem precedentes para nosso povo e nossa história. Faça ele um governo ótimo, bom, regular ou ruim, teremos uma tradicional esquerda que vai ter posto a mão na massa e isso é fundamental para o amadurecimento do país. Seremos então, todos mais sensatos, experientes.



Quem assistiu às imagens da posse (e quem não?) tem a consciência da felicidade do povo, sua esperança e seu pensamento positivo. E é o que eu sempre acreditei: pensar positivo e querer a mudança, o bem, é fundamental pra acontecer. Nunca vi o país assim. Nunca.



Em segundo lugar, uma coisa talvez ainda mais importante e mais específica para o nosso mercado, em que se deva acreditar, pra entender que 2003 vai ser um ano sensacional: a crise nos meios de comunicação não é econômica, é sistêmica.



OK, me explico.



A gigante Globo anda em crise. Quem diria que uma das maiores redes de TV do mundo (ainda é a 4ª?) fosse um dia estar em crise. As comissões são reduzidas, as agências demitem, enxugam, os salários no mercado publicitário diminuem. Cliente não quer fazer TV. Não quer fazer Veja. “Há menos grana circulando, é a crise” a maioria dos publicitários, mesmo os jovens, vai te dizer, como quem está esperando a questão de Israel com a Palestina e do Bush com o Iraque se resolver pra voltar a circular grana e o cliente voltar a anunciar no break do Fantástico.



Não é bem assim, companheiro publicitário. Seu meio mudou, seu ganha–pão nunca mais será o mesmo. E a “crise” a qual você se refere, não é uma crise de grana, mas uma crise de sistema, de formato.



Cliente não bota mais grana em TV aberta como costumava, porque TV aberta não dá mais retorno como costumava. Não dá mais retorno porque não está mais sozinha como antes. Não são mais cinco canais abertos onde um ou dois dá pra anunciar e pegar 70 milhões de pessoas. Agora são os cinco mais os novos 500 do satélite, mas todas as novas estações de rádio, mais todas as novas revistas, mais todos os novos painéis eletrônicos, mais as novidades de promoção dos pontos de venda, mais as sofisticação dos telemarketings, mais os canais de shopping, mais o TiVO, mais o SMS, mais o spam e mais a internet. Tudo isso brigando pelo mesmo bolo publicitário de antes. Em alguns casos, até um bolo maior e não menor. Mas o que sobra para os meios ‘tradicionais’ é significativamente menor. Com certeza é dai que vem boa parte da crise da gigante Globo e das suas irmãs gigantes mundo afora.



Dentro deste cenário, as antigas agências de formato antigo, ainda insistindo em fazer TV aberta, contra–capa de Veja, com seus antigos jovens publicitários, ficam a espera de que a ‘crise’ se resolva, enquanto folheiam a última edição da Wallpaper. Não dá pra contar mais com a mesma grana do mesmo jeito. A crise não vai se resolver por que não há crise: a mudança de formato e no novo formato o antigo formato está em crise. Não vai voltar a ser como era.



A antiga maneira de se viabilizar o conteúdo nos canais de comunicação sejam eles TV, rádio, revista, cabo, internet não funciona mais. A web veio servir como um tubo de ensaios para o que vai acontecer com o resto da mídia no mundo, até porque em determinado momento tudo vai ser uma coisa só: reclames não vão mais pagar pelo conteúdo, porque simplesmente teremos conteúdo e canais demais brigando por um mesmo bolo. É preciso que se encontre novas maneiras de viabilizar conteúdo e novas maneiras de atingir o consumidor com as mensagens. É preciso que se encontre novas maneiras de remunerar as agências. É preciso que se desenhem novas agências.



Como será este novo formato, este novo mercado? Como será o governo Lula? Não sei. Mas o que sei é que não vai dar mais pra gente ficar feito o Garibaldo, fazendo todo dia tudo sempre igual. E sei que é preciso acordar animado a cada dia e ir ao ataque, porque quem sabe faz agora, não espera acontecer.



Feliz ano novo, companheiro! [Webinsider]

Sobre o autor

Michel Lent SchwartzmanMichel Lent Schwartzman (michel@lent.com.br) é publicitário e especialista em mídias interativas.

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