Sobre a evolução do design de interfaces (2)
16 de dezembro de 2002, 0:00O debate entre estética e usabilidade na internet ainda é motivo de discussões acaloradas, mas tende a diminuir à medida que profissionais reconhecem os objetivos de um determinado website.
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No artigo anterior, vimos que websites, enquanto produtos de uso, poderiam ser configurados segundo a estética prático–funcional (ou seja, sites orientados principalmente à função, os quais se prestam bem para fazer uso de guidelines de usabilidade) ou simbólico–funcional (que tendem a explorar o lado mais subjetivo da navegação, muitas vezes criando experiências estéticas de forma a chamar a atenção do usuário).
Esta “estetitização” dos websites segue uma tendência histórica, similar a que aconteceu com os produtos de uso: com o aumento do número de empresas industriais concorrendo entre si, atuando nos mais diversos ramos industriais, e com o acesso de amplas camadas da população às posições sociais mais elevadas, com poder de compra cada vez maior – aumentando o mercado para produtos industriais –, os produtos industriais abundam de tal maneira, que em certas áreas podemos falar de uma saturação de mercado.
Como resultado, as empresas se vêem forçadas a atrair o interesse dos possíveis compradores, com a finalidade de manter sua posição no mercado e, se possível, ampliá–la. Notamos, ainda, que cada vez mais as empresas – devido à urgência de criar novos mercados – passam a fazer uso de estratégias de marketing de modo a estimularem as vendas. Em algumas empresas, tais estratégias são elaboradas por departamentos internos, como “Departamento de Vendas” ou “Departamento de Marketing”. No entanto, em outras – principalmente naquelas de grande faturamento e alcance mundial –, este trabalho fica ao encargo de agências de propaganda.
Estas agências, graças a um trabalho altamente especializado em pesquisa sobre tendências de mercado, sobre o perfil dos consumidores e na definição de estratégias de marketing, têm tido um papel fundamental no sucesso de vendas de produtos industriais, a ponto de que muitas delas, hoje, participam de forma ativa na – quando não são as principais responsáveis pela – construção da própria identidade corporativa das empresas que atendem.
Desta forma, as agências, no objetivo de ajudar na construção das marcas de empresas industriais, usam das mídias disponíveis – neste caso, veículos de comunicação – para transmitir mensagens de caráter coercitivo na forma de slogans e campanhas publicitárias. Entenda–se por “mídia” (de médium: meio), “veículo” ou “meio” formas de designar o elemento material que divulga a mensagem (SANT´ANNA, 1998).
Sendo assim, as mídias utilizadas nas campanhas passam a se tornar ferramentas para estabelecer relações simbólicas dos usuários com as marcas que fabricam seus produtos de uso. Enquanto mídia, a internet vem, então, somar a este repertório de ferramentas, criando mais uma oportunidade para que as agências criem novas formas de relacionamento das marcas com seus clientes.
As agências, fazendo uso de metodologias próprias da comunicação – como retórica, semiótica e lingüística – tentam, em muitas situações, apelar para o lado emocional do público–alvo das campanhas. Rob DeFlorio, diretor da Nike advertising, em seminário apresentado na Nike World Headquarters, em Portland, Oregon, frisou um recente slogan da Nike dizendo que a Nike não vende produtos. Nike inspira sonhos.
Desta forma, a internet enquanto mídia interativa, através de peças publicitárias interativas e websites conhecidos como institucionais, torna–se uma ferramenta estratégica das empresas para melhor posicioná–las perante o mercado, acrescentando valores à marca e diferenciando produtos. O site Nike Football é um belíssimo exemplo disto.
Reconhecer que a internet pode se comportar como mídia interativa, no entanto, não exclui a possibilidade de que os websites nela publicados possam ser configurados como um produto de uso, tanto prático–funcional como simbólico–funcional.
Pelo contrário: alguns das metodologias envolvidas no processo de criar produtos de uso são até comuns à criação de projetos em mídia interativa, como levantamento do perfil do público–alvo, verificação do repertório formal da audiência/usuário, prototipagem etc. Poderíamos até afirmar que configurar produtos segundo a estética simbólico–funcional e criar websites para agregar valores às marcas são práticas que – enquanto diversas em seus detalhes de execução – possuem o mesmo objetivo.
Quando voltamos à questão de usabilidade, no entanto, não podemos dizer o mesmo. Ao lembrarmos que usabilidade – como foi dito anteriormente – cuida da eficiência, eficácia e satisfação do usuário ao realizar tarefas, perdemos muitos dos parâmetros de comparação com a internet enquanto mídia publicitária: qual a tarefa que um usuário realiza ao consumir uma mensagem publicitária? Pode a usabilidade medir a eficiência com que uma peça publicitária agrega valor a uma marca?
Obviamente que alguns parâmetros da usabilidade, principalmente no tocante à ergonomia, permanecem: legibilidade, facilidade de apreensão e memorização das características da interface etc. Por outro lado, enquanto os guidelines de usabilidade se preocupam em maximizar tais fatores, designers – assim como outros publicitários – podem se dar ao luxo de serem mais “flexíveis”, pois o objetivo da mídia interativa não é mais simplesmente reduzir o estresse ou fadiga do usuário durante a navegação; assim como na publicidade convencional, para conseguir captar atenção do consumidor, os websites precisam se sobressair do “ruído” gerado pela miríade de outras mensagens publicitárias criadas pelos concorrentes.
De certa forma, contanto consigam prender a atenção ao usuário, designers podem até propositadamente minimizar as funções práticas de um website enquanto mídia interativa – ou até simplesmente ignorá–las – e priorizar a experiência estética durante a navegação, estabelecendo relações puramente simbólicas como o usuário.
Estética ou usabilidade: os fins justificam os meios
O conflito entre aplicações de estética e usabilidade na internet existe, não por que seus princípios são contraditórios, mas – sim – por que engenheiros de usabilidade e designers, em certas situações, divergem sobre quais estratégias devem adotar no momento de configurar websites.
Engenheiros de usabilidade, se partirem da premissa que as necessidades dos usuários são – na sua maioria – fundamentalmente práticas, criarão guidelines que priorizem aspectos objetivos durante a navegação: eficiência na realização de tarefas, redução do estresse/fadiga do usuário durante a realização destas tarefas, rapidez com que o usuário apreende os elementos da interface, minimização da quantidade de erros etc. Estes guidelines sugerem, no entanto, que, para a assegurar tal objetividade, é preciso sacrificar alguns aspectos da experiência estética do usuário, o que pode resultar em interfaces frias e impessoais, com as quais torna–se mais difícil desenvolver qualquer tipo de relação emocional. Sua aparência pode se tornar pobre em informação, e despertar pouco interesse.
Designers, se partirem da premissa que é preciso construir marcas na internet, desenvolvem interfaces que priorizam aspectos subjetivos durante navegação: agregar valores à marca/produto através mensagens de caráter coercitivo, estabelecendo relações fundamentalmente simbólicas com os usuários. Tal estratégia, na maioria dos casos, usa de meios estéticos de forma a diferenciar a marca/produto e criar vínculos emocionais com o usuário.
Vemos que, se para configurar websites, ambas as estratégias levam em consideração o usuário – seja ao facilitar a realização de suas tarefas, seja ao estabelecer com ele relações simbólico–funcionais –, engenheiros de usabilidade e designers entram em conflito no momento que percebem de forma diferente quais são os objetivos – agora, não mais dos usuários, mas, sim – dos websites.
Entretanto, não deveríamos falar – necessariamente – de uma dicotomia, pura e simplesmente, onde existiriam somente sites que são ou prático–funcionais, ou peças publicitárias. Ao invés disso, poderíamos falar de um gradiente onde encontraríamos as chamadas peças publicitárias interativas – cujos objetivos são predominantemente publicitários, como no caso do Nike Futebol – no extremo direito, e os sites de serviço, como no caso do Google – cujos objetivos são predominantemente práticos – no extremo esquerdo.
Distribuiríamos, ainda, os websites institucionais à meia distância do extremo direito do gradiente, visto que, ainda que visem agregar valores à marca/produto, precisam ser trazer informações úteis aos usuários, como no caso do site oficial do sistema operacional Windows XP.
Do outro lado do gradiente, à meia distância do extremo esquerdo, distribuiríamos, os sites de e–commerce, visto que, ainda que tenham uma função predominantemente prática de vender um produto, estes não podem descuidar da marca a quem pertencem, como no caso do site da
Chevrolet.
Ainda não vimos nem o começo
Este artigo não pretende encerrar uma discussão – entre estética e função – que foi iniciada no começo da era industrial, nem pretende advogar em prol da posição dos engenheiros de usabilidade em detrimento da postura dos designers e vice–versa. Este artigo trouxe um apanhado da discussão sobre estética e usabilidade, verificando que a tensão existente entre engenheiros de usabilidade e designers advém da discrepância como estes, em certas situações, percebem quais são objetivos de websites, o que implica em diferentes estratégias no tocante aos projetos de interfaces para internet.
Dito isto, a tensão entre designers e engenheiros de usabilidade tende a diminuir, à medida que profissionais de cada área reconhecem que, dado os objetivos de um determinado website, será preciso, em determinado momento, utilizar estratégias e – por conseguinte – metodologias de uma área de especialidade e, outro momento, de outra: designers, fazendo uso de metodologias tradicionais da usabilidade, poderiam tornar algumas das peças publicitárias interativas mais usáveis – se assim for necessário – e engenheiros de usabilidade, sendo mais sensíveis aos fatores subjetivos da navegação dos usuários, poderiam pensar onde seus guidelines deveriam ser mais flexíveis, contemplando as relações estético–simbólicas dos usuários com as interfaces.
Ainda mais: a medida que os limites das novas mídias vão sendo explorados, o limite entre sites orientados a função e sites orientados a construção de marcas tende a ficar cada vez mais tênue, principalmente quando as agências de publicidade passam a trabalhar a comunicação de seus clientes de uma forma global, como no caso do site do Banco Itaú: nos quiosques 24horas ou no site podemos realizar todas as operações que num banco físico (e até mais); no entanto, não deixa de ser uma peça publicitária, antenada com a imagem do banco veiculada nas campanhas de TV, impressas etc… [Webinsider]


1° Andre Data: 16/09/2006 às 4:20 am
Atividade:
Cidade: Salvbador
é gostei muito dos comentarios de evolução do design de interfaces (2), achei bem interesante do que os outros que li……….