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René de Paula Jr
Página 3

Falando em código

04 de dezembro de 2002, 0:00

Sobre conduta e ética no nosso métier.

Por René de Paula Jr

Cinco da tarde o estúdio era nosso, sempre. E estúdio lá na TV era sempre disputado a tapas: por mais que você se programasse, o tempo nunca era suficiente, e dá–lhe negociar míseros minutinhos com o próximo da fila.



Subi para a sala do switcher com minhas fitas debaixo do braço, e me deparei com o estúdio ainda ocupado. Como eu podia esperar um pouco, entrei discretamente. Fiz bem. O que ouvi ali valia ouro.



Décio Pignatari estava sendo entrevistado, e dizia algo muito bem sacado: todos e cada um de nós têm um vocabulário afetivo, uma gramática afetiva, uma linguagem emocional. Teus gestos e sentimentos e reações podem ter um significado completamente diferente para alguém cujo coração fala outra língua. E quando você encontra alguém que entende sua linguagem amorosa, é o céu.



Gostei dessa idéia. Pensei em milhares de desentendimentos e cabeçadas minhas causadas por, digamos, “discrepâncias semânticas emocionais”. (Anote essa, pode ser útil no dia em que você namorar semióticos)



Gosto da idéia de haver códigos, muitos códigos, quase todos traduzíveis, nem todos maduros, alguns mais perenes, códigos que você pode e deve aprender.



Nosso métier envolve uma série de códigos, nem sempre tão elegantes ou estruturados quanto html ou php. Códigos de conduta, de ética, códigos jamais documentados mas que têm força de lei.



Alguns desses códigos você só descobre quando os desrespeita. Um exemplo: você, diretor de arte, veste um terno e gravata e vai apresentar a um cliente novo o primeiro layout. Rejeição na certa. Se você tivesse cabelo colorido, roupa de brechó, óculos fashion e um tom de inquestionável sapiência, o layout teria muito mais chances.



Por que isso? O mundo é injusto? Não. Códigos. Na cabeça do cliente careta criativos são criaturas bizarras, que falam outra língua, que tem argumentos contra os quais eles não tem referência. Se você parecer “normal”, o equilíbrio de forças muda a favor dele.



Idem para atendimento. Tente fazer credenciais com a barba por fazer, camisa havaiana e um sincero “Ou não…” no final da argumentação. Suicídio, mesmo que a proposta que você tinha pra mostrar fosse impecável.



Códigos.



Não se iluda, porém. Criativos são tão preconceituosos quanto. Mesmo os mais descolados e modernos vão avaliar você de alto a baixo num piscar de olhos e, ao menor erro no código (a melodia do teu celular, por exemplo), vão te tratar como paisagem pro resto da vida.



Mas não se apoquente: contra códigos não adianta lamúria, o jeito é estarmos atentos sempre.



Preste atenção, por exemplo, em colegas nossos de métier. Conheci gente brilhante com quem eu jamais trabalharia por perceber que não tínhamos o mesmo código de ética. Ou por desconfiar que o guru ali diante de mim era um contraventor contumaz dos códigos básicos de profissionalismo e trabalho em equipe. Já escolhi profissionais pela certeza de que falávamos a mesma língua em termos de postura e comprometimento.



O que acabou fazendo a diferença entre o sucesso ou fracasso de muito interativo não foi necessariamente competência técnica: foi dominar alguns códigos essenciais, como atitude, responsabilidade, hombridade, ou então o código milenar da farsa, do puxa–saquismo, da tramóia.



Observe os gurus de plantão e faça engenharia reversa: que códigos ele está empregando para impressionar? Ele incorporou algum estereótipo manjado para se vender melhor? O que ele fala é tão impactante quanto como ele fala ou do que o seu mise–en–scène? Será que o código que ele usa não está envelhecendo?



E códigos envelhecem? Será que eles morrem? Boa pergunta. O que eu sei é que, enquanto vivem, códigos são promíscuos pacas. Pense na religiosidade brasileira: não bastasse o catolicismo ser uma colagem de códigos e crenças, veio o candomblé e fez uma salada ainda mais colorida. Códigos engolem, mastigam e digerem outros códigos. Códigos novos se fantasiam de códigos mais antigos para se infiltrar.



Eu sempre achei que esse nosso ofício tinha um código inédito, ou pelo menos abria as portas para algo diferente. Eu ansiava por mais transparência, maior autonomia, maior pluralidade, e torcia para que esse código novo tornasse a desonestidade muito mais difícil.



Não demorou para que eu me frustrasse. O paraíso original logo pululava de cobras e lobos em pele de cordeiro. E nossos clientes, inocentes ainda, morderam as piores maçãs possíveis. Agora nós, profissionais decentes, temos que pagar pelos pecados alheios.



Convenhamos: é complicado vender nosso trabalho. Quem compra nossos serviços não lê Wired, não compra Wallpaper. Ele tem dificuldade em avaliar nossa competência, e pode ser presa fácil de embustes. (você leu “O Homem que Falava Javanês”?)



Mais complicado ainda é que grande parte dos clientes já fez más escolhas, e agora está com dois pés atrás quando o assunto é internet. Por conta da irresponsabilidade de alguns, todos nós agora temos que reabrir caminhos. (Mas é disso que gostamos, não?)



Não perdi minha fé. Pelo contrário: fico em estado de graça ao ver que a energia vital, a fecundidade dessa plataforma continua a mesma. Pelas veias da internet correm cada vez mais fluxos de emoção, de contato, de negócios, de criatividade. Os sinais dessa potência estão por toda parte, é só prestar atenção. Ou procurar no Google. [Webinsider]


Sobre o autor

René de Paula JrRené de Paula Jr (rene@usina.com) é a pilha da lista Radinho e da Usina e mantém uma grande produção de podcasts.

Apoio:

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