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Os problemas do jornalismo instantâneo

14 de novembro de 2002, 0:00

Livro expõe paradoxos e fragilidades da grande imprensa surgidos com a produção cada vez mais rápida de notícias. A noção capitalista da notícia como produto de consumo não é uma boa idéia.

Por Nenhum

Iriz Medeiros



“Vocês aproveitem para pensar enquanto estão na universidade, porque, quando forem trabalhar em jornal, não vão ter mais tempo para isso”. A frase aí do lado foi dita por um jornalista durante uma palestra para estudantes de comunicação e citada por Sylvia Moretzsohn no trabalho de pesquisa que virou o livro Jornalismo em tempo real – o fetiche da velocidade, lançado este ano pela Editora Revan.



Pois eu digo que os jornalistas deveriam achar um tempinho para ler o trabalho de Sylvia e pensar, sim, um pouco nas questões e problemáticas expostas no livro e que, certamente, são vividas na prática por boa parte, se não a maioria, dos jornalistas do planeta hoje.



Como o próprio título do livro já diz, o tema principal é a velocidade de produção de notícias e informações por parte dos veículos de comunicação, seja no ramo da internet, do rádio, da TV ou do jornalismo impresso, e como essa exigência da velocidade vem afetando a qualidade do produto – pois no nosso mundo dito globalizado, a notícia já não passa de produto – ao público consumidor.



E é justamente essa idéia capitalista da notícia como produto de consumo que é confrontada por Sylvia Moretzsohn com o “ideal iluminista” de que a imprensa serve, acima de tudo, para dizer a verdade à população, prestando um serviço público e contribuindo para a construção de uma consciência crítica da realidade. Nessa confrontação de idéias, do que o jornalismo deveria ser, dentro de uma visão de comprometimento social, e o que realmente ele é hoje, obedecendo às ordens do mercado, é que surgem os diversos paradoxos da “sociedade da informação” moderna.



Um desses paradoxos é: como dizer a verdade, somente a verdade, dentro de um contexto onde a velocidade é o que mais importa? Porque é justamente essa pressa em dar a notícia (que às vezes pouca importância real tem) antes dos concorrentes que faz com que o público acabe pagando um certo preço pela rapidez, que é o recebimento de informações mal–apuradas, mal–escritas, quando não simplesmente inventadas. Paga–se, assim, o preço com a própria ignorância.



E não é só o público que paga um preço. Repórteres e editores vivem numa luta constante contra o tempo que até acabam cometendo erros, consultando sempre as mesmas fontes, padronizando textos e transmitindo informações imprecisas, justamente porque lhes é imposta, direta ou indiretamente, a idéia de que não têm tempo para pensar.



Não é à toa que a imprensa já não conquista grande credibilidade junto ao povo. Também não é à toa que a imprensa escrita vive hoje de manchetes chamativas e sensacionalistas. Na falta de um bom conteúdo, o jeito é apelar para os títulos. Daí um dos males da nossa época: a falta de informação e opinião num mundo inundado por palavras.



Pra finalizar essas poucas linhas de reflexão, uma frase do escritor Luís Fernando Veríssimo: “Vivemos num tempo maluco em que a informação é tão rápida que exige explicação instantânea e tão superficial que qualquer explicação serve.” [Webinsider]

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