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Fábio Fernandes
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Novidade: Flatland, ficção científica de 1884

22 de outubro de 2002, 0:00

Planolândia, admirado por Carl Sagan, finalmente ganha edição brasileira. Carregado de crítica social, descreve conceitos de forma brilhante e fala de um mundo desigual habitado por formas geométricas.

Por Fábio Fernandes

Quem tem mais de trinta anos deve se lembrar: na década de 1980, muito antes que o advento da TV a cabo desse aos brasileiros a oportunidade de assistir aos documentários de canais como o Discovery Channel, a Rede Globo fez história exibindo um programa científico anos–luz à frente do que se produzia na época.

Tratava–se de Cosmos, uma série em doze episódios apresentada pelo renomado astrônomo Carl Sagan. Baseada no livro de mesmo nome, Cosmos apresentava ao leigo conceitos de física e astronomia, e explicava de modo simples os mistérios do universo, utilizando todos os recursos audiovisuais de que a mídia eletrônica dispunha na época e contando com a capacidade invejável que Sagan tinha de ser didático sem ser chato.

Num dos episódios, Sagan explica a idéia de múltiplas dimensões recorrendo simplesmente a uma folha de papel e formas geométricas. Pegando um quadrado de cartolina e colocando–o sobre a folha, ele apresentava essa forma como uma criatura pertencente a um universo bidimensional. Colocando em seguida um cubo sobre a folha, ele explicava aos telespectadores que o cubo, por ser tridimensional, podia ver e interagir com o quadrado bidimensional, mas que o quadrado não poderia fazer o mesmo, pois seria incapaz de perceber a existência do cubo – ou, por outra: perceberia apenas a base do cubo como se fosse um quadrado idêntico a ele.

A divertida explanação de Sagan era uma homenagem a um livro escrito cerca de cem anos antes, e que formulava esses e outros conceitos de forma tão brilhante quanto a do astrônomo: Flatland, de Edwin A. Abbott. Finalmente publicado agora no Brasil pela Conrad como Planolândia, este livro – que é considerado por alguns um clássico da ficção científica – descreve exatamente a situação proposta por Sagan, numa aula não só de conceitos geométricos como também de crítica social.

O livro, narrado por um quadrado (!), descreve o mundo de Planolândia, habitado por criaturas de diversas formas geométricas. Não é um mundo perfeito nem harmônico: aos poucos, vamos descobrindo que a sociedade dessas criaturas se baseia quase que exclusivamente numa hierarquia em que as formas de mais lados são superiores. Quanto mais lados você tiver, melhor. Se for um círculo, então (que, como o quadrado lembra bem ao leitor distraído, nada mais é do que um polígono com um número extremamente grande de lados), você passa a fazer parte dos que dominam o mundo. Mas se tiver tido o azar de nascer um triângulo, que é a casta mais baixa entre os homens, não passará de um trabalhador braçal ou de um soldado. E se for uma mulher, então? Em Planolândia, mulheres não passam de linhas, e não têm direito algum, a não ser o de ficar em casa e ter filhos.

Embora o narrador aparentemente discorde de algumas coisas, como por exemplo o tratamento dado às mulheres, ele mostra que é um filho de sua sociedade, pois desconhece outros modos de agir… modos esses que lhe serão mostrados em dois confrontos que irão tirá–lo literalmente de seu eixo: uma incursão à terra de Linhalândia (terra de uma só dimensão, onde ele se confronta com diversos tipos de linhas) e o conflito mais aterrador de todos: o contato com uma esfera vinda da Espaçolândia, a terra das três dimensões. Essas revelações, que abalam a vida do quadrado, não só ensinam mais geometria através do método analógico, como são uma bela aula sobre preconceito e mentalidade retrógrada.

Plano sim, chato não. A esta altura, o leitor já percebe que o verdadeiro interesse de Abbott não consiste em dar lições de matemática (embora o faça muito bem e de maneira bastante clara), e que toda a história das formas geométricas é uma alegoria para criticar a sociedade vitoriana. Assim como, para citar um exemplo, Jonathan Swift, que em As Viagens de Gulliver ironizou o comportamento das classes sociais inglesas do século XVIII fazendo com que seu protagonista encontrasse criaturas fantásticas porém fora da realidade como os minúsculos liliputianos e os gigantes de Brobdignag, Abbott critica o sexismo e as instituições britânicas como o clero e a classe alta da forma que melhor lhe convinha (inclusive porque era ele próprio um clérigo): a alegoria. Não foi à toa que ele assinou a primeira edição com um pseudônimo bem característico: A. Square (que em inglês quer dizer simplesmente “um quadrado”). O sucesso do livro, contudo, foi tão grande, que Abbott logo em seguida lançou uma segunda edição assumindo a autoria.

Merecidamente: à primeira vista, Planolândia pode parecer uma narrativa literalmente chata, sem detalhes interessantes. Mas a narrativa de Abbott nada tem de, como se dizia antigamente, “quadrada”: ainda que didáticas, as explicações do “senhor quadrado” para todos os fenômenos deste mundo não tão diferente do nosso descem redondinhas. [Webinsider]

Sobre o autor

Fábio FernandesFábio Fernandes (zeroabsoluto@gmail.com) é jornalista, escritor e tradutor. Mantém o blog Pós-estranho.

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Palavras-chave relacionadas a este texto: [ TV, vídeo ] [ livros ] [ ambientes 3D ]

Comentários

2 pessoas comentaram o artigo "Novidade: Flatland, ficção científica de 1884"

Victor Westmann Data: 22/05/2008 às 10:47 pm

Atividade: Estudante

Cidade: São Paulo

Fiquei super interessado pelo livro!
Na verdade eu achei um link do portal ‘Domínio Público’ onde o governo federal disponibiliza obras que já caíram/estão em domínio público para download… quem tiver interesse em ler a obra no original, em inglês, vá para o seguinte endereço:

http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ph000007.pdf

Boa sorte.

Lakscaria Data: 18/07/2009 às 12:35 pm

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