O design, a exportação e a cegueira do Brasil
21 de outubro de 2002, 0:00Se o país quer exportar mais e competir, deve enfiar na cabeça que precisa investir em design, instrumento que agrega valor. Uma boa política neste sentido é excelente negócio para o Brasil.
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O governo brasileiro tem chamado bastante atenção para os benefícios trazidos pelas exportações. O que é bem lógico, tendo em vista as mudanças em nossa política cambial. Superávits na balança comercial sempre são notícias na imprensa.
Já foram criados cargos especiais para tentar reduzir o fundamentalismo burocrático tão característico de nossos governos. Mas para fazer com que o país exporte mais, é preciso mais do que reduzir a burocracia.
É preciso fazer com que os nossos produtos sejam competitivos lá fora. Até aí, nada de novo – governo, empresários e até vendedores de cachorro–quente sabem. O que poucos parecem saber é que para que os nossos produtos sejam competitivos lá fora, precisamos investir em design.
Cada vez mais, o design vem sendo identificado como um fator–chave à distinção entre empresas bem–sucedidas e empresas fracassadas. Como o design busca promover uma melhoria em produtos, processos e serviços, tornou–se prioridade de várias corporações internacionais.
Design é um instrumento para se agregar valor e para se encontrar diferenciais competitivos. Um processo de design é um processo de inovação. Buckminster Fuller, um famoso arquiteto e designer americano, dizia que o contrário do design é o caos.
O poder do design implica capacidade de atuar no todo. Em fazer com que todos os agentes de uma empresa (a infra–estrutura, os produtos, os processos, os serviços etc) traduzam uma imagem planejadamente coerente, e que caia bem aos olhos dos consumidores.
Existe todo um ciclo de explicações para a nossa cegueira quando o assunto é design.
Todos são culpados. O governo, que cerca os empresários de impostos e burocracias por todos os lados, e não possuem uma política de design séria para o país. Os empresários, que visam resultados a curtíssimos prazos e culpam o governo. Copiam produtos fabricados lá fora, que muitíssimas vezes não funcionam bem aqui, pois, para eles sai mais barato copiar do que inovar.
E assim, somos um país de pessoas criativas que não criam, mas que copiam.
Os profissionais de design, que nivelam orçamentos por baixo para sobreviver, e muitas vezes inseguros, acabam culpando as escolas pelo quanto não estão preparados. As escolas, que mal equipadas culpam o governo e empresários pela falta de recursos. Ainda não sendo capazes de fornecer cursos modernos que equilibrem as quatro dimensões do design – sociedade, arte, tecnologia, e ciência. E os alunos, que lêem muito pouco, e não conseguem se articular para exigir cursos mais adequados às novas realidades.
É evidente que esta é uma descrição simplista do problema, e que na realidade a coisa é bem mais complicada. Mas, o ponto que quero trazer é que este jogo de culpas tem conseqüências bastante negativas para disciplina do design em nosso país. E assim, perdemos mais um bonde para o futuro. Nesta confusão de culpas, até o significado do design fica destorcido.
Muitos parecem pensar que design é simplesmente um tratamento superficial, um tipo de cosmética formal. Ou que design é a mesma coisa que artesanato. Lamentavelmente, muita gente ainda pensa que design não é uma atividade séria e importante para o desenvolvimento de nossas empresas e nosso país. O pior é que muitas destas pessoas estão em lugar de liderança.
Ou seja, vai demorar muito tempo para desfazer o que está sendo feito. Vamos pagar muito caro por não saber o que é, e nem como utilizar, o design.
Em vez de adotarmos políticas tapa–buraco, temos que ter uma visão de onde queremos ir. O Brasil precisa de metas em diversas áreas e não de ôba–ôba. Exportar requer estratégias inteligentes, principalmente para pequenas e médias empresas, que correspondem com cerca de 60% da atividade comercial do nosso país.
Precisamos de políticas que se antecipem aos problemas, e que tenham um plano maior. É bom lembrar que a competição está apenas no começo – a China só está começando a acordar. Uma boa política de design é um excelente negócio para o Brasil. [Webinsider]
