Sobre a compulsão no uso da internet
16 de outubro de 2002, 0:00Pode ser tomado como indicador de sofrimento psíquico importante o fato de alguém ser compelido de forma inapelável a usar o computador e a internet de forma quase ininterrupta.
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Na vertigem da temporalidade online há muito deixou-se para trás o temor desmedido de que “trabalhar com computadores faz mal à saúde”. Hoje parece mais ou menos tácito que o mau uso de PCs - como, aliás, de qualquer outra coisa - é o que pode causar doenças, vide as mais comuns LER, dores de coluna etc. Aquele tipo de temor que acaba por mostrar-se infundado, costuma acompanhar os lançamentos eletro-eletrônicos. Fornos microondas e telefones celulares também já tiveram dias de inferno astral, quando seus detratores faziam circular boatos sobre tipos de câncer de altíssima malignidade e letalidade a que nos arriscaríamos por conseqüência de incorporar estes equipamentos em nosso cotidiano.
Gostaria, contudo, de abordar a articulação saúde–uso de PCs ainda por um outro viés: aquele no qual alguém é compelido de forma inapelável a usar o computador de forma quase ininterrupta que, quando suspensa bruscamente, é tanto mais dolorosa, o que pode ser tomado como indicadores de sofrimento psíquico importante.
Já há algum tempo me chamava a atenção na clínica com drogadictos o interesse que alguns desenvolvem por questões da informática. Vigora nesta clínica um certo paradigma simplório e simplificador, talvez, segundo o qual quanto maior o comprometimento, a gravidade do caso ou os períodos de crise subjetiva, maior o consumo de drogas, menor a motivação para qualquer tema ou atividade que não esteja diretamente relacionada à droga.
Daí minha curiosidade quanto ao fato de que alguns pacientes, ao se afastarem das drogas, passem a se debruçar com tanta dedicação aos computadores.. Vá lá que em 2002 PCs sejam indispensáveis e onipresentes na civilização ocidental.. Se considerarmos, ademais, que há falhas importantes no registro do simbólico para com estes pacientes, saúda–se qualquer movimento, ainda que sutil, de substituição. A tal ponto que algumas instituições de tratamento de dependência química busquem fechar parcerias com instituições de ensino de informática preconizando a reinserção social e a reabilitação que compõem o tratamento por esta via.
Ratifiquei esta linha de raciocínio até recentemente. Mas a clínica desestabiliza as certezas que estabelecemos. Devido ao constrangimento imposto pelo governo no consumo de energia elétrica, recebi um paciente num quadro franco de síndrome de abstinência – tremor nos lábios e membros superiores; taquicardia, respiração ofegante, boca seca, marcha algo vacilante, raciocínio embotado, irritabilidade, indisponibilidade acentuada para o trabalho de elaboração psíquica. Até aqui nada de novo. Já vira tantos outros assim. Não, pasmem, era um caso inédito! Tratava–se de abstinência por redução drástica do número de horas que ele levava conectado à internet, sem mais substância psicoativa.. Foi necessária prescrição medicamentosa para remitir esta sintomatologia de modo a que se pudesse escutar sobre a história de vida deste sujeito para quem insistia em diversos momentos um certo traço compulsivo que evoluiu da comida, para o trabalho, para dias e noites insones na web.
Atender este paciente vem me permitiu ressignificar muitas falas que escutei de tantos outros pacientes. Deixar as drogas em favor da rede, em que medida aponta a um avanço marcante em termos de simbolização, o que pressuporia o funcionamento das duas operações discursivas que configuram o registro do Simbólico, a metáfora e a metonímia? Ou esta passagem indicaria tão somente algum deslizamento para engendrar um “novo objeto” ainda bastante concreto, palpável substancial sobre o qual a compulsão venha a incidir? Trocar-se-ia assim a promessa sempre descumprida de um paraíso artificial por um paraíso virtual?
A compulsão à repetição
Em 1920, Freud postulou a compulsão à repetição como um dos conceitos fundamentais da psicanálise. Desde então a arquitetura de sua teoria se alterou em definitivo. O aparelho psíquico não se regula pelo princípio do prazer, descarregando qualquer excitação que o perturbe por excesso. A soberania da regulação se atribui a algo que está mais além do princípio, a compulsão à repetição. Este conceito limítrofe entre o Real e o Simbólico ordena e franqueia à possibilidade de sentido a cadeia significante, legitimando a marca do Outro que o sujeito recebeu como traço unário. Na tentativa de retornar ao mesmo, ao prazer mítico, originário que das Ding teria proporcionado, o que se encontra sempre é algo diferente.
A compulsão à repetição é, portanto, fato de estrutura constitutivo e constituinte do sujeito. Mas há uma nuance crucial a ser sublinhada quanto à questão que nos propusemos a pensar. A compulsão à repetição é da ordem do necessário, posto que modus operandi do inconsciente, quando têm lugar o recalque e a função paterna.
Dito de outro modo, a compulsão a repetir veiculada através das formações do inconsciente, já no campo da linguagem, tem uma dimensão precisa. Bem outro é o estatuto psíquico do que sucede com os chamados pacientes “compulsivos” quanto à comida, sexo, álcool, drogas, jogo, compras, internet… Dentre outros aspectos, eles repetem com os parcos recursos psíquicos de que dispõem, para quem que souber escutá-los, a necessidade de uma aposta do desejo do analista na invenção de uma clínica possível. [Webinsider]
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1° Maria Ines de Toledo Silva Data: 31/01/2009 às 9:52 am
Atividade: Pedagoga - Aposentada
Cidade: Niterói
Interessei-me pelo assunto por uma preocupação com meu neto. Ele tem paassado muitas horas no computador, jogando um tipo de jogo que o deixa totalmente absorto, a tal ponto de não conseguir parar de jogar. Ano passado ficou pela primeira vez em recuperação na escola e já passo a ver o caso como uma compulsão. Por isso, comecei a me interessar pelo assunto. Este artigo me orienta sobre o que já vinha observando, tendo em vista a falta de atenção e a função paterna que anda falha.