Minority Report: depois do filme, leia o livro
14 de outubro de 2002, 0:00Enfim Philip K. Dick volta às livrarias brasileiras – coletânea traz dez contos deliciosos do autor de textos que viraram filmes clássicos como Blader Runner, Vingador do Futuro, Matrix e Truman Show.
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É sempre complicado utilizar a expressão o melhor de quando se trata de Philip K. Dick. Não é fácil encontrar um texto mal escrito entre os quase cinqüenta romances e mais de uma centena de contos deste escritor americano de ficção científica morto há exatos vinte anos. Ao contrário de Isaac Asimov, que se interessava mais pelas idéias do que pela narrativa de suas histórias, Dick dava ênfase às emoções e às ações das pessoas. Mesmo ao explorar andróides e simulacros de formas de vida (décadas antes que o filósofo francês Jean Baudrillard fizesse o mesmo em seus ensaios), ele se distanciava dos ambientes frios e assépticos preferidos pelos autores de ficção científica de sua época e expunha a humanidade – com o que ela tem de mais confuso e caótico.
Agora, coincidentemente também vinte anos após o lançamento do filme o que tornou famoso no mundo inteiro, Blade Runner (adaptação de seu romance Do Androids Dream of Electric Sheep?), a Editora Record lança no Brasil uma coletânea especial de Dick, publicada nos Estados Unidos junto com o lançamento do filme de Steven Spielberg baseado em outra história do mesmo autor: Minority Report – a Nova Lei.
São dez contos bastante representativos da obra de Dick – outra coisa, aliás, muito complicada ao se falar dele, pois basicamente toda história sua tem como base uma indagação: o que é a realidade? É o caso, por exemplo, de um de seus contos mais famosos, Podemos recordar para você, por um preço razoável – também adaptado para o cinema como O Vingador do Futuro, de Paul Verhoeven. Nesta história, Douglas Quail, um trabalhador assalariado sem muitas ambições, deseja passar férias em Marte… mas como isso é caro demais, ele resolve implantar memórias falsas de que esteve no planeta vermelho. Só que, durante o processo de implante, ele descobre que na verdade já esteve lá, como agente secreto, e que suas memórias dessa época haviam sido todas apagadas: suas memórias atuais é que são as falsas.
Esse tipo de tema se repete quase sempre na obra de Dick, mas sempre com um tom novo a cada história, sem que isso torne as narrativas chatas ou previsíveis. Em A Formiga Elétrica e Impostor, por exemplo, o foco está na realidade do próprio protagonista: no primeiro conto, ao sofrer um acidente, Garson Poole descobre que não é humano, mas sim uma “formiga elétrica” (apelido de robôs no futuro), e tem que aprender a viver com isso. Já Spence Olham, na segunda história, é acusado de ser um espião alienígena infiltrado no meio de uma guerra interestelar, e tem que provar sua inocência a todo custo.
A paranóia é mais forte na melhor história da coletânea, que não é o conto–título: em A Segunda Variedade, quatro pessoas, num futuro em que a Terra foi praticamente toda devastada pela guerra entre americanos e soviéticos (não nos esqueçamos que a maioria destas histórias foi escrita na década de 1950, durante o auge da Guerra Fria), robôs de ataque criados por ambos os lados aprenderam a se mimetizar como seres humanos para penetrar em bunkers e matar o inimigo… que, depois de tantos anos de guerra, é literalmente qualquer ser de carne e osso que cruzar o caminho deles. A paranóia está na luta das quatro pessoas (um americano e três russos), que não se conhecem, para chegar a algum local seguro e nesse meio tempo tentar descobrir se algum de seus companheiros é um robô assassino disfarçado.
Entretanto, o clima de horror de A Segunda Variedade, digno de um episódio da série Além da Imaginação, não serve de anticlímax para o conto Minority Report, apesar das pequenas alterações em relação ao filme. No conto, o protagonista, John Anderton, longe de ser um galã como Tom Cruise, é um provecto senhor de meia–idade, e as cenas de perseguição não são tão alucinadas quanto no filme de Spielberg. Mas a paranóia está lá, e muito maior do que no filme: afinal, a Precrime, organização que prevê crimes antes que aconteçam, tem um raio de ação que supostamente abrange o país inteiro, e não uma cidade. O próprio Anderton criou o sistema trinta anos antes, e o considera à prova de falhas – até que ele próprio é acusado de um pré–crime.
Outro tema relacionado da predileção de Dick (e, segundo seu biógrafo, Lawrence Sutin, seu tema mais predileto) diz respeito à condição divina. Mas vista pelo prisma paranóico e atormentado de Dick: e se tudo o que você pensou por toda a sua vida a respeito de Deus estivesse errado? É o caso de A Fé de Nossos Pais, passado em um mundo totalitário dominado pelos maoístas mas que na verdade não passa de disfarce para a dominação de uma criatura alienígena pavorosa que pode ser o próprio Deus. Este tema se repetiria à exaustão na Trilogia Valis. Nestes livros – os últimos escritos por Dick – realidade e religiosidade se confundem, e somos levados a rever nossas crenças. Tudo ficção, é claro, embora a biografia de Dick deixe claro que ele acreditava em algumas das idéias.
No todo, a coletânea selecionada por Malcolm Edwards consegue ser um exemplo muito adequado do melhor de Philip K. Dick em matéria de contos. Seria ótimo que agora as editoras brasileiras lançassem os romances: Blade Runner e O Homem do Castelo Alto estão esgotados há anos, e Valis e The Transmigration of Timothy Archer, entre muitos outros, nem foram publicados no Brasil (embora quase toda a obra de Dick possa ser encontrada em edições portuguesas). Os fãs de filmes como Matrix e O Show de Truman (baseados em parte em conceitos dickianos) teriam a oportunidade de conhecer melhor essa figura muito louca que continua influenciando as cabeças pensantes em pleno início do século XXI. [Webinsider]
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