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Michel Lent Schwartzman
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A internet faz sentido

29 de setembro de 2002, 0:00

Saindo da ressaca da quebradeira, é hora de juntar os cacos e retomar os projetos com uma forte convicção nos guiando: tem que fazer sentido! Complicado? Acompanhe.

Por Michel Lent Schwartzman

Outro dia, finalmente consegui assistir ao Startup.com, filme/documentário que acompanhou uma turma de Nova York que largou seus empregos e foi atrás do sonho de montar sua empresa de internet com base em uma idéia “genial”.



Não precisava ter visto o filme para saber como é. Eu passei e tanta gente deste mercado passou pelo mesmo: o tufão dos investimentos milionários; a escalada do hype; a supervalorização das bolsas; a quebradeira.



O camarada no filme larga seu confortável emprego na Goldman & Sachs com um sorriso sabichão nos lábios de quem pensa “vou me dar bem”, dizendo: “estou indo começar minha própria empresa de internet!”. Oy–vey!

A empresa se chamaria GovWorks.com e teria como idéia base intermediar as transações burocráticas (pagamento de multas, impostos etc) entre as pessoas e o governo.

E eu sentado ali e pensando: “Mas que idéia idiota! Depende demais de terceiros e de variáveis externas! Não tem como fazer a integração destes sistemas de fora! Vão precisar fazer tudo na mão; receber, pagar, enviar comprovante! Não vai dar certo, que estúpidos!”

De fato, os caras passaram por uns 13 dos 15 grandes fundo de investimento até conseguir o seu primeiro round de uns tantos milhões e acabaram por fazer toda a história já bem perto do crash da Nasdaq de 14 de maio de 2000.

Fácil eu dizer hoje “mas que idéia idiota”, apesar de já naquela época a idéia parecia bem ruim para muitos, mas essa não era a regra comum. O comum era qualquer pessoa chegar com a idéia mais estapafúrdia, onde qualquer um deveria dizer “mas que idéia idiota”, mas ninguém dizia “mas que idéia idiota”, por que se tratava da internet. E na internet, meu amigo, aaahhh era tudo “diferente”.

E assim fomos. Tocando empresas, projetos, investimentos, departamentos, veículos, contratando feito loucos, com salários insanos, fazendo tudo o que não fazia sentido e era “uma idéia idiota” para qualquer pessoa de negócios, sem nos preocuparmos, pois afinal estávamos na internet e na internet, aaahhh era tudo diferente.

Hoje, entrando já pela metade do segundo semestre de 2002, ficam bem claras as cicatrizes que este período nos deixou. Nos telefonemas, conversas e reuniões de prospecção, histórias terríveis de projetos absolutamente sem sentido e suas vítimas traumatizadas. As promessas alucinadas, baseadas no ar, que se aproveitavam da total ignorância de todos para supervalorizar projetos de forma milionária. Um tempo sem sentido onde qualquer bobagem custava “um milhão”. Uma época onde nada se conhecia mas todos corriam, ignorantes, sem saber para onde, acreditando num hype coletivo criado e retro–alimentado por todos.

Falar a palavra “internet” hoje é praticamente um pecado. É como se você realmente estivesse gritando no ouvido de alguém com aquela baita ressaca. As pessoas não querem nem ouvir falar de tão traumatizadas que estão. Todos têm sempre uma péssima experiência por trás desta ressaca: uma loja de e–commerce que custou os tubos e não deu “resultado”; outro que construiu um mega–portal de conteúdo para sua empresa e não de “resultado”; aquela empresa menor que gastou algumas centenas de milhares para fazer seu site para aparecer “bonito” na internet e que não teve “resultado”. Enfim, um bando de enfurecidos que não querem ver a tal internet nem pintada de ouro.

Ou melhor, não querem mais ver a tal internet pintada de ouro. Sim porque, no final, é essa a questão: pintaram a internet de ouro.

Quando qualquer pessoa normal olhava para aquilo e dizia “não faz sentido”, a turma dizia “imagina, na internet tudo é diferente”. Quando qualquer pessoa normal perguntava “mas vai dar resultado?”, a turma dizia “claro, isso aqui é a internet”.

Pois bem, aprendemos: não, na internet não é diferente. se não faz sentido, não faz sentido mesmo.

Sem mais click–troughs, eye–balls, pageviews, c2e, e2b, eCommunity, eLearning, user retainance, tracking, cooking, beating. O recado é simples. Precisa fazer sentido, não importa se o meio é internet, radinho de pilha, ou camarada vestido de verde com capa azul andando de patins numa via principal. Estranha ou simples, a idéia precisa fazer sentido onde quer que esteja, de forma clara e simples, com um “resultado” que a gente consiga entender e ver.

E assim temos feito e continuado no nosso trabalho de “reconstrução” do mercado de internet. Como enfermeiros, ou psicólogos, de cliente em cliente, botando abaixo a mística da internet, espanando para fora toda a carga residual de “bullshitagem” que ainda ficou e procurando trazer aos poucos a turma para esse meio que elas tanto admiram e usam (sim, a internet nunca parou de crescer nesse tempo todo), mas de uma maneira menos “idéia idiota”, onde os “resultados” existam de verdade e possam ser compreendidos, tendo sempre uma coisa na cabeça: pra fazer sentido, a internet tem que fazer sentido!

O que fazer para conseguir este “sentido”? De que maneira se reorganizar? Que projeto seria adequado para o seu momento? Ah, pergunte–me como! [Webinsider]

Sobre o autor

Michel Lent SchwartzmanMichel Lent Schwartzman (michel@lent.com.br) é publicitário e especialista em mídias interativas.

Apoio:

  • LayerDev Serviços de Webhosting Profissional

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