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Criador de Sandman lança livro ótimo

31 de julho de 2002, 0:00

Neil Gaiman, dos quadrinhos, lança no Brasil um dos melhores livros de ficção do ano, Deuses Americanos. Um mortal entra de gaiato numa briga entre deuses antigos e dois modernos, Mídia e Tecnologia.

Por Nenhum

Fábio Fernandes

Se as histórias em quadrinhos têm uma boa reputação hoje, isto se deve em grande parte a três nomes que surgiram na década de 1980: Frank Miller, Alan Moore e Neil Gaiman. O americano Miller, por sua já clássica saga Batman: o Cavaleiro das Trevas; o inglês Moore, por uma série de histórias premiadas mundialmente, entre as quais Watchmen e Do Inferno. Gaiman, conterrâneo de Moore, é o criador de uma das séries de histórias em quadrinhos mais aclamadas de todos os tempos, Sandman.

Miller e Moore continuam fazendo quadrinhos – e dos bons: o primeiro acaba de escrever e desenhar a continuação de O Cavaleiro das Trevas, The Dark Knight Strikes Again; Alan Moore, que nos últimos tempos tem se aprofundado no mundo da bruxaria e do xamanismo, explora religião e mitologia na HQ Promethea.

Gaiman, entretanto, nos últimos anos resolveu enveredar por um caminho mais pedregoso e complicado que o dos quadrinhos.

Depois de uma primeira tentativa, o interessante Belas Maldições (Bertrand Brasil), escrito em parceria com o autor de fantasia Terry Pratchett, em seu primeiro livro solo, Deuses Americanos (Conrad Editora), Gaiman escreve um texto de fôlego sobre o que aconteceria se os deuses caminhassem sobre a terra. Deuses mesmo: orixás africanos, deuses astecas, entidades sumérias, mitos nórdicos. Sabiamente, Gaiman decidiu não enveredar pela questão monoteísta aventando alguma possibilidade a respeito do Deus judaico–cristão–muçulmano. Nem Deus, nem Javé nem Alá entram na história – mas o resto entra. Juntamente com o mortal americano Shadow, que entra de gaiato numa aventura que vai mudar a sua vida.

Depois de passar três anos na prisão, Shadow volta ao mundo exterior para descobrir que não tem para onde ir: sua mulher morreu num acidente de carro e ele não tem dinheiro nem casa. É então que ele é abordado por um misterioso homem conhecido como Wednesday, que lhe oferece um serviço diferente de tudo o que ele já fez na vida: trabalhar como segurança de um deus.

Não é um trabalho fácil, como percebe Shadow depois de algumas atribulações. Por baixo dos panos, nos bastidores da vida cotidiana, uma tempestade se aproxima. Duas facções de deuses estão para entrar em guerra. São os deuses ancestrais da humanidade contra as novas entidades que querem tomar o mundo de uma vez: a Mídia, a Tecnologia e tudo o que existe de mais moderno.

Os deuses americanos, segundo o evangelho de Gaiman, não são exclusivamente bons nem maus: eles agem de acordo com suas necessidades. E ai dos humanos que forem apanhados no meio do turbilhão. Shadow se vira como pode no fogo cruzado, e descobre que, longe de ser um simples peão descartável, acaba se tornando uma peça–chave no jogo. Cabe a ele dar o golpe de misericórdia que poderá impedir a guerra – e ao mesmo tempo descobrir qual o seu papel no mundo.

O que Neil Gaiman consegue na literatura é privilégio de poucos, como Thomas Pynchon, por exemplo: ele é capaz de misturar no mesmo caldeirão referências como os escritores beatniks, o mitólogo Mircea Eliade e autores de ficção científica underground como Harlan Ellison e Gene Wolfe. Autores pouco lidos no Brasil, diga–se de passagem, mas cuja leitura o mix de referências de Gaiman torna imprescindível.

Recentemente, ele também aderiu à febre dos blogs (confiram aqui),
onde, com elegância e simpatia, responde perguntas de leitores e dá informações em primeira mão sobre lançamentos e noites de autógrafos. Para os públicos americano e europeu, Gaiman já está oferecendo outro livro, o romance de fantasia Coraline.

Mas, enquanto Coraline não chega ao Brasil, o leitor tem um prato cheio para saborear com Deuses Americanos. Como se não bastassem todos os muitos exemplos dos precursores Stephen King e Clive Barker, Deuses Americanos é a prova de que horror e fantasia dão boa literatura. Daria um bom filme. [Webinsider]

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