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Numeração incômoda

01 de julho de 2002, 0:00

“Não somos ladrões”, diz diretor de gravadora. Público diz o mesmo de CDs protegidos.

Por Alvaro de Castro

De acordo com notícia publicada na Folha de São Paulo, o presidente da gravadora Abril Music e diretor da Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD), Marcos Maynard, afirmou que as gravadoras estão sendo “xingadas de ladrões pela lei”. Ele se refere ao projeto de lei da deputada Tânia Soares (PC do B–SE) que propõe a numeração de obras autorais como discos e livros para controlar a relação entre criadores, produtores e fabricantes de cultura.

Abusando de declarações grosseiras, reproduzidas na matéria, Maynard afirma que o texto da lei é analfabeto e que os senadores o aprovaram com desconhecimento de causa. Quando perguntado sobre porque a indústria demorou a perceber que poderia se tornar realidade um sentimento há muito desejado pela classe artística, ele afirma: “Nunca pensamos que essa coisa fosse levada a sério. Teremos que avisar a FHC que acabaram de destruir a música brasileira. Seremos como a República Dominicana e a Rússia, onde nem existe mais gravadora, tudo é pirata”. Falta saber a relação entre a numeração de discos e a pirataria existentes nesses países.

Segundo os cantores Lobão e Beth Carvalho, que defendem a numeração, o projeto de lei poderá ser sancionado em torno de quinze dias pelo presidente da República. Não haverá aumento no preço final do CD ou livro, pois a numeração custa centavos. E o artista não vai assinar cada cópia, mas lotes, em papel da Casa da Moeda. Sobre Lobão, o comentário de Maynard: “Esse menino precisa levar um pito, e vai levar”.

Estamos sendo xingados de ladrões! O curioso da história é que esse é exatamente o sentimento do público consumidor quanto aos recentes CDs com proteção antipirataria que a indústria está colocando e as atitudes enfrentadas contra os serviços P2P.

Os CDs com proteção provocam uma série de transtornos quando executados em computadores. Não há como saber se o disco possui ou não a proteção, pois não há aviso externo. O resultado são Macs travando, trilhas pulando etc.

Já os serviços P2Ps são reconhecidamente úteis na apresentação de músicas de outros países, épocas e artistas: material que decerto rádio ou loja de CDs nenhuma teria o interesse em vender ou divulgar. O recente fechamento do serviço Audiogalaxy tirou do ar também um número significativo de MP3s de bandas em crescimento e que utilizavam o serviço para promover o seu trabalho.

Além disso, países como o Canadá passaram a cobrar uma taxa sobre mídias virgens, de forma a compensar qualquer direito autoral perdido caso a mídia venha a ser usada para copiar material protegido por direito autoral.

Em todos estes casos, pagam justos por pecadores. A pessoa que comprou e pagou por um CD não consegue ouvi–lo direito. A banda independente que busca promoção não a consegue. A pessoa que compra um CD para fazer backup de outro pelo qual pagou (prática perfeitamente legal) acaba tendo que pagar extra pela mídia. [Webinsider]

Sobre o autor

Alvaro de Castro (acastro@kviar.com) é empreendedor.

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