O poder educativo do design no e-learning
17 de junho de 2002, 0:00O principal obstáculo para o processo de aprendizagem online eficaz é a falta de contato pessoal. Recursos gráficos e tecnológicos orientados pelos princípios de design e educação podem ajudar bastante.
Por
André Alves Silva e
Fabiana Bechara da Fonseca
O poder estético do design é extremamente reconhecido e seus poderes práticos, funcionais, lúdicos e dinâmicos também não são menos considerados. Além disso, há aqueles que reconhecem nele um caráter metódico e organizador, garantido por suas conhecidas estratégias de arquitetura da informação. E o seu poder educativo?
De forma simplista, muitos respondem a esta pergunta dizendo: ora, é claro que o poder educativo do design é reconhecido, afinal precisamos de estética, de praticidade, de algo lúdico e dinâmico para educar. No entanto, esta é uma união ingênua que atribui ao esforço gráfico apenas a função de um recurso, de auxílio, de mero coadjuvante na complexa atividade de educar.
Neste ensaio mergulharemos nessa união e tentaremos descobrir o verdadeiro poder educativo do design.
O que realmente estamos considerando como algo educativo?
Afinal, o que é educação? Com certeza conseguiríamos redigir inúmeros artigos sobre este tema: educação. Mas, para nosso mergulho, basta considerar a educação como inerente à natureza humana.
Nas sociedades mais primitivas ou nas mais avançadas podemos enumerar diversos fenômenos, ações ou comportamentos que se caracterizam como educativos, pois muitas foram as formas que a humanidade encontrou de se perpetuar, seja através da tradição, reprodução ou mesmo através das transformações de sua(s) sociedade(s).
Algo educativo, seria, portanto, uma ação, uma estratégia, um objeto, enfim, aquilo que garantisse o perpetuar, o fortalecer, o evoluir, o transformar de uma sociedade através da intenção expressa ou não de um indivíduo ou grupo sob outros indivíduos ou grupos.
Seja com o objetivo de reproduzir ou de transformar uma sociedade, estamos falando de uma dinâmica contínua da sociedade, a qual é inerente ao indivíduo ou sujeito o processo de aprendizagem, de construção do conhecimento, de assimilação de valores, conceitos e comportamentos.
Não é novidade para nenhum de nós que educar, ensinar, aprender, trocar, transmitir e muitos outros verbos caminham juntos. Porém, em nosso mergulho, iremos evitar nos deixar levar pelas correntezas das discussões sobre esses termos. Portanto, iremos seguir o caminho que une educação e design, e é neste ponto que encontramos a aprendizagem.
A aprendizagem ou o ato de aprender tem sido bastante estudado por muitas áreas do conhecimento, como a psicologia que, independente da linha teórica, considera–o um processo complexo.
Seja este processo de aprendizagem intencional ou não, sistematizado ou não, ele possui algumas características ou regras que nos permitem entendê–lo e começar a vislumbrar o poder educativo do design.
Muitos são os processos que influenciam, determinam e até impedem o processo de aprendizagem. Alguns com um caráter biológico marcante como é o caso da maturação – processo que diz respeito ao desenvolvimento do indivíduo. De forma superficial, podemos dizer que este processo acaba determinando se um processo específico de aprendizado pode ou não ocorrer.
Outro processo altamente relacionado com a aprendizagem se refere à linguagem, não só no que tange à sua aquisição e desenvolvimento – afinal muitos foram os teóricos como Piaget e Vygotsky que já apontaram a estreita relação entre linguagem e pensamento – como o que se refere à sua forma, seus estilos, ou seja, considerando linguagem como um conceito muito próximo da comunicação.
E já que falamos de pensamento, não podemos esquecer outro ponto marcante: a inteligência, o processo de desenvolvimento da inteligência, o funcionamento cognitivo do sujeito que exerce inúmeras influências no processo de construção do conhecimento. Além disso, não podemos deixar de falar das múltiplas inteligências que acabam por configurar toda uma estrutura de funcionamento que influencia diretamente a forma pela qual o processo de aprendizado será facilitado, diferindo assim de indivíduo a indivíduo.
O processo de pensamento ao lado da linguagem determinam como será processada mentalmente dada informação – assim estão diretamente relacionados com a aprendizagem – independente do conceito de aprendizagem que estivermos utilizando. Logo, chegamos a mais um processo de grande importância para o aprendizado: a memória. A maneira como as informações serão tratadas e armazenadas para posteriores utilizações é essencial para que o processo de construção do conhecimento se concretize.
Falamos, portanto, do lado biológico – a maturação, da forma de processamento e codificação das informações – linguagem e inteligência – e do armazenamento dessas informações – memória. Mas onde tudo isso começa? Este é, sem menosprezar os demais, um processo essencial para que a aprendizagem aconteça – a percepção. Essa é a entrada das informações, a forma como as acessamos, a forma com a qual interagimos com o mundo, com a realidade e através da dinâmica desses e outros processos somos capazes de entendê–la, transformá–la através de ações conscientes, isto é, construir conhecimento é transformar informações em ações.
Mas todo esse processo seria aparentemente simples se não houvesse algo mais humano, mais complexo. E nesta complexidade encontramos toda a influência que o meio ambiente exerce sobre o indivíduo, a força e o aspecto social de qualquer processo humano – no caso da aprendizagem conhecemos muito bem a importância da interação e da experimentação. E, é claro, o ponto alfa desta complexidade: a motivação.
Definir motivação tem sido um desafio, existem muitas teorias, mas todas encontram–se dizendo que motivação é aquilo que leva à ação, é uma força, uma energia que impulsiona. Logo, para que a ação de aprender ocorra é preciso motivação.
Ok! Mas onde entra o design nessa complexa integração de processos?
Muitas são as definições de design, no entanto podemos considerá–lo, em linhas gerais, um saber, uma prática à qual alguns atribuem uma função mais comercial e outros um papel artístico.
Não temos como objetivo discutir as funções deste saber, consideramos que todos os seus papéis ou funções, crenças e técnicas são de extremo valor desde que utilizados de forma equilibrada, consciente e contextualizada, isto é, coerente com a realidade da solução, do objeto ou daquilo que se pretende desenvolver.
Como vimos, a sociedade está sempre se reproduzindo ou se transformando através dos fenômenos educativos. Neste processo muitas descobertas e muitas mudanças foram realizadas, e assim presenciamos a necessidade constante de aprender. Nos tempos modernos essa necessidade tornou–se algo vital, a velocidade com que mudanças ocorrem, a quantidade de informações que nosso mundo nos exige parecem ter se multiplicado e, por isso, nos vemos constantemente intimados a aprender mais e mais e cada vez mais rápido. E a humanidade cria mais uma estratégia educativa – o e–learning.
E é neste ponto que identificamos a maior expressão da união educação e design. Não há mais tempo de revisar as aulas! Como não aprender ou assimilar esta informação hoje, pois sabemos que no ano seguinte o professor não irá repetir – as informações mudam! Não podemos nos lançar em cursos que não agregarão valor às nossas ações!
Essas e outras afirmativas reforçam a existência de uma metodologia educacional mais adequada à nossa realidade e que, focada em resultados, atinja seus objetivos de forma simples, clara e, principalmente veloz. A solução é simples, e qualquer educador a conhece: para garantir a eficácia do processo de aprendizagem a fim de atender às demandas de nosso tempo é necessário planejamento, é imprescindível a perfeita compreensão dos processos envolvidos na construção do conhecimento para se evitar as influências de variáveis que possam impedir seu sucesso além de garantir a eficiência e eficácia do aprendizado na velocidade exata.
E o principal aliado deste planejamento (de forma até redundante, pois podemos traduzi–lo desta forma) é o design. Lançando mão de seus elementos, o design favorece a ocorrência do processo de aprendizagem trabalhando ao lado das estratégias e princípios educacionais que garantam a construção do conhecimento.
A cor. Desta forma, através da adequada utilização da cor – um dos elementos mais significativos – e, principalmente, através do estudo e apresentação adequados das suas combinações, podemos influenciar o comportamento do indivíduo, assegurando condições adequadas para que os processos necessários se estabeleçam.
Ao adotarmos cores quentes (amarelo, vermelho, laranja, entre outras) damos um caráter mais ativo, estimulando o indivíduo; ou ao considerarmos um público mais sério, como os profissionais da área financeira, utilizamos tons frios; já no caso de um público infantil utilizamos as cores quentes em tons claros pois, segundo estudos, crianças tem mais facilidade de assimilar e memorizar tons claros.
O estudo da cor é essencial na construção de uma solução educacional para a adequação ao público, levando em consideração a linguagem, a maturação e a inteligência além de funcionar como uma das principais fontes de estimulação, contribuindo, assim, para a motivação.
É importante termos em mente os cuidados que devemos tomar nas combinações evitando associações inadequadas como tendências fúnebres ou agressivas, ou ainda carnavalescas demais; buscando sempre adequar esta seleção aos objetivos de aprendizagem propostos, sem perder de vista os objetivos do cliente e sua identidade visual.
Ao lado da utilização da cor encontramos na utilização, no tratamento e manipulação de imagens um grande aliado do design, garantindo seu poder educativo.
O que você assimila mais facilmente, uma imagem ou uma palavra escrita?
Essa é uma boa pergunta. Lembra–se de quando fomos alfabetizados? Nesta época nossos professores utilizavam as imagens, as representações gráficas dos objetos para podermos memorizá–los e depois associá–los com o texto. Este mesmo artifício pode e deve ser usado na educação de adultos, assim, em experiências em e–learning trabalhamos muito com imagens para a apresentação, fixação e até aprofundamento do conteúdo.
Além da utilização e adequação das imagens o comportamento das mesmas, e até mesmo o comportamento dos textos garantem às soluções um dinamismo essencial para a motivação e a percepção, assegurando o aprendizado. Assim são utilizados recursos como animações para chamar atenção, descontrair e, ao contrário do que muitos pensam, as animações devem ser utilizadas como estratégias educacionais auxiliando o processo de assimilação e fixação das informações.
A utilização de recursos tecnológicos também deve ter como propósito um complementar da experiência dando–lhe características interativas, e, principalmente, permitindo a interação entre indivíduo e conteúdo e os diferentes indivíduos que participam do E–learning. Sabemos que o principal obstáculo para que o processo de aprendizagem seja eficaz em uma experiência online, e, portanto, à distância, é a falta de interação social, de contato pessoal; acreditamos que, através da utilização e apresentação de recursos gráficos e tecnológicos, orientada pelos princípios de design e educação, minimize este obstáculo.
O encontro do design com a educação ultrapassa a questão da cor, da tipologia, das imagens e recursos, já que, através da arquitetura da informação, o primeiro se coloca em pé de igualdade com a segunda no que se refere ao planejamento e desenvolvimento de uma solução educacional completa de e–learning.
Mas o que é arquitetura de informação? Algumas pessoas pensam que ela foi descoberta agora, mas esse ponto de vista é um equívoco. A definição de arquitetura da informação é muito extensa e envolve vários conceitos, mas podemos sintetizar da seguinte forma: seu objetivo é organizar a informação, tornando a navegação do indivíduo o mais simples possível, permitindo o acesso às informações de forma facilitada e clara.
A arquitetura é um elemento indispensável na elaboração de uma solução, pois é com ela que estruturamos, ou melhor concretizamos, toda a metodologia que idealizamos para a solução a partir dos princípios educacionais aplicados.
Através da construção desta arquitetura identificamos e definimos quais são as áreas mais importantes da solução educacional, nas quais serão apresentadas as informações mais relevantes, isto é, aquelas que estão diretamente ligadas aos objetivos de aprendizagem. Como exemplo podemos pensar na hierarquia de valorização das diferentes áreas de apresentação das informações na tela – neste aspecto estamos trabalhando diretamente com o processo de percepção. Na valorização das áreas da tela devemos considerar, por exemplo, o sentido de leitura ocidental que é da esquerda para a direita, de cima para baixo, valorizando o quadrante direito superior da solução que deverá ser carregado com informações relevantes.
No entanto, a utilização da arquitetura da informação não favorece apenas à percepção, os demais processos também são considerados quando pensamos na navegação prevista na solução e os importantes princípios de usabilidade.
A navegação deve ser definida seguindo algumas condições como: localização de botões, padrões em links, fontes entre outros itens. Todas essas condições asseguram uma padronização à solução que concorre para a memorização, a percepção, a linguagem e, portanto para a aprendizagem.
Quando Jakob Nielsen começou a escrever sobre arquitetura da informação e usabilidade foi defendida, na época, a idéia de que não deveriam ser usadas imagens, cores e fontes diferentes na web. Tudo tinha que ser muito simples, como se fosse um livro na tela do computador. Essa teoria vem sendo quebrada, pois quando foi defendida contávamos com muitas limitações em termos tecnológicos, limitações essas não mais existentes. Além disso, o caráter amador da maioria das construções de sites e soluções educacionais da época reforçaram essa idéia de Nielsen.
Hoje o contexto é outro, nosso conhecimento sobre a aprendizagem uniu–se ao design flexibilizando e defendendo a utilização de diversos recursos, nossas limitações tecnológicas reduziram–se e ensaios e estudos como este nos mostram que já existe profissionalismo nesta área.
E é com profissionalismo, como uma postura de interdisciplinaridade que educação e design encontram–se criando soluções de e–learning de sucesso e adequadas à realidade de nosso tempo. Os desafios ainda são muitos, poucos são os profissionais que se permitem assumir esta postura interdisciplinar saindo de seus protegidos locais de detentores do saber educacional ou do saber sobre design e lançam–se neste mergulho complexo, polêmico e desafiador do encontro de dois saberes distintos.
Ainda nos deparamos com amadores e soluções pouco estruturadas que depõem contra o prestígio e a validade do e–learning. No entanto, podemos e devemos mudar esta realidade, transformá–la através desta união afinal, o poder educativo do design é uma poderosa arma para a melhoria e a evolução da sociedade através da educação. [Webinsider]


