Mire no peito: quando o inimigo é o próprio jogo
11 de junho de 2002, 0:00Nem todo mundo encara um game violento e depois vai dormir calminho. Um deles, no estilo jogos de primeira pessoa, trata de eliminar com hiper–realismo quem aparece pela frente. Uau, dá nos nervos.
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Depois de usar a Magnum 44, nem pensar na Colt 9mm. Cabem menos balas no pente, mas um tiro bem dado faz um estrago espetacular. Foi o que me salvou naquele beco logo atrás das ruínas da igreja em chamas. Meu reflexo foi rápido: o cara mal pulou na minha frente, eu o baleei. O braço direito foi arrancado e o infeliz caiu gemendo em franca hemorragia. Executei–o com mais um tiro e me apropriei da sua arma, um lança–chamas que se revelou uma pérola.
Calma, não estranhe. Sou eu mesmo, rené, o pacífico rené de sempre escrevendo essas mal tecladas linhas, e não um maníaco homicida. Pensando bem, serei eu mesmo?
Esse espetáculo de morte e dor, de armas e ódio, foi minha primeira aventura no mundo dos jogos inocentemente chamados de “primeira pessoa”. O nome inofensivo e quase irônico (pessoa? Que tal celerado?) vem do fato de você incorporar um personagem e enxergar e agir como se estivesse na pele (ou armadura, ou exo–esqueleto, ou uniforme) dele. Com o kit homicida completo, bien entendu.
No jogo em questão eu era um mercenário com armamento pesado e missões ainda mais pesadas. Algumas horas até aprender a andar, pular, correr, manusear rifles, pistolas e granadas. Nas horas que se seguiram (e que não foram poucas) o que aprendi foi sanguinolência e malícia.
Virtuais, é o que alguns diriam. O sangue virtual é, porém, como o shakespeariano: por mais que você lave as mãos, ele não sai.
Não demorou e comecei a ter dificuldades para dormir. Pesadelos foram o próximo passo.
Caí em mim. Eliminei sem piedade e sem mais delongas … O próprio jogo. Desinstalei e joguei fora o CD. O joystick está largado, empoeirando. Quero ver se esqueço o gosto pela matança.
É só um jogo, alguém vai dizer. Você jogou Space Invaders na adolescência e não se tornou um psicopata. Você assistiu Tom e Jerry e nunca queimou ninguém com ferro em brasa, nunca achatou a cara de ninguém com um golpe de frigideira. Claro que não.
Mas há um outro componente novo em jogo: o realismo. O hiper–realismo. O tiro em stereo surround, o joystick que vibra quando disparo a Uzzi, a agonia escandalosa dos baleados. Isso mexe com estruturas primárias, com instintos profundos.
Para piorar, o pior do hiper–realismo é o seu sub–realismo: você morre mas renasce, você mata mas não paga os pecados. É uma sub–lógica, uma lógica de répteis, um mundo que não passa do hipotálamo.
Nada contra jogos e games. Pelo contrário: leiam “Homo Ludens” do Huizinga e vejam que se há algo profundamente humano é o espírito de jogo: criar regras e jogar segundo as regras. A cultura humana inteira tem um forte componente lúdico. Há gente de primeira usando jogos e games para fins nobres, para entretenimento saudável, para revolucionar a educação, etc.
O que mata em certos games são as regras. Se as regras não são explícitas, pior ainda. Comecei aquele maldito jogo sem ler regra nenhuma. Rapidamente percebi que a regra era acumular poder destrutivo, se adiantar a oponentes com os mesmos poucos e pobres princípios, matar sempre. É isso que você aprende, um aprendizado profundo, quase visceral.
Serve pra alguma coisa, esse aprendizado? Minha capacidade de ser feliz ou bem–sucedido no mundo aumenta com isso? Se estivéssemos no século XII talvez. Ou na pré–história. Ou na Rocinha.
Eu quero aprender outras coisas. Quero resgatar o mamífero em mim, não o réptil. Quero aprender a me desarmar.
Quero estar alerta ao que é fecundo, ao que é vital, à beleza deliciosamente transitória. Quero aprender a desarmar armadilhas.
Quero aprender a detectar milagres.
E isso se aprende? Eu acredito que sim.
Estou jogando há alguns bons anos um jogo multi–usuário, que mistura o online e o offline. Ele é baseado em texto e suas regras ainda estão sendo escritas. Uma dessas regras é bastante original: um só ganha se todos ganham. E embora haja maldades aqui e ali, a torcida realmente organizada é a do bem comum.
Que jogo é esse? Não sei o nome ainda. Mas a cada e–mail que envio, a cada website que crio, a cada arquivo que compartilho, sei que estou jogando um jogo que começou milênios atrás, quando gregos inventaram uma tal de democracia.
(E se nossos caminhos se cruzarem não tenha dúvida: mire no peito). [Webinsider]
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1° maira Data: 01/08/2006 às 1:30 pm
Atividade: cu
Cidade: g v
esse e o pior site de jogos do mundo