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Criação

Sergio Kulpas
Tevê

A TV pós-moderna

07 de abril de 2002, 0:00

Moses Znaimer faz hoje a televisão de amanhã. Saiba como é.

Por Sergio Kulpas

Quem é Moses Znaimer? Digamos que Moses Znaimer inventou a TV pós–moderna, a televisão que (se tudo der certo) nossos filhos e sobrinhos estarão assistindo – e participando – em seus televisores de plasma ou polímeros emissores de luz (LEP).

Znaimer é um visionário que combina ousadia e pragmatismo – não é um teórico, é um prático. Canadense, admira o conterrâneo McLuhan – mas confessa que não leu seus livros. Enquanto McLuhan disse que “o meio é a mensagem”, o corolário de Znaimer diz que “o processo (da televisão) é o produto”.

Znaimer se formou Harvard, mas se graduou em filosofia e ciência política, e não em administração de empresas. Ele aprendeu negócios na prática. Um judeu que aos 13 anos de idade usou o dinheiro presenteado pelos parentes em seu “bar–mitzvah” para comprar a primeira tevê da família.

Há mais de 25 anos, o Moisés da nova TV desceu da montanha com idéias claras, pregando a sensatez para os sensatos. Nada de Tábuas da Lei, ou vacas sagradas. Depois de anos trabalhando na Canadian Broadcasting Corporation (CBC, a emissora estatal do Canadá), Znaimer compreendeu como não fazer televisão. A partir do contra–exemplo, se dedicou a reinventar o meio. Suas armas foram leveza, flexibilidade, juventude de espírito.

Em 1972, com um orçamento de US$ 970.000, Znaimer e sua jovem equipe (ele era o mais velho, com 29 anos) criaram a Citytv em Toronto. Sem muito dinheiro, a solução foi usar a cabeça. Abolir hierarquias, dogmas, gravatas, métodos, estúdios, os sofás da Hebe, abolir a própria Hebe. A equipe de um, de dois. As portas abertas. A mudança foi heterodoxa e causou incômodo no petrificado “establishment” da TV canadense.

A pergunta de Znaimer era: “Como é possível que a TV francesa se pareça tanto com a TV alemã, que por sua vez é parecida com a TV inglesa? Devem existir mais de 5.000 canais de TV no mundo e todos são virtualmente idênticos. Os programas são criados em salas fechadas e executados em locais artificiais chamados estúdios.”

Vencidas as dificuldades e rejeições iniciais, a população de Toronto percebeu que Znaimer havia criado uma emissora que, sendo privada, era mais pública que a emissora estatal. O dinheiro costuma seguir o interesse do público. O sucesso comercial do pequeno canal de Znaimer custou, mas veio.

Os oligopólios da televisão se esfarelaram. O cabo e a parabólica ampliaram a oferta de canais. Na Europa, a longa hegemonia dos estados nacionais no setor de telecomunicações está chegando ao fim, e não deixa saudades.

De hoje em diante, a lei de Moore também se aplicará à TV, já que nossos filhos e sobrinhos terão TV e computador numa coisa só. Câmeras e outros complementos já podem ser comprados em lojas comuns. Hoje, por cerca de US$ 50.000, qualquer um pode montar uma estação de TV mínima, com transmissor e tudo.

Enquanto entrevistava Znaimer, me lembrei de uma outra conversa interessante, com o escritor e ensaísta Bruce Sterling. Por trás de sua aparência relaxada, Bruce está sempre alerta, e não cai em ciladas. Num momento do nosso papo, perguntei quais meios de comunicação poderiam “morrer” devido à iminente digitalização e convergência das comunicações. Sterling respondeu que a “televisão” seria a primeira a afundar. Falou e fez as aspas com gestos. Para bom entendedor, a mímica basta.

O segredo, a “fórmula” da TV criada por Znaimer é a heresia, o quase terrorismo político e cultural que a origina. Ora, se houver mentes ativas, e se os meios físicos forem relativamente acessíveis…

Subversão pura, crua e vibrante. Ao ver um “tape” sobre a Citytv e suas emissoras irmãs, tive a impressão de que aqueles repórteres, âncoras, apresentadores e técnicos eram guerrilheiros em combate.

É muito difícil. Moses conta que as redes americanas tentaram várias vezes copiar – roubar – seu conceito. Os EUA tendem a ver o Canadá como uma província atrasada. As grandes redes empataram uma grana preta e seus “wonder kids”, formados nas melhores universidades. Os “wonder kids” se estreparam. Basta pensar na Globo tentando copiar o apelo “jovem” da MTV.

Integração e interação

A equipe de Znaimer ocupou um prédio antigo de cinco andares no centro de Toronto, no coração comercial e financeiro da cidade. O interior do edifício foi totalmente reformado para dar lugar a um conceito de “TV sem estúdio”. O prédio tem 35 “hidrantes”: plugues conjugados de áudio, vídeo, sincronização, intercom e iluminação, que se conectam a mais de 250 quilômetros de cabos sob o piso. Qualquer canto do edifício pode entrar no ar em questão de minutos. Qualquer coisa pode ocorrer em qualquer lugar, e se tornar parte da transmissão ao vivo.

Dezenas de câmeras automáticas espalhadas pela cidade formam o “Olho de Toronto”, que olha e grava acidentes, assaltos, mudanças climáticas –– contempla a cidade. Os carros de reportagem da emissora estampam as frases “A cidade é nossa redação!” e “Em Todos os Lugares!”.

Há o “Speaker’s Corner”: o cidadão entra numa cabine, enfia uma ficha e a câmera grava sua opinião sobre qualquer assunto, por um ou dois minutos. Se o material gravado levantar questões importantes para a cidade, o tema pode se transformar em pauta para o telejornalismo, ou servir de comentário para uma matéria já produzida.

O “Quick Tally” é um serviço de pesquisa computadorizada que pode gerenciar até 20.000 chamadas telefônicas por hora. O telejornalismo usa o serviço em votações sobre novas leis e questões que afetam a cidade. A votação serve de base para debates ao vivo de meia hora com autoridades, que convidam o espectador a enviar perguntas por telefone e email.

A TV do futuro será local, integrada e principalmente interativa. Microsoft, Sun, Motorola, IBM e outras grandes corporações, que estão bombeando rios de dinheiro na revolução física da TV, obviamente sonham com parceiros que acrescentem interesse e valor humano à essa extravagância da engenharia.

Não é novidade que muitos designers e webmasters sofrem de uma aguda inveja do meio televisão. É ruim quando usam seus talentos para emular na Web de hoje (limitada, mas dúctil) a televisão de ontem (petrificada em seus dogmas corporativos).

TV, Web, Web e TV. Não é WebTV, é a Citytv. Sem hierarquias, sem peso. Toda a tecnologia de ponta, somada às idéias “guerrilheiras”. Isso daria sentido à uma grade com quatrocentos canais: a TV urbana, a TV caipira, a TV subúrbio, TV bairro, TV quarteirão.

Os conceitos da CityTv e suas derivações (ChumCity, MuchMusic) estão se espalhando pelo mundo. Em vários países da Europa (Alemanha, Áustria, Noruega, Polônia) e na América do Sul (Argentina, Colômbia) canais “franqueados” estão fazendo sucesso.

Znaimer gosta de frases de impacto: “a TV é o triunfo da imagem sobre a palavra escrita”. Sem nunca desmerecer a literatura, a cultura do texto. “A TV me atinge quando fala o que aconteceu comigo, hoje”. “TV é fluxo, não é show. É processo, não é conclusão”. E também: “O problema não é TV demais. O problema é que existe muito da mesma TV”.

Pergunta: – Quais são suas previsões para a TV neste novo século?

Znaimer: Eu prevejo a contínua proliferação de canais e de escolhas – mais canais, mais métodos de transmissão. Ao mesmo tempo, paradoxalmente, haverá uma crescente integração dos negócios em conglomerados de comunicações cada vez maiores.

Ao mesmo tempo, eu vejo o crescimento paralelo e simultâneo na necessidade e atração do localismo, como uma reação à essa onda de consolidação. A TV local deve aumentar muito a sua importância, porque haverá uma forte necessidade por cultura local em um mundo de economias globais.

Tudo isso ocorrerá em meio aos mais espetaculares avanços tecnológicos: as imagens serão maiores, mais claras, mais realistas, o som envolverá o espectador de maneira totalmente imersiva. E telas se espalharão por todos os lugares; telas que servirão para o usuário como “visor” em um momento e “transmissor” no outro. Algumas pessoas estão usando o termo “transvisor” para descrever esse novo tipo de mídia interativa.

– Na sua opinião, mudou o foco da televisão, em comparação com o que era feito no passado?

Znaimer: No passado, quando o espectro de televisão estava pouco ocupado, a pergunta era: “Quem fala?”. No mundo de 200 canais digitais de TV, a nova pergunta é: “Quem ouve? Quem está prestando atenção?” A mídia moderna é temida e desejada pela sua capacidade de exercer influência. É inevitável que o futuro da publicidade comercial e do controle da agenda política pertencerá àqueles que melhor aplicarem o que eu chamo de “A Moderna Arte e Ciência da Persuasão”.

Mas sempre foi assim. Afinal de contas, a passagem do novo Milênio ocorreu porque algumas pessoas em Roma decidiram que a data que eles consideravam a mais importante na História deveria ser lembrada por todos, todos os dias e todos os anos, até o final dos tempos. Em termos de relações públicas, este é um feito difícil de ser superado.

– Mas essa persuasão não levaria a um controle totalitário?

Znaimer: Em uma sociedade sofisticada, o esforço de persuasão deve custar mais caro. Tem que ser assim. Se você não pode obrigar as pessoas, deve convencê–las ou seduzi–las, e isso requer tempo, esforços coordenados e dinheiro. Todos aqueles cujo trabalho é convencer você a comprar coisas ou idéias devem ter em mente que enquanto os preços da computação ou ligações interurbanas estão em queda, o custo de convencer as pessoas está em alta acentuada.

– A chegada da banda larga não acabaria com a TV que conhecemos?

Znaimer: Quando a tão anunciada conexão universal em banda larga for uma realidade, imagino que você poderá clicar na programação de TV como um website hoje, só que com maior profundidade nas informações. Mas isso não interessa a todos, nem todas as pessoas terão tempo para isso. Sempre haverá público para produtos de consumo passivo, produzidos por profissionais talentosos.

– O senhor declarou recentemente que a palavra impressa estava morta, que tinha perdido o lugar para a imagem da TV. O senhor realmente acredita nisso?

Znaimer: As publicações impressas não vão morrer, nunca. Repito: o jornal, a revista e o livro não vão morrer. Há muitos jornalistas e acadêmicos que me citam incorretamente. Eu nunca disse que “a imprensa está morta”. Eu não acredito nisso.

Eu acredito profundamente na escrita e na leitura, e na expansão de nossas atividades através de um mundo de livros e leitores. Em um programa especial sobre televisão, eu disse que a imagem substituiu a palavra como principal modelador da cultura. Disse que isso não é um catástrofe, a não ser para aqueles cuja renda, posição social e visão de mundo são determinadas pela palavra impressa. É o caso de muitos que trabalham em jornais, revistas e universidades. Eu não disse que a palavra impressa estava morta, nem fora de moda. Disse apenas que televisão ascendeu ao primeiro lugar entre as mídias, algo que parece cada vez mais inquestionável.

– Iniciativas como a CityTV representam o fim da “audiência de massa”?

Znaimer: Até recentemente, sociólogos e moralistas sociais se preocupavam com a “audiência monolítica de massa”, algo comparado a uma lavagem cerebral do público, que seria então escravizado por interesses comerciais e políticos. Bom, para começo de conversa, nunca existiu uma massa. Por conta própria, as pessoas buscam alternativas e quando surgem opções, a multidão se fragmenta em milhões de gostos e opiniões. Nas sociedades mais avançadas, a tendência é a luta individual pela própria identidade, por significados e auto–aperfeiçoamento.

– E como a idéia de comunidade se encaixa nessa visão?

Znaimer: A antiga necessidade por comunidade também se expressará, de modo menos destrutivo que no passado, através da reunião de indivíduos unidos para formar e reformar eventos. Muitos desses eventos são apresentados ao vivo pela TV: feriados, festas populares, desastres naturais e artificiais, espetáculos.

– O senhor continua otimista a respeito do futuro? Os recentes incidentes não podem indicar um fechamento em vez da abertura dos meios de comunicação?

Znaimer: Apesar da lamentável incidência de intolerância e violência em nossos tempos, é possível ver os contornos da Terceira Onda, onde o Novo Capitalismo e o Novo Socialismo convergirão para formar Sociedades Empreendedoras Pluralistas, com consciência.

Em um mundo pós–moderno, qual seria o papel da televisão? Eu acredito que o papel mais importante seria o de educação. Você não pode levar mais pessoas para A Educação; as salas estão todas lotadas. Então é hora de levar A Educação para as pessoas, completamente eletrônica. Estamos trabalhando recentemente com um conjunto de canais muito bem produzidos, que deverão confirmar o valor da televisão como ferramenta para o ensino, e que também servirão de conexão entre os espectadores e cursos reais, ministrados em instituições de ensino reconhecidas.

A televisão transformou a vida de todos homens, mulheres e crianças deste planeta. Nós usamos a TV para obter conhecimentos sobre o mundo, nosso trabalho, nossa diversão, nossas interações sociais. Agora, pela primeira vez, a história nos leva à dependência total de uma única tecnologia abrangente. Em conjunto com as telecomunicações (imagens, sons e dados), o apetite insaciável do mundo por Notícias, Entretenimento, Educação e Cultura vai confirmar que a televisão será o Negócio Central do novo milênio, e uma força muito poderosa em si. [Webinsider]

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Sobre o autor

Sergio KulpasSergio Kulpas (sergiokulpas@gmail.com) é jornalista e escritor.

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