Regrinhas
19 de março de 2002, 0:00Da arte de comer alcachofras e escrever e–mails.
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Folhas de alcachofra devem ser raspadas com os dentes de cima, no final da sopa; a etiqueta recomenda levantar delicadamente a borda do prato com o dedo indicador esquerdo, para recolher o restante; dizer saúde, quando alguém espirra é falta de educação; tirar o sapato debaixo da mesa, beijar a mão de uma senhora, dar a mão em restaurante e gargalhar em público, também. Tudo bobagem, porque feio mesmo é não comer direito, não ir a restaurante e não ter do que rir na vida.
O correio eletrônico também exige algumas regras de boas maneiras. Elas são básicas e, como as dos salões, são simples questão de bom senso: não mandar spam, piadas, arquivos executáveis, e–mails pesados, não escrever e–mails de mais de três parágrafos, esquecer o subject, deixar aparente a lista de pessoas copiadas, dar reply to all, etc.
Mas isso tudo é como lamber o fundo do prato de sopa e retocar o batom em público: não é tão grave. Grave mesmo é quando você escreve e não é entendido. Ou pior, é mal–entendido.
A revolução eletrônica teve uma coisa de bom: levou as pessoas de volta a suas aulas de português e desenferrujou a prática da escrita. No entanto, com freqüência escancarou uma dura verdade: as pessoas escrevem mal. Pior ainda: as pessoas não sabem se expressar, isto é, pensar de maneira ordenada.
Um e–mail é rápido, vai rápido e chega rápido. Não vivemos mais numa era contemplativa, mas velocista. Portanto, o português mal–escrito e cravejado de erros é ainda mais flagrantemente vergonhoso. Não há rascunho, dicionário, revisão. Escreveu e pum, mandou. Depois não dá mais pra correr atrás do carteiro. Tá lá aquele você devia de saber que dei o melhor de si.
Um e–mail é um documento por vezes doloroso. Sabe aqueles e–mails enormes, cheios de respostas e diálogos? Além de ser um clássico erro de etiqueta, muitas vezes a história foi crescendo como uma bola de neve e a tal ponto, que o final não tem mais nada a ver com o início.
Um e–mail pode engendrar enormes qüiproquós. Principalmente quando o autor tenta dar um toque pessoal ao texto, uma piada, uma ironia. Das duas uma: ou o sujeito não entende nada ou entende torto.
Mas eu tenho umas regrinhas que queria dividir com os leitores:
1. Faça um subject objetivo, sem piada e que sintetize o que você quer. Um bom subject dispensa até o corpo do e–mail.
2. Não escreva mais do que três parágrafos. Mais do que isso é chato, fica abaixo do scroll e demora para ser lido.
3. Comece escrevendo o nome do seu interlocutor. Se você não fizer isso, ele tenderá a achar que não é com ele.
4. No primeiro parágrafo, explique o problema e o que está acontecendo.
5. No segundo, dê a sua opinião e o que você acha do problema.
6. No terceiro descreva o que espera do destinatário e o que se irá fazer.
7. Escreva com frieza absoluta e sem muitos adjetivos. Poucos verbos, poucos advérbios também são desejáveis. Use abreviações compreensíveis.
8. Faça uma gracinha pessoal ao final. Algo que faça a pessoa sorrir, emocionar–se ou se enfurecer.
9. Assine. Dispense aquelas assinaturas default. É feio.
Aí vão dois exemplos. O primeiro de natureza profissional, e o outro, pessoal.
Subject: Redução da folha de pagamento
Rosimeire,
Estamos consumindo muitos clipes no escritório.
As pessoas estão usando p/ relaxar o estresse e limpar as unhas.
Mande embora quem você surpreender entortando um clipe.
Adorei seu cabelo!
Carlos
…..
Subject: Voulez vous coucher avec moi ce soir?
Rosi,
Você está irresistível.
Deve ser esse seu cabelo.
Por favor, venha jantar em casa hoje.
Je t´aime,
Carlos
Escrever e–mail é uma arte. Como escrever haikai. Como comer alcachofra. [Webinsider]


1° Lina Data: 18/07/2006 às 12:41 pm
Atividade: Secretária
Cidade: Lisboa - Portugal
Olá !
Tenho um amigo que é militar e quando ele me manda alguma mensagem é sempre em caixa alta e como se eu fosse um subordinado dele; só imperativos, nenhum “por favor”, ou “obrigada”, nada de nada! Parece que não sai da caserna !!
Apesar de já ter recebido na minha caixa, há já algum tempo, essas regras maravilhosas, de boa educação na net, deletei-as, uma vez que já as havia assimilado.
Lembrei-me delas e foi aí que constatei a falta que me fazem agora !!
Fiz a busca na net e descobri as suas “Regrinhas”.
Vou enviar para o meu amigo e citar a origem, que é para ele não levar a mal e nem pensar que só ele é que faz essas coisas horrorosas !!
Obrigada pelas “regrinhas” !
Lina.