Selvagem suposição
03 de março de 2002, 0:00Ousado palpite sobre o que serão os anos de 2002 e 2003 para o mercado de mídias interativas.
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Adoro brincar com as ferramentas de tradução, tipo a Babelfish do Altavista, para ver no que dá. As vezes é tão ruim, que mesmo a velha conhecida the cow went to the swamp (a vaca foi pro brejo) vira, no bicho, the cow was for brejo. Mas enfim, tem lá sua utilidade. Para batizar esse artigo, fui brincar com a expressão americanóide wild guess, que eu traduziria para palpite arriscado mas saiu como selvagem suposição. Adorei e batizei assim esse artigo.
Pois então vamos a algumas “selvagens suposições” sobre que aconteceu com nosso mercado e para onde penso que ele vai nos anos de 2002 e 2003.
“Abrimos” o ano no mês de fevereiro, ainda com gosto de cabo de guarda–chuva na boca. Num resto de ressaca assistimos às demissões em grandes empresas e um mercado calado, assustado, paralisado. Uma quantidade extraordinária de gente sem trabalho. Muita gente boa e competente, a espera de um sinal de mudança ou bote salva–vidas.
Para entender onde estamos e para onde vamos, acho importante analisar o que foi o fenômeno “bolha” da Nasdaq e fazer umas selvagens suposições. Como eu tenho a mania de falar rabiscando em papel, achei que seria legal criar um gráfico simples para ilustrar o que me parece ter acontecido com o mercado.
Atenção: esse gráfico é uma completa selvagem suposição, principalmente no que se refere a curva de demanda do mercado, já que há muito pouca informação disponível a esse respeito. As curvas de oferta e capital são um pouco mais confiáveis, mas também não estão baseadas em números reais, tendo sido usadas apenas em caráter ilustrativo.
Nesse gráfico, há três linhas representadas: a oferta de profissionais, o capital disponível e a real demanda do mercado por este tipo de serviço. Por demanda quero dizer o montante de trabalho que reflete em retorno financeiro.
Começando em 1995, o mercado reflete uma pequena diferença com mais trabalho disponível do que profissionais. É a época da desinformação e da falta de mão de obra especializada. A única função existente é a do webmaster.
Nos anos seguintes, até 1998, assistimos um progressivo aumento nas três linhas, com mais projetos, mais capital e mais profissionais disponíveis no mercado. É a época dos sobrinhos e da consolidação das médias e grandes produtoras.
A partir do ano de 1999, vemos uma grande distorção entre a real demanda do mercado e investimento disponível. Motivado pela perspectiva de ganhos astronômicos nas bolsas de valores, um montante extraordinário de capital é dirigido para os projetos de internet em todo o mundo. Essa enxurrada de dinheiro multiplica exponencialmente o número de empresas e profissionais no mercado interativo. Milhares de pessoas migram de outros mercados em busca de salários assombrosamente inflacionados.
Note bem que a demanda nesta época sofreria uma pequena aceleração, mas não acompanharia a curva de investimentos nem o crescimento do mercado. Ou seja, a grande bolha estava formada em torno de um capital especulativo e não em cima de retorno real.
Em 2000, a partir da metade do ano, os investimentos de risco começam a desaparecer espantados pelos primeiros resultados obtidos nas bolsas de valores. A queda nas ações das pontocom promove uma fuga de capital. No final desse ano o dinheiro se vai mais rápido do que veio. Centenas de empresas e milhares de profissionais em todo o mundo se encontram numa situação insustentável sem a irrigação do capital especulativo. Começam as demissões em massa e o desaparecimento das pontocom.
2001 afora, a ressaca depressiva do mercado interativo ultrapassa negativamente a linha de demanda. As empresas continuam a fechar e profissionais continuam a ser demitidos. A epidemia de quebradeiras e demissões é tanta, que acaba deixando o mercado tendo mais trabalho para ser feito do que gente empregada para fazer. Como conseqüência, as poucas empresas e profissionais contratados que restam, estão sobrecarregados de trabalho.
Em 2002, há ainda um movimento remanescente de reestruturação em algumas das empresas que trabalham com internet. Sobretudo naquelas que ainda não se ajustaram para a nova realidade do número de funcionários necessários e principalmente dos valores de mercado dos salários. Aquelas empresas que contrataram na alta e que hoje encontram uma disponibilidade de profissionais excepcional, com salários mais baixos. O movimento natural (o que não quer dizer que eu ache positivo) é que todos esses empregadores continuem a fazer isso até suas folhas de pagamento estejam adequadas à nova realidade.
Apesar deste final de reestruturação de mercado, é importante constatar que hoje existe uma demanda no mercado maior do que o número de empresas disponível para atendê–la. Isso faz com que aumente a quantidade de free–lancers e até o aumento de times in–house por parte de empresas que em outro momento eram clientes e contratavam o serviço de terceiros. Isso abre espaço para novas produtoras.
Levando tudo em consideração, para o restante do ano e 2003, faço a selvagem suposição de que teremos um reaquecimento do mercado de produtoras e das atividades do meio interativo de uma forma geral, ocupando um espaço que agora está basicamente se recuperando da ressaca. A tendência é que as três linhas do nosso gráfico voltem a andar juntas, como em 1998, mas agora em um patamar bem mais elevado. E quando isso voltar a acontecer, teremos um mercado com mais volume, muito mais estável, com crescimento gradual e sustentável.
Para encerrar, a última selvagem suposição. É muito importante entendermos bem a diferença entre o que tivemos em 1999 e 2000 e a nossa realidade de hoje. Por mais que o mercado melhore agora e nos próximos anos, simplesmente não vamos ter espaço para a quantidade de profissionais que temos disponíveis. O mercado esteve muito inchado e agora, por mais que ele melhore, simplesmente não vai ter espaço para tanta gente.
Isso fica muito claro quando olhamos o gráfico. Enquanto a linha verde não chegar na altura da vermelha de 2000, o mercado não vai ter como absorver toda aquela mão de obra. E isso vai demorar muito, ou talvez jamais aconteça.
Profissional demais e trabalho de menos, naturalmente faz com que os salários baixem consideravelmente, talvez até além do que deveriam baixar. É a simples lei da oferta e da procura, onde vamos ter mais profissionais disponíveis do que trabalho. Logo, há ainda a possibilidade de que os empregadores procurem oferecer salários mais baixos, principalmente para a turma com uma qualificação mais básica.
Mas, de positivo, fica a certeza de que não estamos mais vivendo uma crise. Não há mais grandes problemas com o mercado de internet a não ser o resto de ressaca do exagero que foram os anos de 1999 e 2000.
O mercado está ai. Chega de lamentações, mãos à obra! [Webinsider]
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