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Cidades, formigas e internet são semelhantes

11 de janeiro de 2002, 0:00

Novo livro de Steven Johnson explica a emergência, quando um sistema interconectado de elementos relativamente simples se auto–organiza para formar um comportamento mais inteligente e adaptável.

Por Nenhum

Fábio Fernandes

Colônias de formigas, cérebros, cidades e software: o que coisas aparentemente tão diferentes podem ter em comum? Segundo Steven Johnson, todos são sistemas que seguem as regras da emergência. O que é isso? A resposta pode ser encontrada em seu último livro, Emergence – the connected lives of ants, brains, cities, and software.

Autor do genial Cultura da Interface (Jorge Zahar Editora, 2001), em que analisava como a tecnologia altera a maneira como criamos e nos comunicamos, Johnson dá um passo ousado à frente e explica o que há por trás de conceitos como inteligência coletiva através da emergência, ou seja, o que acontece quando um sistema interconectado de elementos relativamente simples se auto–organiza para formar um comportamento mais inteligente, capaz de se adaptar às circunstâncias sem ajuda externa. É o que ocorre com as formigas, os neurônios do cérebro humano e até mesmo, em uma escala maior, com os indivíduos que habitam uma grande metrópole.

Em uma matéria escrita em outubro do ano passado para o jornal inglês The Guardian (leia leia aqui), Johnson resume seu livro em uma frase: “A regra mais simples de todos os sistemas sobre os quais falo no livro é: aprendam com seus vizinhos.”

Johnson explica que, assim como uma formiga altera seu comportamento com base no encontro com outras formigas, fazendo assim com que uma espécie de nível superior de consciência (ou, em suas palavras, “a ordem de nível superior da colônia”) predomine, o mesmo ocorre com os neurônios em nosso cérebro (um neurônio não funciona sozinho, mas depende do input dos neurônios com os quais está conectado para trabalhar). Essa organização de sistemas funciona até mesmo com as grandes cidades, que parecem se auto–regular com base no comportamento de seus indivíduos, compondo uma espécie de organismo vivo.

O grande mérito de Steven Johnson é que ele é um misto de historiador da ciência com detetive: para explicar o fenômeno da emergência, ele desenterra conceitos e estudos antigos (como o interessantíssimo livro de Jane Jacobs sobre o conceito de cidade grande nos Estados Unidos, The Death and Life of Great American Cities, que completou 40 anos em 2001) e investiga suas conexões com pesquisas que estão sendo realizadas neste exato momento, como o trabalho de Deborah Gordon com colônias de formigas na Universidade de Stanford ou a contribuição de jogos como The Sims para as pesquisas sobre inteligência artificial.

Emergence não é exatamente um livro de futurologia; o próprio Johnson dá o alerta ao falar sobre o “funcionamento” das cidades, lembrando que há menos de dez anos os futurólogos mais badalados proclamavam o fim da vida urbana, que seria provocado pela internet e sua capacidade de unir as pessoas nos pontos mais distantes do planeta. Como sabemos, isso não só não aconteceu como a vida urbana ficou ainda mais agitada.

Mas é claro que, mesmo com esse aviso ao leitor, Johnson não resistiu à tentação de dar o seu pitaco e lançar algumas previsões sobre o futuro próximo graças ao aumento das pesquisas sobre a emergência. Algumas delas – como o aumento da inteligência de sistemas de busca na internet – não chegam a ser profecias, mas extrapolações de situações que já acontecem no cotidiano dos usuários de computadores e equipamentos eletrônicos de última geração.

Outras, no entanto, como a previsão de que as emissoras de TV como nós a conhecemos irão acabar em aproximadamente cinco anos graças ao surgimento de novos aparelhos como o TiVo, uma mistura de videocassete com computador que pode não apenas salvar programas para serem assistidos no horário em que o espectador desejar como também pode filtrar a programação e eliminar comerciais, por exemplo (da mesma maneira que hoje em dia filtramos determinados endereços de e–mail em nossos browsers), não parecem lá muito viáveis.

Johnson parece se esquecer, ainda que apenas por um momento, de um fenômeno que não tem muito a ver com ciência mas tudo a ver com política: a formação de cartéis e a globalização da economia. Mas se Johnson talvez exagere nesse aspecto, compensa de sobra no resto.

Mais do que cientistas–escritores como Carl Sagan (que, apesar de todas as suas indiscutíveis qualidades, era um divulgador científico por demais concentrado em uma área de interesse – a astrofísica, com eventuais mergulhos na biologia), Steven Johnson abre o leque das ciências sem medo de misturar neurociência, teoria da evolução e estudos urbanos, demonstrando na prática que o discurso das últimas duas décadas sobre integração e interdisciplinaridade de fato funciona. O resultado é um livro curto e finíssimo, um verdadeiro mind–opener, como se diz em inglês: se você achou que Cultura da Interface mudou sua visão de mundo, espere para ler Emergence. [Webinsider]

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