O projeto que entendeu a circunferência
12 de novembro de 2001, 0:00A primeira geração da internet atravessa o estreito de Magalhães, o navegador que não terminou a viagem mas provou que a Terra é redonda. A comunicação entre interlocutores e receptores também é.
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Na estante perdida da biblioteca do meu clube, achei o livro antigo Fernão de Magalhães, de Stefan Zweig. Magalhães foi um português, que comandou a frota espanhola que saiu em 1519, de Sevilha, para descobrir uma passagem pelo Ocidente rumo ao Oriente.
Conseguiu. Passou pelo estreito, que leva seu nome, pelos lados da Patagônia, e parte da sua frota foi a primeira a dar a volta ao mundo (ele morreu pelo caminho).
Confirmou–se, assim, a teoria: a terra é realmente redonda! (Curiosos vejam mais sobre Magalhães em vidaslusofonas.pt.)
Hoje, vivemos um choque cultural parecido: somos a primeira geração da internet. E sofremos o impacto dessa descoberta. Semana passada, estava diante de uma turma de Comunicação com a pergunta recorrente:
"Afinal de contas, o que o ciberespaço traz de novo?".
O francês Pierre Lévy é o mais lúcido entre os tantos autores que já li. Em destaque os livros: Cibercultura e A Conexão Planetária, ambos da Editora 34. Outras obras interessantes de outros estudiosos são Futurize a sua empresa, de David Siegel, da Futura; Regras para Revolucionários, de Guy Kawasaki, da Campus; Blur, de Stan Davis e Christopher Meyer, da Campus.
Eis aqui um resumo, com algumas adaptações, da visão de Lévy sobre a história dos seres humanos, levando–se em conta a comunicação entre interlocutores e receptores:
Comunicação oral. Um interlocutor para um receptor, com necessidade da presença física entre os dois.
Escrita manual. Um para alguns, sem a necessidade da presença física;
Livros impressos e jornais. Um para muitos, sem a necessidade da presença física;
De massa (rádio e tevê). Um para muitos, ao mesmo tempo, sem a necessidade da presença física.
Internet. Um para muitos, um para um, muitos para muitos, sem a necessidade da presença física, ao mesmo tempo, ou não, conforme a preferência.
Assim, o que a rede traz de novo, comparado ao que tivemos até aqui, é a possibilidade, finalmente, da interação coletiva. E ainda da geração de conhecimento, a um custo reduzido, entre pessoas distantes, que inclui um novo modelo de troca de informações e mercadorias entre as empresas.
Exemplos: sites que os leitores lêem, opinam, votam, além de blogs, chats, listas de discussão, leilões virtuais, produtos feitos por encomenda e entregues na casa do comprador.
Os projetos que apontam nessa direção de interação e personalização tendem a se popularizar. Ou seja, entramos na web para ter algo diferente. E se pressinto que estou sem isso, clico e vou para onde atendem o meu instinto de navegar em um novo ambiente.
Me perguntam: o que você acha daquele determinado website? Quais são as ferramentas? A que custos? Como elas se encaixam no objetivo do criador?
O projeto entendeu a circunferência? Ou simplesmente vê o planeta achatado?
Como Magalhães, descobrimos um estreito na imensidão do mar. Resta–nos abrir as velas do nosso barco e o nosso espírito. E a cada conectada, acreditar realmente que estamos diante de mundo diferente e cada vez mais redondo, redondo, redondo… [Webinsider]
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